Atalhos de Campo


23.2.17

chuva vertical

dizem que afinal existem 
não sei quantas Terras
talvez por isso, tenha chovido lama

14.2.17

Talha dourada

Marie Brizard

Estaciono à beira da estrada, junto ao ecoponto. Ouço o som do vidro a partir-se no frio, empurro com força o saco de plástico vazio das pinhas, repleto de polietilenos. Irrito-me por não me ter lembrado do lixo orgânico, era só atravessar a estrada, que atravesso, em direcção aos outros contentores, antes de entrar na espécie de saloon com pastéis de nata, cafés, e coisas que não uso, como raspadinhas. As raparigas rebolam-se diante dos homens enquanto lhes servem shots que matam a manhã. Embora Angel não condiga com isto, pergunto à mulher jovem se sabe de alguém que me possa mudar as fechaduras. Ela escreve em números redondos um nome em um papel, e, diligente, telefona ao carcereiro. Olho em frente para o espelho que trespassa o vidro das prateleiras. Mais alto, os meus olhos pousam numa garrafa de Marie Brizard. A garrafa é tal e qual a lembrança do meu avô: transparente, com uma braçadeira azul. Bebo o último golo de café, acabo de comer o pastel de nata, e, ao sair, inspiro aquele velho anis adormecido, na minha nova liberdade. 

3.2.17

B I ?

- Sorry... ?
- Business Intelligence.

bilhete de identidade

- Vitalício?
- Não, eutanásico.

banho de água fria

nunca estive em lado nenhum.
por isso hoje, quando o esquentador não funcionou
peguei no meu sabão de pedra
e tomei banho de água gelada
como se não estivesse lá.