Atalhos de Campo


5.5.17

a centopeia

Se o mundo fosse perfeito, não teria morto a centopeia. O cão viera chamar-me várias vezes até eu me resolver a ir ver o que se passava, seguindo-lhe o focinho que parara, apontando a parede. A brilhar como uma pulseira de cobre sob a luz do candeeiro, estava uma enorme centopeia, imóvel, resplandecendo sobre o branco. Só mexia as antenas, e, consciente do seu tamanho, nem fugiu. Fiquei horrorizada com a ideia de ter em casa, como animal de estimação, uma centopeia bem tratada e sem medo de mim. A obrigação imediata de me livrar dela, levou-me a arquitectar a melhor maneira, a mais rápida, sem ter de a assustar. Se ela fugisse seria complicado, portanto tinha que ser infalível. Mas enquanto eu pensava nisto, a centopeia descontraída retomou a sua marcha de cem pés, começando a subir lentamente a parede. O primeiro impacto do insecticida apanhou-a desprevenida. Atordoada pela atmosfera de gás tóxico caiu no chão debatendo-se, mas não morreu. Ao invés disso enrolou a cauda, elevando-se como uma pequena cobra para enfrentar o perigo. Respondi como pude, acabrunhada por usar uma arma mortífera, e à terceira vaporização seguida vi-a tornar-se progressivamente pálida e inerte. Depois levei-a numa pá para dentro da lareira. A centopeia acabara de morrer e estava a ser cremada minutos depois de a ter descoberto, porque não podia viver feliz na mesma casa que eu, pelo menos com o meu conhecimento. E apenas isto, porque no mundo com todo o mundo, é assim.