Atalhos de Campo


28.5.17

afectuoso consolo

Hoje, entre outras (muitas) coisas, releio uma carta da correspondência entre Agustina e José Régio, de 1957. O pai de Régio morrera e Agustina, embora sabendo disso, resolve manter-se em silêncio, escrevendo mais tarde que, quando alguma coisa que tem raiz em nós acaba é muito difícil perdoar a nós próprios até a lógica. A minha maneira de consolar é quase abster-me de estar presente como qualquer outra criatura viva, útil e insidiosamente humana. Régio responde dois meses depois, o seguinte: Claro que as palavras nada remedeiam num desgosto aliás irremediável. Mas, quando nos vamos sentindo cada vez mais sós, sempre nos sabem bem algumas palavras afectuosas que, pelo menos, (e nem sempre o termo ilusão é justo) nos dêem a ilusão de não estarmos desacompanhados de todo.

Fico a pensar que a amizade pressupõe autenticidade e franqueza, mas, em determinados momentos muito particulares, também a generosidade de nos sabermos colocar no lugar do outro e de actuarmos como ele gostaria e esperaria que fizéssemos. E isto encaixa-se em mim que nem uma luva. A minha insociabilidade comodista levou-me a falhar duplamente este fim-de-semana. 

2 comentários:

  1. E quem nuca errou, que atire a primeira pedra.
    Acontece.
    Gostei de ler.
    Boa entrada de semana.

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