Atalhos de Campo


9.1.17

ode louca

- Vou dizer-lhe já uma coisa, a casa não tem casa de banho, nem cozinha...
- Como assim? 
- Tem de sair de casa para usar o lavabo, que é no exterior. A cozinha é ao lado.
- Então tenho de sair a meio da noite para usar a casa de banho, e no caso de chover devo também levar um guarda-chuva...
- Pois...
- Ah! Assim sendo digo-lhe já que não, a não ser que haja alguma hipótese de fazer uma porta para dentro de casa, tanto num caso como no outro.
- Isso há, pode-se fazer... lá para a Primavera.
- Mas essa obra é no interior, porque não fazê-la já? 
- Agora não me dá jeito, entende, questões financeiras. Mas porque não vem ver a casa? Fica num alto, tem um grande terreno em volta, um pomar de laranjeiras, garagem... fica perto da ribeira, que é de água salgada, não sei se sabe, e até há estrangeiros que param para tirar fotografias às cegonhas. Caso venha, primeiro tenho de lhe fazer uma limpeza, embora esteja a mostrá-la assim a toda a gente. O inquilino anterior deixou tudo sujo e ainda cá estão os móveis de um amigo dele.

A casa era inqualificável. Ficava realmente no alto de uma colina, perto da estrada. A garagem, uma barraca rematada com chapa e madeira, de chão enegrecido pelas fogueiras; a cozinha não usava chaminé, nem janela, e tinha o tecto bolorento a escassos centímetros da minha cabeça. Chovia no quarto principal. A instalação eléctrica, um ensarilhado de fios. Uma divisão independente, cheia de tralha, fora fechada à força por uma porta apodrecida. Numa outra divisão, com a parede exterior em muito mau estado, uma tábua curvada pelo peso do telhado impedia a porta de abrir. Era aqui que o brasileiro guardava o cavalo, vim dar com isto cheio de pão. Só ela é que trabalhava, ele vivia à espera de uma indemnização que demorou dois anos a chegar. Uma explorada, dois filhos, dois empregos para sustentar a família. 

Mas havia também coisas boas. O chão era antigo e lindo, o tecto da pequena casa principal, com barrotes à vista, estava forrado a cana, as portas interiores em madeira maciça, pintadas de cinzento, as portadas das janelas mantinham-se bem fechadas por velhas ferragens. À saída reparei em dois cavalos de balanço, que jaziam abandonados no pátio, e num carrinho de bebé que ficara aprisionado entre as ervas crescidas. Junto ao depósito da água, a magra romãzeira exibia com despudor restos de frutos ulcerados pelos pássaros. Saí de lá desolada pela impossibilidade de salvar aquela casa onde uma criança inocente deixara um baloiço, e a infância suspensa no frio de Portugal.     

9 comentários:

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    1. este era muito bonito e verdejante, a precisar que alguém cuidasse dele

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  2. A cada recuperada havia de ficar linda e com todo esse verde em volta. .. :)

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    1. A proprietária tinha consciência disso, mantinha as rédeas da beleza nas mãos, no entanto alugava a fealdade. :)

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  3. É pena, querida Teresa. Contigo, sei que esta casa, tão perto da ribeira, teria uma história feliz. O meu pai, na altura já sem ver, recuperou uma casa que pertencia aos meus bisavós. Tal como a que descreves, o teto tem barrotes à vista e está forrado a cana. É branca, com frisos azuis e portadas de madeira nas janelas. Tem uma vista muito bonita e está rodeada de alfarrobeiras, amendoeiras e figueiras. Gosto muito de lá ficar. É um bocadinho da minha história que o meu pai ajudou a recuperar.
    O título do teu texto fez-me lembrar o poema "Ode louca" de Filipa Leal:

    "Todos os homens têm o seu rio.
    Lamentam-no sentados no interior das casas
    de interior e como o poeta que escreve a lápis
    apagam a memória com a sua água.
    Os rios abandonam os homens que envelhecem
    Longe da infância, e eles choram
    o reflexo absurdo na distância.
    Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
    Os poetas nas suas palavras repetidas
    que buscam uma ode que lhes diga
    a textura. Todos procuram o mesmo:
    um lugar de água mais limpa
    ou um espelho que não lhes negue
    a hipótese do reflexo.
    O rio sofre mais do que o homem,
    o poeta,
    porque dele se espera que nos devolva
    a imagem de tudo, menos de si próprio.
    Todos os rios têm o seu narciso,
    mas poucos, muitos poucos,
    O simples reflexo das suas águas."

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    1. Certos homens entendem o valor da história das casas, outros não. Talvez a criança cresça a lembrar-se de quando andava num baloiço sob uma alfarrobeira portuguesa, e um dia a venha procurar. Seria um encontro feliz. Esta ode louca tem a ver com o nome da ribeira, de Odelouca, mas o poema parece ter sido escrito para ela. Percebi que nada poderia fazer por esta casa porque ela também já nada poderia fazer por mim, o que é uma constatação um pouco triste.

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