Atalhos de Campo


27.3.17

guarida

Enrolei bem o cacto em grossos tapetes de tear, depois peguei nas pontas e, evitando tocar nos picos, puxei. As raízes já estavam bastante soltas pelo trabalho anterior de tirar toda a terra em volta, e não foi difícil arrastá-lo do velho vaso até ao buraco fundo que havia preparado para ele. Compactei a terra em torno, reguei, e deixei-o a lutar pela vida naquele local, protegido por dois muros em ângulo recto. Depois fiquei com a missão espinhosa de salvar três tapetes cravejados de picos. 

Comecei a vigiar o cacto amiúde, a espreitar-lhe os ressentimentos, as feridas (poucas), a mimá-lo com boa terra, que lhe aconchegava ao redor como uma gola alta, a ministrar-lhe adubos. E foi nessa altura que reparei em algo semelhante a uma pequena palha, que talvez tivesse ficado ali sequestrada entre aqueles aguilhões compridos, mas que parecia mover-se entre eles com vontade própria contrariando o vento, e, ao invés, os usava como protecção. Observando com mais atenção vi que era um insecto, ou melhor, uma miniatura de guerreiro-insecto, que me olhava fixamente enquanto se movia oscilando as longas patas, e que juntava as pinças em oração, não para implorar que não lhe fizesse mal, muito pelo contrário, era um louva-a-deus corajoso, um cruzado. Talvez já lá vivesse antes, e se tivesse conseguido equilibrar, também, durante aquele transplante inusitado, ou ali se refugiasse depois, isso nunca saberei.  

O cacto sofreu um pouco com a mudança em pleno Inverno, mas agora recupera a olhos vistos, e o seu único hóspede lá se mantém, apesar da chuva, do vento e do frio. Presumo que se agarra como eu aos espinhos e que é assim que se consegue salvar. Hoje fui vê-lo de propósito, logo de manhã cedo. Olhou-me, acredito, com a mesma admiração que eu lhe tenho. Estava vivo. Ainda bem.    

Empusa pennata






















granizo

(...)
E granizo enorme, com o peso de um talento, caiu do céu sobre as pessoas; 
e as pessoas blasfemaram [contra] Deus devido à praga do granizo, 
porque a sua praga era mesmo enorme.
Apocalipse 16:21
nota:«um talento»: sensivelmente 45 kg.

BíbliaVolume II
Tradução por Frederico Lourenço
Quetzal 

25.3.17

parceria

Callas, a leitura do Apocalipse

à lareira (2)

pequenas achas ardem sozinhas

fava beans in wonderland

Pesa as favas acrescentando que as costuma descascar enquanto vê televisão, que não é capaz de estar ali sentada sem trabalhar. Admito que para mim vai ser mais difícil porque não vejo televisão, mas quando chego a casa lembro-me que o jardim é o melhor ecrã.  

aviso de recepção

Um blogue pode não terminar por uma eventualidade. Entrei na mercearia onde sou cliente, mas desta vez para perguntar onde era o correio. Aqui, apontou a proprietária em direcção à porta, sorrindo. Não me lembrava de ter visto nenhum posto dos correios nessa rua, culpei-me por distracção, saí, olhei, percorri o passeio, nada. Voltei atrás e entrei de novo, com ar interrogativo.  Aqui, aqui, apontou a simpática senhora para o lado de dentro. O correio é dentro da mercearia. E foi essa a única razão por que este blogue não acabou. 

a senhora do shopping

- Olá, tu aqui!! Há que tempos que não te via...

Com certeza era engano. Eu não conhecia aquela senhora de - há que tempos - mas, curiosamente, à medida que a nossa distância diminuía no tempo e focava os seus olhos de azul comedido nos meus, mais tinha a certeza de que ela poderia muito bem ter razão, já nos havíamos conhecido.

- Ah, desculpe - continuou, verificando a minha estranheza - confundi-a com uma amiga minha, é tal e qual, (mas eu também vejo mal); só agora reparei que ela tem o cabelo mais escuro, até ia comentar, agora és loura, mas noto que está bronzeada e o cabelo...

- ... eu também vejo mal e até me pareceu de longe que de facto me poderia conhecer, tentei recordar-me de onde, mas sendo assim, uma vez que admite que não me conhece, então muito prazer, eu também acho que estou com o cabelo mais claro e a pele mais escura, é de apanhar sol, a jardinar...

- jardinar faz bem, mexer na terra... - e olhava para as minhas compras, enchidos, bifes, um ferro de engomar, um saco de pinhas, uma alface pindérica, lá para o fim.

- concordo consigo, alivia o stress... - logo eu que tivera um ataque carnívoro hoje, e reparava nos collants de delicadas flores azuis que lhe trepavam pelas pernas finas como hastes e se escondiam numa saia comprida de lã, para reaparecerem em frutos da terra que ela colocava suavemente sobre o tapete rolante. Tudo nela era coerência, o azul escuro dos sapatos picotados, de camurça, a magreza ocultada por panos leves e quentes sobrepostos, o cabelo curto cortado a rigor, quase branco, deixando sobre a nuca uma faixa propositadamente mais escura, a sugerir outrora.

Durante o pagamento ouvi-a dizer ao empregado:
- As tostas, estas tostas, que eu escolhi com tanto cuidado, são muito frágeis, qualquer pequeno toque, por mais ligeiro que seja, as desfaz em migalhas...
E ele, sentindo-se criticado:
- Alguns colegas meus atiram com as compras, eu costumo pousá-las...

Com um ligeiro desconforto percebi que os olhos sensíveis da minha conhecida desmaiaram na farinheira que ora deslizava descontraidamente em direcção à caixa, antes de corresponder com simpatia ao seu aceno de despedida.

21.3.17

em resposta a um pedido

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta 
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus e degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade/ Lisboa
Coração do dia 




até à vista

20.3.17

altruísmo

sabes, um dia supus que te podia oferecer a primavera
mas o tempo fez-me descobrir que era impossível
porque a fazia regressar todos os anos.
espantei-me, insisti, lutei por isso tantos invernos... 
até que a primavera ganhou,
agora é minha.

pereira

































renascer sem data

(...)
Que a notícia circule entre os amolgados e feridos que somos todos; chegue aos que tentaram e falharam, aos sobrecarregados, aos que começaram a dizer que já é tarde; corra entre os que viram o fogo a tornar-se cinza e não voltar a acender-se, os que semearam e não colheram, os que olham assustados as mãos vazias; visite os desiludidos, os encarcerados nos seus desgostos, os enlutados, os perseguidos por aflições maiores do que as que podem suportar; resgate os que se perderam nos corredores longos e todos iguais dos seus invernos, os que sem saber como viram-se a pensar que a vida já não é para eles, os que caminham pelo tempo desolados e sós.

José Tolentino Mendonça (Expresso Revista 11/3/2017)

haja flores


































































































































































































































18.3.17

robaletes

Maria tomou em suas mãos o último peixe que Simão lhe estendeu. Já em casa, Maria lembrou-se, contrariada, que haveria de amanhar os três peixes. Quando os foi buscar à mesa da entrada, onde os pousara, encontrou-os cercados por três gatos, que estacaram por segundos, antes de fugirem com o olhar assustado. Maria levou os peixes para dentro, calçou as luvas de cozinha, lavou-os, e, escolhendo o maior, aconchegou-o em sua mão esquerda, tomando-lhe a beleza. Pegou então na tesoura para o abrir ao longo da linha do abdómen, aproveitando o orifício natural. Maria procurou o fígado e puxou devagar, arrastando para o exterior todo o conteúdo da cavidade lisa. Fez o mesmo com as guelras, segurando-as com firmeza debaixo dos opérculos, e começou a escamar o peixe sob a água corrente. O odor era intenso, como se houvesse uma adrenalina post mortem que continuasse a libertar-se durante toda a operação, até a pele nua lhe surgir a brilhar, e os finos vestígios de sangue que lhe corriam por entre os dedos desaparecerem. Colocou-o, já limpo, no prato: só então se deteve nos maxilares, que haviam congelado a última inspiração aflitiva, e nos olhos onde ficara gelificada uma ínfima porção de céu.      

14.3.17

dica sentimental

Per una migliore riuscita, tenere la busta di sementi 
in frigorifero per 15 giorni prima di seminare.

(transcrito da bula da verbena)

12.3.17

o milagre dos peixes e dos pães

eles passam na estrada e buzinam quando param.
abrem ambos as portas traseiras das furgonetas brancas:
Simão distribui peixes frescos; Bartolomeu, pão quente.
todas as quintas e sábados.

11.3.17

javardo

A desmancha ocorria com algazarra sobre uma mesa de carpinteiro, colocada à entrada do armazém de revenda. Eu só venho buscar daquele substrato para plantas, disse, voltando a cara, horrorizada. Os homens riam-se, em volta do cadáver. Um deles segurava os membros posteriores, esticando-os, enquanto outro esquartejava e rachava os ossos como se fossem lenha. Ali, a céu aberto, na adrenalina da matança, o coração do porco vertera sangue sobre o pavimento, mas os homens assistiam, eufóricos, à própria autópsia.  

9.3.17

Cassius

Kacio, escrevera o homem pálido sobre um pedaço de papel, que guardei na oficina. Mas Kacio era antes Acácio, corrigido pelo próprio ao telefone, com dicção estranha. Acácio chegou à hora combinada para montar o roupeiro. Trazia as ferramentas num balde de tinta reciclado, que oscilava ao seu ritmo sobre os barrotes do caminho. As perguntas que Kacio me fazia saltavam-lhe dos olhos negros como pássaros escuros. Acácio é um nome bem português, disse-lhe, enquanto Cássio travava um combate sério com as medidas. 

1.3.17

cinzas

Para voltar para casa escolho as estradas secundárias que se encaracolam pelo meio da serra. Embora percorra mais quilómetros, faço-o porque sei que a partir de certa altura tenho noventa e nove por cento de hipótese de não me cruzar com ninguém. Ligo os máximos sempre que o carro mergulha profundamente na escuridão. Ao atravessar a vila passo pela florista local, ainda de porta aberta e luz acesa. Trabalha, debruçada sobre uma coroa de flores.   

carnem levare

não me mascaro porque sou