Atalhos de Campo


28.1.17

IEFP

Quase hora do almoço. Entrei, pela porta muito usada. Tinha duas pessoas à minha frente, como sugeria a senha para a inscrição que acabara de tirar. No total havia quatro pessoas na sala de espera: um cigano já velho, todo vestido de negro, com um chapéu de abas largas da mesma cor, um homem relativamente jovem com ar de desempregado, um velho com idade para ser bisavô, um outro homem, também de chapéu, mas castanho, barba clara e aparada, que aguardava ironicamente a sua vez. Reparei que a determinada altura resolveu cravar os olhos em mim, com interesse de pintor. Era Van Gogh. Van Gogh estava ali por não ter emprego, tal como eu. Uma família de ciganos, ao sair ruidosamente de um dos gabinetes, fez estremecer a apatia de quem não cumpre horários: primeiro o pai, jovem esbragalado trazendo pela mão um rapazito de olhos pardos que logo lhe fugiu; seguidamente a mãe cigana, protestando qualquer coisa em romeno, puxava por uma garota linda e suja e continuava a dar de mamar ao mais novo, enganchado à cintura. Uma espécie de luz divina iluminava-lhe o peito redondo e dourado, proeminente apesar da cifose, que o mais novo expunha com despudor, ao encostar docemente a cabeça. A jovem mãe dirigira-se apressadamente ao canto da sala onde deixara o carrinho de bebé, ralhando alto e virando-se para a assistência como se esperasse aprovação, enquanto o marido se escapava pela porta muito usada. Ao saírem todos, fez-se uma espécie de silêncio de conversas das empregadas do instituto, todas gordas e sorridentes entre elas, entretidas com os computadores, até que o pequeno cigano voltou a entrar e atravessou a sala em diagonal com uma caneta na mão, que entregou no balcão como um herói. 

4 comentários:

  1. agora até os ciganos são de quinta categoria... nunca, mas nunca, perdi a oportunidade de palmar uma caneta :)

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    1. eu não confiaria muito nisso... fui logo ver se ainda tinha a carteira. :)

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  2. Foi depois disto que Van Gogh pintou "O campo de trigo com corvos".

    Bom dia Teresa, como vai?

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    1. O quadro que mudou definitivamente a pintura.

      Seria mentir dizer-lhe que não me sinto feliz.
      Um óptimo dia para si, JM.

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