Atalhos de Campo


18.3.17

robaletes

Maria tomou em suas mãos o último peixe que Simão lhe estendeu. Já em casa, Maria lembrou-se, contrariada, que haveria de amanhar os três peixes. Quando os foi buscar à mesa da entrada, onde os pousara, encontrou-os cercados por três gatos, que estacaram por segundos, antes de fugirem com o olhar assustado. Maria levou os peixes para dentro, calçou as luvas de cozinha, lavou-os, e, escolhendo o maior, aconchegou-o em sua mão esquerda, tomando-lhe a beleza. Pegou então na tesoura para o abrir ao longo da linha do abdómen, aproveitando o orifício natural. Maria procurou o fígado e puxou devagar, arrastando para o exterior todo o conteúdo da cavidade lisa. Fez o mesmo com as guelras, segurando-as com firmeza debaixo dos opérculos, e começou a escamar o peixe sob a água corrente. O odor era intenso, como se houvesse uma adrenalina post mortem que continuasse a libertar-se durante toda a operação, até a pele nua lhe surgir a brilhar, e os finos vestígios de sangue que lhe corriam por entre os dedos desaparecerem. Colocou-o, já limpo, no prato: só então se deteve nos maxilares, que haviam congelado a última inspiração aflitiva, e nos olhos onde ficara gelificada uma ínfima porção de céu.      

6 comentários:

  1. já me dou mal com a bancada de peixe da dona maria, quanto mais agora, depois deste texto tão bem escrito...

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    1. em cardume é mais fácil, dizem os entendidos...
      um bom Domingo, ana
      obrigada

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  2. Lendo este texto, quase fico a achar que afinal até podia gostar de amanhar peixe. Mas não. Prefiro apenas ler sobre isso. :)

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    1. Muito sensato. E em termos gerais, também.
      Bom passeio, amanhã. Mas nesse caso, até ia... :)

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  3. é tão bom de ler, Teresa.
    a sua sensibilidade nas palavras comove-me.

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    1. percebo o que quer dizer, flor
      as palavras sentiram-me muito

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