Atalhos de Campo


20.4.17

measles

Aconteceu há muitos anos, no tempo em que os pais com vários filhos juntavam as crianças, mal uma delas adoecia, para que todos fossem tratados simultaneamente. Assim todos tivemos sarampo, varicela, e outras doenças. Quando algum de nós aparecia com febre, em vez de ser posto em isolamento, era precisamente estimulado a permanecer junto dos irmãos, para que houvesse sincronia na doença e abreviamento do período de tratamento. Felizmente nunca correu mal, isto é, ficámos sempre todos doentes, e foi assim que o meu irmão mais novo contraiu sarampo ainda no berço. Só bem mais tarde vim a saber que o vírus da esgana, doença infecto-contagiosa do cão, é da mesma família que o vírus do sarampo, e que no cão, uma vez contraída, a doença mata ninhadas inteiras. Sintomas ligeiros de rinite evoluem para pneumonia seguida de gastro-enterite. Por fim uma encefalite origina paralisias, convulsões, e morte ou sequelas graves nos poucos sobreviventes. Portanto, no cão, é urgente vacinar para reduzir drasticamente o desfecho quase sempre fatal da doença. Hoje em dia é raro aparecer um caso de esgana por causa da vacinação maciça dos cachorros, e do cuidado na sua revacinação. 

Foi precisamente num desses períodos de cura que certa vez que os meus pais foram ao cinema nos deixaram entregues a alguém que veio tomar conta de nós e levou companhia, uma mãe e uma filha, ou talvez uma tia e uma sobrinha. O certo é que, quem quer que fosse, ia munida de uns livrinhos de histórias para crianças que ia contando a pedido. Mas as histórias nada tinham de encantar, eram antes povoadas por criaturas que elas resolveram a certa altura encarnar, rugindo e apagando as luzes para nos caçarem às escuras, bruxas vivas e lobisomens, monstros à solta pelos quartos, gritos de pavor, sofrimentos e várias mortes, pedidos implorativos para acabarem com aquela, que contassem outra, mas a seguinte era ainda pior. Ficámos petrificados, cansados. O teatro acabou muito antes de os meus pais chegarem a casa. Tudo estava aparentemente normal e nós dormíamos, exaustos e olheirentos, quando eles apareceram. Mas ainda hoje me lembro do ambiente de terror que vivemos, e do que nunca mais foi igual.

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