Atalhos de Campo


25.3.17

a senhora do shopping

- Olá, tu aqui!! Há que tempos que não te via...

Com certeza era engano. Eu não conhecia aquela senhora de - há que tempos - mas, curiosamente, à medida que a nossa distância diminuía no tempo e focava os seus olhos de azul comedido nos meus, mais tinha a certeza de que ela poderia muito bem ter razão, já nos havíamos conhecido.

- Ah, desculpe - continuou, verificando a minha estranheza - confundi-a com uma amiga minha, é tal e qual, (mas eu também vejo mal); só agora reparei que ela tem o cabelo mais escuro, até ia comentar, agora és loura, mas noto que está bronzeada e o cabelo...

- ... eu também vejo mal e até me pareceu de longe que de facto me poderia conhecer, tentei recordar-me de onde, mas sendo assim, uma vez que admite que não me conhece, então muito prazer, eu também acho que estou com o cabelo mais claro e a pele mais escura, é de apanhar sol, a jardinar...

- jardinar faz bem, mexer na terra... - e olhava para as minhas compras, enchidos, bifes, um ferro de engomar, um saco de pinhas, uma alface pindérica, lá para o fim.

- concordo consigo, alivia o stress... - logo eu que tivera um ataque carnívoro hoje, e reparava nos collants de delicadas flores azuis que lhe trepavam pelas pernas finas como hastes e se escondiam numa saia comprida de lã, para reaparecerem em frutos da terra que ela colocava suavemente sobre o tapete rolante. Tudo nela era coerência, o azul escuro dos sapatos picotados, de camurça, a magreza ocultada por panos leves e quentes sobrepostos, o cabelo curto cortado a rigor, quase branco, deixando sobre a nuca uma faixa propositadamente mais escura, a sugerir outrora.

Durante o pagamento ouvi-a dizer ao empregado:
- As tostas, estas tostas, que eu escolhi com tanto cuidado, são muito frágeis, qualquer pequeno toque, por mais ligeiro que seja, as desfaz em migalhas...
E ele, sentindo-se criticado:
- Alguns colegas meus atiram com as compras, eu costumo pousá-las...

Com um ligeiro desconforto percebi que os olhos sensíveis da minha conhecida desmaiaram na farinheira que ora deslizava descontraidamente em direcção à caixa, antes de corresponder com simpatia ao seu aceno de despedida.

6 comentários:

  1. era o início de uma belíssima amizade desconhecida...

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    1. Foi o que pensei. Por vezes deveríamos ser mais abertos às empatias...

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  2. Eu sou uma antipática, na dúvida nunca digo nada. E assim perco a possibilidade de uma amizade desconhecida :)

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