Atalhos de Campo


2.4.17

Anjo

Por esta hora, cedo para um Domingo, a minha irmã ainda não dormiu. Durante toda a noite vigiou a temperatura daquele filhoesculpido em barro com as próprias mãos. Eu chamo-lhe anjo. Embora não lhe encontre asas sei que ela fez um anjo, um anjo de terra, moldado para que os homens possam vê-la no lugar do coração, através dos braços postos, as mãos juntas colocadas sobre a ausência de corpo. E agora esse anjo, esse projecto arrojado de um filho, está deitado no forno, não um forno crematório mas um ventre de temperaturas altíssimas, como é o interior da terra. Uma gestação vigilante sem hipótese para distracções, a espera ansiosa pelo arrefecimento certo, que pode durar mais do que um dia para que o barro não abra fissuras - como a superfície do solo - durante a passagem para este mundo. E depois, depois a surpresa à abertura do forno já frio, que pode ser de assombro ou de sobressalto. O nascimento de um anjo assim, será sempre um triunfo da humanidade.  

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