Atalhos de Campo


22.4.17

a beata

Descubro duas beatas junto ao degrau do meu pátio. Depois uma terceira. São beatas recentes, de ontem ou anteontem. Leio a marca escrita em itálico junto ao filtro, mas não a fixo. Sinto um ligeiro mal-estar com o facto de alguém aproveitar a minha ausência para fumar, sentado junto à entrada da minha casa, e ainda por cima sobre a floreira dos amores-perfeitos, que encontro bastante amachucados. Pergunto-me que desculpa dará se por qualquer motivo der de caras comigo, ou se andará a estudar-me os movimentos, e por cálculo de probabilidades souber, com pouca margem de erro, que a hipótese de isso acontecer é muito remota, acendendo calmamente outro cigarro. Ao apanhar as beatas do chão tenho a sensação estranha de que se trata de uma mulher. Há homens assim, descarados, mas andam mais ocupados. Será portanto uma mulher que se senta aqui quando eu não estou, a contemplar o meu jardim, enquanto fuma. Sinto-me até lisonjeada, mas só por breves instantes. Sim, porque nunca vi ninguém. Só as beatas acintosas provam que aqui esteve alguém. Pode ser a mulher que já vi por estes lados, a pedir. Mas, se for ela, usará o dinheiro para comprar cigarros. Afasto essa ideia da cabeça: a mulher é fumadora, mas contemplativa. Vem aqui porque gosta de ver o jardim, enquanto fuma. No entanto amanhã vou buscar uma beata daquelas e vou guardá-la com uma etiqueta. Nunca se sabe.        

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