Atalhos de Campo


6.4.17

amor pela correspondência

fantasio sobre aquele casal muito jovem que gere o pequeno posto dos correios da vila: ela, morena e sardenta, rosto comprido e sorriso branco a aparecer por entre o cabelo escuro e teimoso, escondida atrás de uma secretária-balcão no meio de invólucros manuscritos, manuseando carimbos, pacotes e encomendas, separando e despachando, controlando a enorme parede postal da entrada, feita em tijolo de segredos sobrepostos e bem fechados à chave; ele, que eu nunca vi, mas que pressinto quando pára à minha porta e se inclina para a caixa do correio, que segue num arranque rápido e estridente dobrado sobre a motorizada caminho fora por entre quintas e courelas, a derrapar nas estradas poeirentas de sol, ou de chuva e de vento protegendo o peito magro, ele que salta para abrir a mala postal, para distribuir, para decifrar e para entregar na mão certa que volta as costas e assina, ele já ansioso pelo regresso, exausto e vazio como uma carta de amor lida dezenas de vezes, quando finalmente volta em segurança ao longo e silencioso abraço do seu envelope 

6 comentários:

  1. Os carteiros ainda entregarão cartas de amor? Ou de amizade? Parece-me que já só se entregam cartas de cobranças. :)

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    1. Penso o mesmo, luisa. Agora só nos resta ver O Carteiro de Pablo Neruda :)

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  2. Que ideia tão bonita essa do envelope, Teresa. De facto, quem não precisa de voltar, ao fim do dia, para o seu envelope?
    :-)

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    1. Era uma vez um livro que vivia numa cozinha iluminada... e que um dia partiu, à Descoberta do Mundo. Agora vive (também) comigo.
      Obrigada, querida Susana.

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