Atalhos de Campo


27.5.17

infinitude indecente

A vida não é nada; a morte é tudo. Porém, não existe algo que seja a morte, 
independentemente da vida. É precisamente essa ausência de realidade distinta, 
autónoma, que torna a morte universal; ela não tem um domínio próprio, ela é 
omnipresente, como tudo o que carece de identidade, de limite e de duração: 
uma infinitude indecente.

Cioran/ Do inconveniente de ter nascido

no remoinho

Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha 
desde manhã até à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
não serão mais que uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim te vi em cada manhã,
quando sobre ti mesma te inclinas
no espelho. Ó amada esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que tu és a vida e és o nada.

Para todos tem a morte um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixarmos um vício,
como vermos no espelho 
um rosto morto ressurgir,
como escutar uma boca fechada.
Desceremos, mudos, no remoinho.

Cesare Pavese / Virá a morte e terá os teus olhos
Tradução David Mourão-Ferreira

garantia

Agora que morreste, o dia do teu aniversário lembra-me que já não vives. Virá o tempo em que haveremos de reciclar o riso em vento e voltar a rir de tudo, espalhando muito pó. Isto supondo que a vida, esse estado transitório e vulgar, só os vivos ameaça, e que a morte existe como negação suprema dessa ameaça - que só a própria morte testemunhará no seu leito secreto. Mas hoje, foi mais uma vez por causa da tua morte, que um dia da tua vida me fez tanta falta. Apesar de saber que só agora estás, finalmente, em segurança.

resiliência no meu jardim


26.5.17

certidão

consta que usava botas e chapéu.

botas e chapéus

(...)
O uso das botas tornou-se verdadeiramente preocupante. Significa vontade de poder, isenção do vulgar comportamento feminino, e sobretudo a presunção de afirmar um carácter. É extraordinário como em clima ameno, em dias de sol, em pleno Verão até, o uso das botas se mantém. 
(...)

Agustina Bessa-Luís
A rubrica desta crónica é extremamente inspiradora
Crónica da Manhã



(...)
Seus olhos de novo fitaram aquela rapariga que, já d'entrada, lhe fizera subir a mostarda ao nariz. Logo d'entrada percebera-a sentada a uma mesa com seu homem, toda cheia dos chapéus e d'ornatos, loira como um escudo falso, toda santarrona e fina - que rico chapéu que tinha! -, vai ver que nem casada era, e a ostentar aquele olhar de santa. E com seu rico chapéu bem-posto. Pois que bem lhe aproveitasse a beatice!, e que se não lhe entornasse a fidalguia na sopa!
(...)

Clarice Lispector
Devaneio e embriaguez de uma rapariga
Laços de Família

orgânico



No man ever steps
in the same river twice,
for it is not the same river and
he is not the same man.

Heráclito

25.5.17

longe demais

fui viver para uma terra desconhecida por me ter apaixonado por uma casa; 
as paixões levam-nos sempre mais longe

vade mecum (veterinário)

Falava inglês como se tivesse um abelhão prestes a escapar-se-lhe por entre os dentes. Ao cabo de algumas tentativas para se conseguir explicar, perante a minha dúvida entre se seria francês ou alemão, em desespero arrisquei perguntar se falava francês. Fez-se luz: - Preciso de um remédio para isto, - e mostrou-me um enorme calo no calcanhar, que sobressaía da sandália. Mas está no veterinário, informei. Eu sei. Só que o medicamento que eu preciso é usado nas gretas das tetas das vacas, quando estão no campo ao calor... 

23.5.17

precisão

O que esperam de nós, quando nos solicitam uma eutanásia, é que ponhamos fim a um sofrimento bilateral sem causar mais dor, - vinha eu a pensar no caminho de volta, entre as curvas e as contracurvas do sol, sentindo-me extremamente tranquila por tê-lo conseguido. Ao lado, a mala dos domicílios oscilava com os movimentos do carro, por causa da estrada em muito mau estado. No fim tinha pedido para lavar as mãos, - não preciso de ir à casa de banho - frisei, supondo que poderia estar tão pouco limpa como o resto da casa. Num gesto preciso e aliviado, o homem indicou-me uma torneira com um regador por baixo. Abri-a e deixei o sangue do cão misturar-se com a água. É provável que ainda lá esteja. 

Mesmo longe da vivenda, persistia em mim o odor forte e adocicado do ambiente, apesar dos vidros abertos deixarem circular o ar por entre as janelas. O homem desculpara-se pelo abandono do jardim, outrora ao cuidado da mulher, já falecida. A casa não estava desarrumada, mas inocentemente suja. Tinha arrastado o Pastor alemão para o alpendre. Sugeri-lhe que tentássemos que o cão fosse pelo seu pé até à garagem, ele ajudando com a coleira, eu com uma toalha colocada adiante das patas traseiras. Enquanto tosquiava um trilho na pele ao longo da veia cefálica, ele contava que tinha vivido na Tanzânia, junto à fronteira com o Ruanda. Lembrei-me imediatamente de Dian Fossey, mas não comentei a razão desse meu pensamento. Na preparação do pentobarbital ele tentara voltar para Inglaterra e não se adaptara, mas fitara-me com uns olhos muito azuis, isto é mais parecido com África, bem, não é bem, mas é mais. Concordei, é mais, ao exemplificar como se consegue um bom garrote, lembrando-me dos diques no rio Incomati. 

A seguir, como quem faz um desenho preciso, mergulhei a ponta da lapiseira num rio subterrâneo, e enrosquei firmemente a seringa. Os passarinhos continuaram a cantar como se nada tivesse acontecido, porque não sabiam da minha alegre determinação.

22.5.17

canção de embalar



Ai eu amei, dois olhos negros
dois olhos negros
sem fazer mal a ninguém

para a menina dos olhos negros

Nos olhos brilham asas negras   
Na pele dorme uma pétala perfumada e doce, de flor
Na boca acorda um passarinho
No cabelo vence o génio de um compositor

Mas é nas mãos que batem palminhas
Que lhe encontro o voo das andorinhas
Que voltaram este ano por amor


22 de Maio de 2016

amizade através da rede






























































21.5.17

sensual



Ó amor, Ó celibato.
Mais ninguém senão eu
Caminha com água pela cintura.

Sylvia Plath / Carta em Novembro

dominical

Rego o pé das flores 
com a mangueira ecológica
Rego o pé das flores
com a mangueira ecológica
para o amor não tenho
nem um pingo de cuidar
para o amor não tenho
nem um pingo de cuidar
por isso acordo ao Domingo
sem ter uma flor de amar

Chego à cidade azul
das flores de jacarandá
no meu jardim do sul
trepa um novo maracujá
no meu jardim do sul
trepa um novo maracujá

Entrego uma moeda só
por um copo de cerveja
os golos ficam marcados
com a espuma do frio
os golos ficam marcados
com a espuma do frio
na mesa onde sobrou
o teu lugar vazio

O homem era gordo e alto
e gritava qualquer coisa
a guitarra ainda mais alto
mandava calar a harmónica
as panelas na cozinha 
ralhavam em percussão
o teatro ficou surdo
o teatro ficou surdo
até que veio outro homem
com uma alma melódica
e acabou a discussão

O homem era magro e calmo
como um rio no Verão
o homem era magro e calmo
como um rio no Verão
pela boca gemia um salmo
que lhe fugia da mão

A minha voz é um barco
no delta do Mississipi
A minha voz é uma vela  
acesa na Ria Formosa 

Nas linhas da minha guitarra
dedilho Andaluzia
Com a boca ele desamarra
e prende ao cais a prosa
de harmónica melancolia

Rego o pé das flores
com a mangueira ecológica
Rego o pé das flores
com a mangueira ecológica
e depois, baby 
já no fim
volto o chuveiro para mim.

sob o azul dos jacarandás

Felix Slim * Teatro Lethes

19.5.17

espiritual



'O plunge your hands in water,
 Plunge them in up to the wrist;
 Stare, stare in the basin
 And wonder what you've missed.

W.H.Auden / As I walked out one evening

vacutainer amável

como lhes digo que sinto um vazio
e que esse vazio és tu

um deles perderá a cabeça



Der fliegende Höllander

Sentado no terraço, uma sombra entre as estrelas e as luzes de todo o vale, absorto em pensamentos, fixava o farol da Culatra hipnotizado pelo aviso aos navegadores, ainda mais premonitório à distância. Abandonara-se ao mutismo da noite fresca, inquietada aqui e além pelo restolhar do vento nas folhas dos arbustos. Detivera-se a analisar esse grande ilusionista que é o cérebro, usando os seus próprios meios e meandros. Podia muito bem ter vivido toda a vida uma ilusão, a linha do horizonte não era mais do que isso, era aliás a prova irrefutável disso, o canto dos pássaros uma série de sons encenados pelo cérebro, as cores uma miragem de luz sobre a retina e o nervo óptico, as flores pequenos devaneios de perfume. Caíra no engodo da arte, sobretudo da música, aquela que ouvia num arrepio que não sabia se fora provocado pelo súbito arrefecimento, se por um soluço da alma. Nunca o seu cérebro lhe dera a sentir nada tão intensamente como a música, coisa alguma o reduzira tanto a uma partícula do cosmos em comunhão com o Universo, a mais uma célula em comunhão com a Humanidade. Aproximou os joelhos magros para aconchegar as pernas altíssimas, assentou os cotovelos sobre elas e ali ficou, sem pressa de regressar a casa. Se tinha tudo, então por quê essa atracção irremediável pelo mar, por partir, por passar a barra e apenas ir, sem destino, sem fardos, sem nada? Tantos anos e ainda não encontrara o essencial, mantivera-se enredado no equívoco do conforto, fora apanhado na rede como um peixe atrás do isco. E sufocava. Mas agora já era tarde para se fazer de novo ao mar, já era tarde para partir. Levou as mãos aos olhos para limpar uma lágrima, e nem reparou na fatia de lua que lhe escorregou por entre os dedos e que ficou ali, a brilhar no chão. Ultimamente acontecia-lhe isto, emocionava-se com facilidade, disse, ao entrar em casa.    

15.5.17

conversa de barbeiro

...e por muitos canitos que tenha visto na sua vida, nunca foram tantos como os cortes de cabelo que me passaram pelas mãos. Ah!, é então barbeiro... Não, cabeleireiro, mas de homens. Só em Nova Iorque trabalhei quarenta anos, depois Buenos Aires, depois Portugal. Mas os primeiros tempos em Nova Iorque, com aquela mania dos Beatles, foram uma desgraça, uma crise para os barbeiros, ninguém cortava o cabelo. 

Não pude evitar uma gargalhada, logo arrependida. Foi tremendo, não se ria. Tive que guiar um taxi por aquelas ruas, para sobreviver. Adoeci e estive quatro meses sem trabalhar... foi muito difícil. A seguir voltei, depois de tirar um curso de cabeleireiro. De senhoras? Não, de homens, só de homens. Nunca penteei nem cortei o cabelo a uma única mulher. Sabe, as senhoras têm aquela mania de querer o cabelo igual ao da outra, e quando não fica bem acham que nós é que não as soubemos pentear. Foi precisamente aqui, com um gesto involuntário, quase imperceptível, que levei a mão ao meu cabelo. Tem razão, os cabelos comportam-se todos de maneira diferente...  Presentemente estou aposentado, mas fui muito feliz na minha profissão. E também ganhei muito dinheiro. Agora não se fazem cortes como antigamente, já reparou? Rapam o cabelo e pronto. Desta vez nem sorri, pressentindo nova crise.

E quando A., cabeleireiro de homens, se despediu, afirmando que era bom que os homens se tratassem entre si como os animais tratam o homem, eu fiquei a imaginá-lo a pentear um beatle.

13.5.17

13 de Maio de 2017

Ao caminhar, descubro uma capela por entre a vegetação. Vou fotografando o que vejo, trilhos, flores, árvores, pedras, o meu cão, enquanto inexplicavelmente me dirijo para lá. Na proximidade, leio numa placa: Capela de Nossa Senhora de Fátima. A porta está entreaberta. Entro. A capela é pequena e simples, construída em 1959, e está vazia. Por detrás do altar há um vitral numa espécie de escotilha, dividida em quatro pela cruz de Cristo. À direita, uma imagem voando da parede, sugere-me a ressurreição; à esquerda está a réplica de Nossa Senhora de Fátima. Rezo uma Ave Maria. 

aproximação







cren disse

12.5.17

desmilagre

lembrei-me da vela, que, por milagre, nunca mais ardia

três

Quando era criança achei que os meninos tinham mentido.
Se eles tinham visto, porque é que eu nunca via nada?

Quando era adolescente suspeitei que alguém usara a mentira
E revoltei-me contra isso.

Quando era mulher duvidei
e pus-me a rezar.

Hoje acredito que nenhum menino é capaz 
de mentir a milhões de adultos
durante um século.

chorar à vontade



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração

Amália (voz)
Alain Oulman (música)
Alexandre O'Neill (poema)




E se ouvirem a Amália cantar a *Gaivota*, 
versos deste senhor, podem chorar à vontade.
E podem molhar os sapatos, estão garantidos
para a eternidade.

Clara Ferreira Alves/ O'Neill e os atacadores da língua
Expresso E 6/Maio/2017

11.5.17

pirâmide de necessidades

À despedida, B. diz-me que a idade não tem muita importância, que o que para ele é importante é a felicidade de poder olhar o mar ao longe, e de ainda conseguir distinguir aquele barco, está a ver? - Eu não consigo, sou míope, respondo-lhe, aceitando o seu cartão de visita, com letras e números minúsculos. Não sei como fiz isto, - comenta - mandei fazer uns cartões que ninguém consegue ler... Mas eu consigo - respondo-lhe.

tocar

No caminho de regresso a casa venho a pensar na pergunta que ela me fez, depois de eu elogiar o piano que têm na sala. Toca?- pergunta-me em inglês. Infelizmente não - respondo. Em português tocar serve para tocar piano, mas em inglês não, portanto poderia ter respondido, no, unfortunately I d'ont play, but I can touch.

dedos



torso


braço
























10.5.17

enquanto chove

Enquanto chove e escrevo, sentada no sossego do escritório, lembro-me da beleza do sítio onde estou, tão diferente da anterior planície. Vivo rodeada de montanhas, suavemente femininas, que, por vezes, dependendo da transparência do céu, deixam ver o mar. O caminho que percorro é belo, surpreendente a cada curva, as pedras dos muros, mesmo dos que estão em ruínas, encaixam na paisagem na perfeição, a vegetação é exuberante e natural, a terra vermelha e florida, as casas distanciam-se da estrada isolando-se numa espécie de privacidade encantada. Ciprestes majestosos ultrapassam o cume das montanhas para ficarem mais perto do sol. Não admira que um certo tipo de pessoas tenha escolhido este perfeito ninho da natureza para viver.         

9.5.17

o rei

os meus amigos intelectuais, por quem eu ponho as mãos no fogo,
bem entrados na vida, que já eram casados quando eu andava na 
escola primária e cantava o calhanbeque, sempre se referiram ao 
Roberto Carlos como o rei. agora juro que gostava que quem eu não 
conheço, que quem eu nunca vi, que quem é jovem como uma baleia
pudesse ouvir este rei

para ti

8.5.17

incorpórea

Vivo como se tivesse recebido um bónus de vida, que agora resolvesse gastar muito bem. Nada invejável, já que aquilo em que eu gasto esse dote de tempo não tem o mínimo interesse para a maioria. Pairo. Não quero perder a oscilação da luz nas sombras, nem a flor tardia daquela frésia branca que é a primeira do canteiro, nem o segundo lírio da haste, nem o azul único de um botão de anémona, nem o verde claro das vagens de alfarroba, nem o verde escuro do figo que ainda cresce oculto entre as folhas, nem o perfume de mel do allyssum, ou a essência forte do jasmim e das petúnias. Sinto a leveza imaterial do ar aveludado pelos pássaros, observo os seus pequenos truques para roubarem nêsperas, sigo o voo rasante, quase suicida, do melro que se atravessa no meu caminho junto ao asfalto quente, na passagem para a noite. Cumprimento todos os dias o louva-a-deus que vive num cacto do jardim, reparo que está muito maior, e descubro o seu casaco anterior pendurado num espinho. E de manhã acordo com o pensamento nas flores, sem nenhuma dor, e sem o mínimo desgosto, apenas eu, livre do meu corpo.     

6.5.17

Instinto

Uma mulher espreita a minha neta, enfiando a cabeça no carro de bebé, encantada. Ficamos tensos. O seu rosto é redondo, os olhos esquivos. Percebemos que tem um atraso e tememos que seja imprevisível como um gato, mas não, está apenas cativada pela criança e mete-se com ela, não lhe tocando. Mais tarde sei que se trata de Glória, a mulher errante. Contam-me que foi mãe há trinta e um anos, mas que lhe retiraram o filho à nascença para o entregar a uma instituição, um rapaz perfeitamente normal, hoje já com um curso. Mas Glória, a glorinha, gravou em si o dia em que perdeu a criança recém-nascida, e na sua busca incessante desse dia encontra-a em cada berço, transfigurando-se. Ontem ouvi-a dizer ao meu lado, no mesmo café: 
- Sabes que dia é Domingo? É o dia da mãe.  

5.5.17

a centopeia

Se o mundo fosse perfeito, não teria morto a centopeia. O cão viera chamar-me várias vezes até eu me resolver a ir ver o que se passava, seguindo-lhe o focinho que parara, apontando a parede. A brilhar como uma pulseira de cobre sob a luz do candeeiro, estava uma enorme centopeia, imóvel, resplandecendo sobre o branco. Só mexia as antenas, e, consciente do seu tamanho, nem fugiu. Fiquei horrorizada com a ideia de ter em casa, como animal de estimação, uma centopeia bem tratada e sem medo de mim. A obrigação imediata de me livrar dela, levou-me a arquitectar a melhor maneira, a mais rápida, sem ter de a assustar. Se ela fugisse seria complicado, portanto tinha que ser infalível. Mas enquanto eu pensava nisto, a centopeia descontraída retomou a sua marcha de cem pés, começando a subir lentamente a parede. O primeiro impacto do insecticida apanhou-a desprevenida. Atordoada pela atmosfera de gás tóxico caiu no chão debatendo-se, mas não morreu. Ao invés disso enrolou a cauda, elevando-se como uma pequena cobra para enfrentar o perigo. Respondi como pude, acabrunhada por usar uma arma mortífera, e à terceira vaporização seguida vi-a tornar-se progressivamente pálida e inerte. Depois levei-a numa pá para dentro da lareira. A centopeia acabara de morrer e estava a ser cremada minutos depois de a ter descoberto, porque não podia viver feliz na mesma casa que eu, pelo menos com o meu conhecimento. E apenas isto, porque no mundo com todo o mundo, é assim. 

dá-me terra






































































































































3.5.17

fantasia para dois limoeiros

Em dois quintais contíguos vivem dois limoeiros que nada têm em comum: um é generoso, o outro sovina. O porte das duas árvores está também em consonância com a atitude: o limoeiro que dá é harmonioso, não muito alto, e estende vários braços com mais limões do que folhas, ao ponto de poder partir algum deles com o peso. Os limões são grandes, redondos e maduros e toda a árvore é uma aparição no meio do quintal. Sánchez Cotán poderia muito bem ter sido inspirado por um destes belos limões, é o que penso enquanto arranjo a fruteira. Já o limoeiro sovina todo se retrai à passagem do mais pequeno mamífero, escondendo os limões escassos e emaciados por entre folhas e espinhos, lá para o alto da copa esguia. Também tem a particularidade de dar laranjas num ramo baixo, com as quais tenta ludibriar quem vai à procura de um ansiado limão, num sítio dominado por laranjeiras. Acontece que ontem fui encontrá-lo sem um único fruto, nem daqueles mais raquíticos que mesmo assim esconde na mão fechada. Tudo fora apanhado. O limoeiro havia sido escanhoado, o cabelo cortado fazia uma poupa a tresandar a after shave de odor citrino, e esticava altivamente o pescoço com desdém, empertigado com o tratamento. Olhei de imediato para o outro lado através da rede, não podendo disfarçar a minha cobiça - uma dádiva da natureza aquele limoeiro vizinho, um esbanjamento - e voltei para casa cabisbaixa, com um suspiro e uma laranja verde na mão. Não sei o que entretanto se passou, nem bem porquê, mas se acreditasse em coincidências acharia esta uma bela coincidência: de manhã, pendurado para o lado de dentro do meu quintal, estava um saco de plástico, repleto, sim, repleto, daqueles maravilhosos limões.

Explicação das flores

viva a pinha

talvez seja importante a festa
nada pode superar a força do grupo
uma caravana com mais do que um século
avança entre tochas a arder na noite
cavalos artilhados espumam de esforço
sinos saúdam a nova estação
vestida de flores e de fogo 
nada sei do sítio onde estou
mas o som dos cascos dos cavalos
ainda ecoa dentro e mim
quando a banda há muito me passou 

2.5.17

voltar ao mesmo dia

o dia está lindo
reguei o jardim de manhã cedo
os pássaros cantavam ao som da água.
vi mais oito botões
numa única roseira
as frésias inclinavam-se como vénias  
perante os lírios amarelos e firmes,
bailarinos em pontas sobre a terra

é para este palco luminoso
e imperturbável
que sinto saudades de voltar 

1.5.17

extrapolação

o óbvio é o primeiro grau do temível

experiência constructivista

ouço-lhe nos bicípedes
portadas
já bebi dois cafés

apressa-se 

eu contemplo
que o lírio afinal é amarelo...
quis deus.

depois
pressinto-lhe as gotas 
salgadas
e um uivo contra mim 
em coro com a enxada
a terra
escuto-lhe a cova
também o osso fundo do silêncio

na marcha das botas 
profetizo-lhe saídas e entradas

árvores, árvores
frutos, frutos, frutos
mais árvores plantadas

perante a minha debilidade
de caules leves
de flores aladas
teme

processo-lhe o medo
interessada 
no pomar

muito pior do que não plantar
uma, duas, três
é ter de as derrubar um dia
se é manga e castanha,
antes fosse uma só
em fruto único viveria

não é para dez anos
que se planta um filho
é preciso espaço 
algum dinheiro, um único trilho 
e muito mais do que um tinteiro

e os ciprestes que assistem ao silêncio
nem tremem, porque sabem de anatomia.

objectivo fracturante

o meu objectivo é rodear-me de flores
não de fructa

estarei agora em condições
de escrever um poema

ilustração


homofonia

(...)
em novas coutadas
junto de uma Era
nascem flores vermelhas
pela Primavera
(...)