Atalhos de Campo


30.1.17

enxada

antes uma mão enchada
que uma inxada na mão, (h)ouve-se.

E o príncipe encantado é...

... e nunca mais te esqueças que o príncipe encantado és tu.

Obrigada.

a pedra é de quem a trabalha

lembro-me de ter fixado esta ideia, mas não me lembro do autor:
dai a alguém uma pedra e ele a transformará num jardim; 
alugai a alguém um jardim, e ele o transformará numa pedra.

hoje peguei a sério numa enxada(pela segunda vez), e encontrei dezenas de pedras 

28.1.17

planos para a Primavera # 1

frésias - 120
anémonas - 40
ranúnculos - 40
gladíolos - 24
lírios - 20

IEFP

Quase hora do almoço. Entrei, pela porta muito usada. Tinha duas pessoas à minha frente, como sugeria a senha para a inscrição que acabara de tirar. No total havia quatro pessoas na sala de espera: um cigano já velho, todo vestido de negro, com um chapéu de abas largas da mesma cor, um homem relativamente jovem com ar de desempregado, um velho com idade para ser bisavô, um outro homem, também de chapéu, mas castanho, barba clara e aparada, que aguardava ironicamente a sua vez. Reparei que a determinada altura resolveu cravar os olhos em mim, com interesse de pintor. Era Van Gogh. Van Gogh estava ali por não ter emprego, tal como eu. Uma família de ciganos, ao sair ruidosamente de um dos gabinetes, fez estremecer a apatia de quem não cumpre horários: primeiro o pai, jovem esbragalado trazendo pela mão um rapazito de olhos pardos que logo lhe fugiu; seguidamente a mãe cigana, protestando qualquer coisa em romeno, puxava por uma garota linda e suja e continuava a dar de mamar ao mais novo, enganchado à cintura. Uma espécie de luz divina iluminava-lhe o peito redondo e dourado, proeminente apesar da cifose, que o mais novo expunha com despudor, ao encostar docemente a cabeça. A jovem mãe dirigira-se apressadamente ao canto da sala onde deixara o carrinho de bebé, ralhando alto e virando-se para a assistência como se esperasse aprovação, enquanto o marido se escapava pela porta muito usada. Ao saírem todos, fez-se uma espécie de silêncio de conversas das empregadas do instituto, todas gordas e sorridentes entre elas, entretidas com os computadores, até que o pequeno cigano voltou a entrar e atravessou a sala em diagonal com uma caneta na mão, que entregou no balcão como um herói. 

23.1.17

as aves

voltam de quilhas estreitas
e dedos com grossos anéis
quando outras esperam perfeitas
sobre insolúveis cordéis

12.1.17

kartódromo

Ontem de manhã fui ter com o João ao kartódromo. O meu irmão levantou os olhos de uma das marquesas onde estava a operar um kart e disse-me, indicando as carrocerias coloridas que esperavam vez, imóveis sobre as mesas que ocupavam toda a oficina: é com isto que os putos treinam para a fórmula 1. Assim a descoberto, o chassi parecia a feia arcada dentária de um peixe, com estranhos implantes lubrificados. O meu irmão pegava numa pinça e afinava meticulosamente qualquer coisa no motor em ponto morto. Achei que afinal o que ele fazia era muito parecido com o que eu também já fizera, mas com uma vantagem: os motores não sangram.

9.1.17

ode louca

- Vou dizer-lhe já uma coisa, a casa não tem casa de banho, nem cozinha...
- Como assim? 
- Tem de sair de casa para usar o lavabo, que é no exterior. A cozinha é ao lado.
- Então tenho de sair a meio da noite para usar a casa de banho, e no caso de chover devo também levar um guarda-chuva...
- Pois...
- Ah! Assim sendo digo-lhe já que não, a não ser que haja alguma hipótese de fazer uma porta para dentro de casa, tanto num caso como no outro.
- Isso há, pode-se fazer... lá para a Primavera.
- Mas essa obra é no interior, porque não fazê-la já? 
- Agora não me dá jeito, entende, questões financeiras. Mas porque não vem ver a casa? Fica num alto, tem um grande terreno em volta, um pomar de laranjeiras, garagem... fica perto da ribeira, que é de água salgada, não sei se sabe, e até há estrangeiros que param para tirar fotografias às cegonhas. Caso venha, primeiro tenho de lhe fazer uma limpeza, embora esteja a mostrá-la assim a toda a gente. O inquilino anterior deixou tudo sujo e ainda cá estão os móveis de um amigo dele.

A casa era inqualificável. Ficava realmente no alto de uma colina, perto da estrada. A garagem, uma barraca rematada com chapa e madeira, de chão enegrecido pelas fogueiras; a cozinha não usava chaminé, nem janela, e tinha o tecto bolorento a escassos centímetros da minha cabeça. Chovia no quarto principal. A instalação eléctrica, um ensarilhado de fios. Uma divisão independente, cheia de tralha, fora fechada à força por uma porta apodrecida. Numa outra divisão, com a parede exterior em muito mau estado, uma tábua curvada pelo peso do telhado impedia a porta de abrir. Era aqui que o brasileiro guardava o cavalo, vim dar com isto cheio de pão. Só ela é que trabalhava, ele vivia à espera de uma indemnização que demorou dois anos a chegar. Uma explorada, dois filhos, dois empregos para sustentar a família. 

Mas havia também coisas boas. O chão era antigo e lindo, o tecto da pequena casa principal, com barrotes à vista, estava forrado a cana, as portas interiores em madeira maciça, pintadas de cinzento, as portadas das janelas mantinham-se bem fechadas por velhas ferragens. À saída reparei em dois cavalos de balanço, que jaziam abandonados no pátio, e num carrinho de bebé que ficara aprisionado entre as ervas crescidas. Junto ao depósito da água, a magra romãzeira exibia com despudor restos de frutos ulcerados pelos pássaros. Saí de lá desolada pela impossibilidade de salvar aquela casa onde uma criança inocente deixara um baloiço, e a infância suspensa no frio de Portugal.     

progresso

o grito das gaivotas que voam entre os prédios
é sinal de tranquilidade no mar

3.1.17

atalho

Nós não somos capazes da verdade,
os antinaturais por natureza.
Sofremos e procuramos.
Daí os eremitérios, as siglas,
diversos estatutos e estandartes.
Acontece, de pura misericórdia, um descanso:
uma borboleta amarela pousa na nossa mão
e pra nosso susto, permanece sem medo;
olhamos o céu e dizemos do nosso terreiro:
é pra lá que se vai, depois de tudo.
De puro orgulho eu queria ser pobre,
de visceral preguiça, pedra.
(...)

Adélia Prado/ Atalho