Atalhos de Campo


12.4.17

Amarante

É macio como um antigo tapete persa. Enfio a mão com dificuldade pela rede de malha larga que nos separa, enquanto ele espera e se encosta mais, o mais possível, ao ouvir que é bonito. Amarante é um cão grande, um pointer maravilhoso, que troca todos os dias de lugar com as galinhas, senão já não havia galinhas, nem galo. É solto de noite para guardar o quintal, enquanto elas recolhem e se aninham para dormir, empoleiradas no limoeiro. Amarante leva a sério essa nova função, esse posto de guarda-nocturno que lhe deram quando a caça para ele terminou, com a morte do dono. Quer justificar a sua habilitação como cão de trabalho, precisa de sentir que consegue ganhar honradamente a magra ração que come e que o deixa magro. Por isso aceita a tarefa com humildade, correndo em volta do terreno, atirando-se à rede com convicção, surgindo de surpresa do meio dos arbustos que escondem a estrada, empertigando-se e engrossando a voz. Mas às vezes uiva, infeliz, num longo lamento como um fado triste. Sinto-lhe as orelhas cada vez mais grossas de carraças, adivinho o perigo dos fins de tarde pegajosos de insectos, sei que Amarante desconhece esses perigos que vão matando aos poucos, porque agora ainda corre alegremente, esticando a cauda de vime para açoitar com veemência o mau presságio do lusco-fusco. Um dia os seus olhos esmorecerão, levantar-se-á com o sacrifício da febre, e o veterinário dirá que foi tarde demais. Olho para ele e nem sei se é Amarante, o cão que corria num jardim da minha infância, porque em todos os jardins abandonados vive um cão fiel.           

2 comentários:

  1. Trata do Amarante, pois também te vais sentir melhor(tratas-te a ti também ) , pois precisam um do outro, o bem mora na nossa porta. Não alimentos a dor do Amarante, alimenta o saudável.

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    1. A mulher partiu a pipeta pela zona marcada. Introduziu a mão já habituada através da rede forte em arame e como um ilusionista colocou o seu conteúdo em vários pontos do dorso do cão, imóvel pelo hábito das festas. Depois as carraças foram caindo, como que por milagre.

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