Atalhos de Campo


10.12.17

trajectória

A camioneta das mudanças não se atrasou muito, mas o homem não contava com tantos volumes para carregar e acabámos por sair mais tarde do que estava previsto. Afinal era o conteúdo de uma casa inteira, para não dizer de uma vida inteira, que era preciso levar rumo a sul. É como jogar o Tetris, dizia à medida que ia encaixando e empilhando meticulosamente o que eu lhe ia trazendo por último, quando parecia já não caber nem uma formiga e ainda repetia esperançada, ah! é só mais isto... que ia ficando ali esquecido. Ofereci-lhes o almoço à saída da vila e parti com eles (segurando entre as pernas uma enorme taça de pé alto em vidro que ficara de propósito para o fim), sentada entre o condutor e o ajudante que era brasileiro e tinha tatuado no peito em itálico: Abençoado por Deus

Já tinha anoitecido quando chegámos a um armazém comunitário depois de uma viagem longa, mas segura. O meu irmão estava à minha espera com o genro e o meu sobrinho. Foi com o auxílio precioso das lanternas que levavam e da força anímica de mais estes três homens que conseguimos descarregar e arrumar tudo sem luz eléctrica. Suspirei de alívio quando os portões do armazém finalmente se fecharam com estrondo sobre as minhas coisas - com os móveis em círculo como muralhas de um castelo a defender os objectos mais delicados colocados ao centro -, sobretudo pela exaustão que sentia. E de seguida deixei-me aterrar de pára-quedas, faz hoje um ano, no terreno amistoso de uma festa de aniversário de família.

2.12.17

Passagem para a noite (36)

Quando cheguei a casa as sombras do pôr-do-sol já se alongavam sobre a terra, ainda iluminada pelo verde rasteiro do Outono. Porém, a luz incendiava-se mais acima, nas flores, nos troncos das árvores, no canto do anoitecer. Tinha trabalhado durante grande parte do feriado. Uma cirurgia iniciara o dia e depois era preciso ir eutanasiar um cão. Cheguei à propriedade por caminhos de cabras lavados pela chuva e enxutos pelo vento. Levaram-me ao sítio onde o cão, - um velho e outrora bonito cão que se deitara ao sol sobre um fardo de palha - olhava com ar interrogativo. Se o dono, - holandês magro e enrugado pela vida - não me pareceu convicto, muito menos eu. Faz vinte anos este Dezembro, no fim do mês, disse-me, de olhar perdido no passado. Pois bem, lembro-me de ter pensado, deixemo-lo fazê-los. Havia um picadeiro e um estábulo, de onde saiu um cavalo esplêndido em direcção ao poente. Herdei-o com o cão, disse o holandês (que tinha um rabo-de-cavalo grisalho), tem vinte e três anos. 

O cão não quer morrer, ainda, expliquei-lhe, enquanto nos afastávamos ao encontro do meu carro. Continua a seguir-me para todo o lado, venha ver o sítio onde dorme de noite, quis mostrar o dono com certo orgulho pelo seu zelo. Entrámos numa casa de madeira que parecia o que restava do antigo escritório do picadeiro, onde estava feita a cama do cão sem faltar uma almofada. Enquanto conversávamos começámos a vê-lo a aproximar-se através da janela, a equilibrar a capa contra o frio que descaíra e o acompanhava tão enviesada quanto ele, até entrar, inesperadamente apesar de trôpego por uma série de artroses, a direito pela porta aberta, para se aninhar na cama feita de lavado. 

Apesar de precisar de três bengalas, pergunte-lhe se ele quer morrer hoje, afirmei, despedindo-me do aliviado holandês, ao fazer uma festa na cabeça sempre carente do cão.

1.12.17

boa noite

Saí de casa de lenço encarnado ao pescoço, deixando 
o meu filho ainda pequeno com os meus pais. O meu pai
tentou várias vezes convencer-me a não ir ao concerto no 
Estádio do Portimonense, a dois passos de sua casa. Fui sozinha
e livre, pela noite. Passaram muitos anos, tantos que não me 
esqueço da fúria intacta daquela música. E de quando a dada 
altura olhei para trás, e me ficou congelada a memória na 
imagem de todos os lenços como o meu, e de todas as bocas 
abertas, a cantar.  

morrer

todas as bandeiras são como um arco reflexo

verdilhão

junto à tralha
e ao brasão

pose

acredito sobretudo no que não dizes

vermelhão

o passarinho do peito cor de fogo
que canta vermes
afoga-me

29.11.17

priapo

Parece-me que o Charlot está com um problema... - começou por dizer Monsieur L. ao colocar o cão sobre a marquesa. E, um pouco embaraçado apontou, - ici au pénis. Observei atentamente o órgão em questão, nada encontrando de anormal. Inquirido Monsieur L. sobre o que observara de estranho, percebi que o que ele supunha ser uma coisa horrível, corroborada pela mulher que entretanto chegara, era o resultado final de um acto fisiológico. - Il a grandi, disse-lhesconcluindo: - et il a besoin d'une fiancée! 

É bastante frequente que em relação a algumas situações os homens desumanizem os animais.

27.11.17

agaphantus azuis e lírios brancos

Entre a minha casa e a casa da minha irmã há uma estrada com oitenta quilómetros. Percorri-a ao som da 5ª e da 7ª sinfonias de Beethoven, a deixar-me conduzir por Carlos Kleiber. Levei-lhe uma tarte de maçã para a sobremesa e morangos com hortelã. Ela tinha feito carne assada para o almoço e a casa cheirava bem. Enquanto almoçávamos fiquei a admirar-lhe a alma em cada pormenor nas paredes: um armário recuperado cheio de livros e recordações, o auto-retrato a óleo de uma amiga que já morreu, um espelho trocado por uma máscara de cerâmica, uma salamandra resgatada ao lixo, as portas dos armários desenhadas por ela que encaixam como yin e yang. Foi-me contando as histórias de cada quadro e objecto, quase tudo feito por amigos artistas. Azeitonas, alcaparras, queijo de cabra, pão de centeio, a maciez da carne envolta nas batatas assadas em azeite e alecrim, passada para o corpo num golo de vinho branco. E foram do abraço estreito que demos à despedida, as cores ancestrais que plantei hoje no jardim: o azul vertido na terra vermelha veio dos agapanthus que me trouxe da pequena quinta que era dos nossos avós, e o branco dos lírios, dos desenhos do seu atelier.          

25.11.17

ultrapassar o passado

Ouço Wagner aqui, pela primeira vez. Acendo a lareira pela primeira vez desde que as noites esfriaram, e começo a fazer uma tarte de maçã. Mistura-se o cheiro da tarte a cozinhar no forno com a voz de Voigt e o crepitar do lume. Esta combinação já conquistou outra casa, mas nunca me tinha vencido a mim. 

24.11.17

ler

depois de te maravilhares com uma árvore
tens que lhe descobrir as raízes

a décima sétima emenda

este blogue é um solilóquio com atenuantes

espanto

há pessoas que não nos espantam com a vida,
de tão bem feitas que foram para viver:



espantam-nos sim, e muito, quando morrem.

22.11.17

torre

A Torre do Carbureto, que surge no meio da Buna e cujo cume raramente se vê no meio do nevoeiro, fomos nós que a construímos. Os seus tijolos foram chamados Ziegel, briques, tegula, cegli, kamenny, bricks, téglak, e foram cimentados pelo ódio; o ódio e a discórdia, como na Torre de Babel, e é assim que a chamamos: Babelturm, Bobelturm; e odiamos nela o sonho demencial de grandeza dos nossos patrões, o seu desprezo por Deus e pelos homens, por nós homens.

E ainda hoje, como no conto antigo, nós todos sentimos, e os próprios Alemães sentem, que uma maldição, não transcendente e divina, mas imanente e histórica, paira sobre essa construção provocatória, alicerçada na confusão das linguagens e erigida a desafiar o céu como uma blasfémia de pedra.

Primo Levi / Se isto é um homem

limpo



(...)
Se quisesse eu próprio falar de um lugar de consolação
recente na minha vida teria de referir o campo de
concentração de Westerbork, na Holanda, onde estive
em peregrinação o verão passado. Foi nesse epicentro
da dor que, ao lado de milhares de outros mártires do 
século XX, esteve prisioneira Etty Hillesum. Recordo-me
de passar um par de horas, deitado sobre a erva, a 
escutar o vento. Apenas isso. Mas senti uma comunhão
profunda com o grito e o perdão que se pode ler quer 
nos escritos de Etty, quer no destino silencioso de
tantas vidas. E, sem que as pudesse deter, as lágrimas
lavaram-me o rosto várias vezes. As vezes necessárias
para que ficasse limpo.

José Tolentino Mendonça / Que coisa são as nuvens 

dangerous liaisons























ou a flor antes da queda da folha



20.11.17

Lager*

Afirma Lagerfeld, ou Lager field, em inglês:

[«Não se pode - mesmo ao fim de décadas - matar 
milhões de judeus para se poder trazer milhões 
dos seus piores inimigos para os substituir.
Karl Lagerfeld, designer de moda alemão

Criticando a política da chanceler Angela Merkel em relação
aos refugiados»]
Retirado da Revista E/18/Novembro/2017

Curiosamente Lager era o nome dado pelos alemães
durante o nazismo aos campos de concentração, e 
ao trabalho escravo nos campos de extermínio

14.11.17

iva

e hoje é o dia
do (verdadeiro) perfurador de papel

partir



ouvimos isto juntos, 
lembras-te?   

um amor em cada porto

Eis um dos lapsus calami citados no livro (para mim dos mais cómicos, talvez por lhe encontrar uma fina ironia, embora se perceba que não é o preferido do escritor): A tripulação do navio engolido pelas ondas era formada por vinte e cinco homens, que deixaram centenas de viúvas condenadas à miséria. / Dramas Marítimos, Gaston Leroux.

13.11.17

lapsus calami

Fico a pensar no que leio eram passados 174,5 g do quilo bem pesado, e volto atrás para reler. Persiste no entanto a dúvida (mesquinha, é certo, dada a importância que isto tem no gigantismo da obra): Então se R. fica sem poder falar, o que é sublinhado, como é que acorda a gritar? E 226,2 g mais à frente é muito divertido, porque se enumeram vários lapsus calami, esses sim, de peso.  

12.11.17

falta

do amor
da protecção
do amor da protecção
da protecção do amor

8.11.17

as primas das obras

Dir-me-á o senhor que a literatura não consiste unicamente em obras-primas, mas sim que está recheada de obras, assim chamadas, menores. Eu também acreditava nisso. A literatura é uma vasta floresta e as obras-primas são os lagos, as árvores imensas ou estranhíssimas, as eloquentes flores preciosas ou as escondidas grutas, mas uma floresta também é composta por árvores vulgares, por ervas, por charcos, por plantas parasitas, por fungos e por florezinhas silvestres.

(quando a mão esquerda sustenta 1,266 kg e a direita 184 gramas)

6.11.17

obsidiana

86,62 g depois dos crimes há referência a um matemático romeno
que trabalhava com números misteriosos, a descrição de uma cena 
absolutamente hilariante, um soldado que beija a loucura numa 
rapariga inteligente; e uma jura: 
pesa tudo 21,3 g

5.11.17

sob a cabeça

- Se a minha cabeça herdar outro corpo, será ético 
que eu use as suas gónadas como uso o seu fígado?

- Se eu estiver à espera de um corpo para a minha
cabeça, será ético preocupar-me com a cor da pele?

- Se me derem um corpo vinte anos mais novo, será 
ético congratular-me pelo meu rejuvenescimento?

4.11.17

livros

As Cidades Invisíveis, Morte Em Veneza, Na Praia de Chesil, Se Isto é um Homem, O Amante, Um Copo de Cólera, As Velas Ardem Até ao Fim, A Rosa, O Estrangeiro, Crónica de Uma Morte Anunciada, O Livro das Igrejas Abandonadas, O Fazedor, são obras-primas, livros que se lêem de um trago como se fossem shots, que embriagam num gesto, num lapso inquietante de tempo, são como tiros directos à cabeça e ao coração, mas a destrinça de uma história longa e complexa, as tardes e as noites repetidas na companhia de anos de trabalho compactado entre as mãos, a postura inclinada persistente, rendida, alheada, ausente, pasmada, a cumplicidade e o peso, a reflexão e o vínculo, precisam de mais tempo.  

3.11.17

arte equestre

He threw his arms around the horse's neck
And kissed him everywhere
I love my horse
A crowd gathered

(...)




...
 I'll give you my latest
Philantropic sonata

Jim Morrison / Ode to Friedrich Nietzsche

surround

entre mim e o cavalo a passo 
uma ténue parede de alvenaria

trocava bem o grande espelho
por uma janela sobre o caminho

goteira


contramão

o caminho que faço
não interessa a ninguém
(sei-o pelo número de pessoas
com que me cruzo)
suponho que o meu destino
também.
mas há alguns pontos altos
em que se vê o mar ao longe
e algumas curvas surpreendentes
e muitas reentrâncias na estrada
para prevenir acidentes.
a chegada é recta 
e longa a subida
com um só sentido.
excepção feita aos mortos
depois do velório,
cuja descida
em contramão
é de sinal obrigatório.

[mas podia ser purgatório]

2.11.17

*grosso modo*

entre as duas palavras imbróglio encontradas distam 225,78 g; 
a parte atribuída aos crimes pesa 451,56 g, mas aparentemente 
o seu peso é muito superior ao do livro todo.

nota

troco te
por uma série
de miúdas

27.10.17

sobremesa

Vai dizendo o que há para sobremesa. Quando chega a vez 
da baba de cam... corto-lhe a palavra. Não precisa de 
dizer mais, já escolhi: se visse um camelo com baba, 
tratava-o. 

nascer de noite



morrer de dia

25.10.17

o velejador sem vento

Reparei no tronco largo de enfrentar o vento, na coluna direita, no cabelo mais embranquecido desde a última consulta, e também mais comprido, nas unhas por cortar. Os filhos no estrangeiro e o cão muito obeso como única companhia. Nem come muito, refere o velejador aposentado, e eu digo-lhe que são os extras que engordam, o que se  oferece para além da dose diária estipulada para o peso. E começo a dar exemplos: restos do prato, pão, restos de pizza... Ah!, por acaso agora tenho comido umas pizzas deliciosas e dou-lhe uns bocados, confesso... Essas coisas, se quiser que ele emagreça vai ter de evitar, representam um gelado de trezentas calorias no fim da refeição. Lembrei-me do que custava perder trezentas calorias no ginásio, do que custa perdê-las presentemente, mesmo que seja a trabalhar no jardim, só que o cão come e deita-se aos pés do dono, agora que ele deixou de velejar. Sabe, diz-me à saída, vim para aqui porque queria estar sozinho. Estava farto da confusão de Lisboa, com os meus filhos fora deixei de ter referências, mas já lá vão dois anos, e sinto muitas vezes solidão.   

Dei-lhe razão, em silêncio. Os verdadeiros solitários não procuram a solidão, ela está sempre com eles; são os outros, os que a procuram, que a encontram.

21.10.17

o poder da personagem

Shakespeare saberia, certamente, transformar Paula em Miss Smile;
mas só Miss Smile saberá como regressar a Paula.

20.10.17

o unguento e a cura



eu era o teu unguento
e tu a minha cura

mas nunca acertámos no dia da semana

saltos altos

apetece-me saltar páginas
como salto conversas




como saltei ao eixo

os mais lidos

É admissível que o escritor cansado escreva à tantas um texto chato, o que origina um leitor desmotivado. Mas o leitor compreensivo continua a ler o livro estoicamente, voltando atrás várias vezes, usando até de superior atenção, ao admitir que a culpa pode ser sua. É portanto plausível que os capítulos mais aborrecidos (e mais desinteressantes da história da literatura), sejam os mais lidos.  

15.10.17

encadernar

sou uma flor seca
guarda-me, no teu e-book
sou um bilhete de interrail
viaja-me, no teu e-book
sou uma fotografia
esconde-me, no teu e-book
sou areia da praia
encontra-me, no teu e-book

agora sou uma pena,
mas já fui um livro.

máquina de escrever

aproximo as mãos do teclado
como se soubesse tocar

do amor perfeito



14.10.17

guardar

não me aguardes
eu sou
de ontem

durante a tarde

com a idade, os homens vão ficando fartos das mulheres
e as mulheres dos homens, mas já é tarde

próximo

o homem do futuro estará advertido contra o amor
esse estado próximo da loucura

blogl au vin

Ontem, foi ontem, claro, que vi à venda um vinho em bom, chamado Blog. 
Blog não é nome de vinho, Sexy, também não, .Com, idem... mas há nesta 
escolha um sinal que achei interessante: parece-me uma aposta no futuro 
do vinho, pelo crédito aos blogues.  

13.10.17

clima

Há pessoas que não escolhem um lugar para viver por razões afectivas ou afinidades várias, mas por razões económicas e, sobretudo, pelo clima. São essas as suas prioridades. Entre um dia bonito e um abraço, preferem certamente um dia bonito. Falar do tempo parece-me então ser um belíssimo tema para início de conversa, logo seguido do custo de vida.

12.10.17

sete foles

Recebe-me a chorar e vai contornando a enorme casa até ao alpendre das traseiras, onde o jardim deixa passar por entre os arbustos o azul transparente de uma piscina. Mas Alba não está ali, onde a deixou, escondeu-se, e então fomos ambas procurá-la. Encontramo-la prostrada, estendida por baixo de um banco, sobre o pavimento molhado. Alba prepara-se para morrer aos vinte anos, e refugia-se, consciente do seu estado de extrema debilidade. Mas a velha senhora não se conforma e chora todo o tempo. Foram vinte anos muito bons, é uma gata espantosa, não vou ter mais nenhuma como ela. Sei o que isso é, tão bem que nem digo nada para a consolar, porque compreendo sobretudo como a morte de um animal, que nos acompanhou tanto tempo, encerra e remete esses anos para um passado irrecuperável. E Alba está nas últimas, seca, a pele cosida ao osso, o pêlo longo, que certamente faiscara ao sol, está descuidado, faz nós espessos, de desleixo progressivo. A dona diz que foi sempre assim, ela tinha muito mais que fazer do que pentear-se (um dia quando quis desfazer-lhe um destes nós deu-me uma valente dentada). Caçadora?, pergunto-lhe, enquanto ponho o soro a correr. Uma caçadora extraordinária. Quando tinha visitas, e ela gostava das pessoas, vinha oferecer-lhes ratos e pássaros, tão contente que por vezes se esquecia de os matar. Perdoo a ambas a euforia, porque sinto que a senhora precisa de recordar esta gata agónica ao sol da sua antiga garra. Trato Alba sem convicção, sabendo que já nada poderei fazer para a salvar. A dona ajuda-me e vai falando. Ela só gostava de beber do meu copo, mesmo quando o copo tinha gin ou whiskey... e limpa mais uma lágrima da face ruborizada pela comoção. Pressinto que vai viver este desgosto sozinha naquele casarão, longe de toda a família. Porque não volta para Inglaterra, pergunto-lhe a certa altura. Mas aí ela solta o olhar azul em voo sobre as lentes embaciadas, como um gato ainda ágil e ligeiramente assanhado atirando-se às janelas de casa ao ver um rival, e diz que é escocesa, e que na Escócia chove durante três meses seguidos. 

À saída passamos por um canteiro de suculentas. As suculentas são as plantas que melhor se adaptam à secura do Algarve, diz-me, ao despedir-se. Eu comparo-as imediatamente à resistência dos gatos, que por aqui pululam em grande número. Mas olhando-as com atenção clínica, percebo que também estas suculentas, apesar do nome, precisam de hidratação urgente. E ainda ouço o suave tilintar das conchas do espanta-espíritos pendurado no alpendre, que acompanhou todo o tratamento. 

11.10.17

aos 130,64 gramas

(100,64 gramas depois da minha afirmação), é finalmente 
mencionada a palavra imbróglio

9.10.17

imbróglio

Peso o livro que comecei hoje a ler: 1,450 Kg. 
Tirando 20 páginas para o peso da capa, aos 
30 gramas começa o imbróglio. Tal como na vida.

7.10.17

cá dentro

O meu lugar de sonho é aqui. É aqui que tomo o pequeno-almoço a olhar para o jardim, que colho flores frescas pela manhã, que leio, sentada no terraço, que almoço iguarias em cama de manjericão (que é só colher das floreiras de ervas aromáticas), que saboreio à sobremesa mais um dióspiro dourado ou um figo delicioso, acabados de apanhar da árvore, que janto à luz da vela, e que adormeço num quarto lindo, pintado de azul. 

É aqui que eu faço de conta que acabaram agora mesmo, de me colocar à frente o tabuleiro do pequeno-almoço com saborosas torradas e café cremoso, que as floreiras sempre ali estiveram viçosas a perfumar o terraço, que os canteiros não foram conquistados a pulso, às pedras e à secura, e que não me levanto cedo todos os dias para os regar; que o jasmim, que obviamente não plantei, inebria as noites quentes protegido pelo muro (tão branco, que é claro que não fui eu que pintei), e que o quarto, oh, o quarto em azul báltico a evocar o som do mar, onde encontro a cama aberta e um livro marcado à cabeceira, também não fui eu que arrumei. Ainda há gente que programa férias em lugares de sonho.

6.10.17

burnout

O médico tentava explicar-me como se faz: os passarinhos caem do ninho, estão ali, no chão. Você pega num escadote e volta a pô-los no ninho, isto aconteceu comigo, exemplifica. Um caiu logo de seguida, e depois caiu o outro, e eu vim-me embora. Se eles voltam a cair o que é que você pode fazer mais, disse, ao passar a receita.    

4.10.17

ofício cantante*

Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura das palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
- Uma frase, uma ferida, uma vida selada.

*Herberto Helder/ Última Ciência

zínias em jarra azul























Para ~CC~

2.10.17

cantar

cantar é perfumar as palavras
ouvir é perfumar a vida

e o libertador

o pescador de palavras

Sou cauteloso com todas as palavras. Elas são peixes com dentes.
E depois de pescadas tornam-se mais perigosas.

Daniel Jonas

inodoro e puro

Grenouille tinha a testa coberta de suor. Sabia que as crianças 
não têm odor, à semelhança das flores antes de desabrochar.

Patrick Süskind/ O Perfume

A Alan e Galip Kurdî

1.10.17

cheiro

quem cheira mal 
é porque cheira bem


quem cheira bem
é porque cheira mal

(provérbio chinês)

fecho da urna

(quase) todas as pessoas
são sensíveis
ao fecho da urna.

sorrow, we stinck



Os governos falam de migrantes. Mas nós, que
trabalhamos com os migrantes, sabemos o que
elas são. São refugiados.

Vanessa Redgrave

*sea sorrow*

hoje borrifo-me


No nosso mundo globalizante, a política tende a ser crescente, apaixonada e conscientemente local. Expulsa do ciberespaço, ou tendo o acesso a ele negado, a política recua e reflecte sobre os assuntos que estão «ao alcance», sobre questões locais e relações de vizinhança. Para a maioria de nós, durante a maior parte do tempo, estes parecem ser os únicos temas em relação aos quais podemos fazer «alguma coisa», influenciar, corrigir, aperfeiçoar, redireccionar. É somente nas questões locais que a nossa acção ou inacção «faz diferença» enquanto nas outras, reconhecidamente supralocais, «não há alternativa» (ou, pelo menos, é o que repetem os nossos líderes políticos e todas as «pessoas que estão "por dentro"»).

Zygmunt Bauman/ Amor Líquido

água brava


tu, em Maio de 68

30.9.17

amarige

rasca não é casar amarige não foi mariage

tuscany

Agora que me detenho na mensagem do jacquard estampado na tampa, percebo que foi o nosso entrelaçar imaturo que não conseguiu resistir ao tempo. Percebo porque ficaram contornos por desvendar e porque salvei até hoje a caixa cúbica como se salvasse o perfume inviolável de um anel de noivado. Assente em tule, o frasco elegante de vidro grosso, inquebrantável, ainda usa a mesma gargantilha em cobre e um selo, mas o seu conteúdo já não provoca interjeições de contentamento nos pulsos, no pescoço, no cabelo, no peito. Hoje observo-o com o mesmo interesse que suscita a arqueologia de um amor morto, em que o aroma do sândalo e do cedro das arcas antigas tivesse aprisionado para sempre o perfume das flores e a exuberância dos frutos da juventude.         

26.9.17

qual é o teu perfume?

Fiz um perfume que se dirige ao futuro da sociedade. A próxima grande revolução social vai ser a assexualidade. O meu perfume é para as pessoas que já não estão interessadas em homens nem em mulheres, nem em sexo, ultrapassaram a ideia da sexualidade. Isso vai chegar depressa. É a grande tendência.

Philippe Starck

25.9.17

polite

Noto diferenças admiráveis nos seus comportamentos, quando os comparo com os nossos em situações idênticas. O casal de férias volta com o cão diabético de catorze anos, obeso e já cego, que caiu da varanda há dias, enquanto o dono se banhava na piscina e assistia com estupefacção ao voo, sem poder fazer nada. Mas felizmente que o cão estava ileso. Ele parece uma almofada, comentei a rir, ao terminar a consulta. Já no chão, o velho Westie fez um enorme, enorme, chichi e enquanto eu aproveitava para concluir que a urina estava normal e que era a prova de que a queda não provocara rotura da bexiga, o dono, consternado, afadigou-se a limpar tudo, apesar de eu o tranquilizar e dizer que era perfeitamente usual acontecer, e que não se preocupasse que eu trataria disso em seguida. Hoje o cão veio para o exame clínico e a desparasitação obrigatória para poder regressar ao Reino Unido. Mal foi colocado no chão, a dona sugeriu ao marido que fosse andando com ele para a rua.

24.9.17

pela vida imperturbado

Às vezes bastam óculos mais fortes para curar um apaixonado;
e quem tivesse força de imaginação para conceber um rosto, uma
silhueta vinte anos mais velha, talvez passasse pela vida impertubado.

Nietzsche/ 100 aforismos sobre o amor e a morte 

miopia


22.9.17

submarino ao fundo.

se pensam que dou as coordenadas enganam-se, ah, ah, resistirei
ao sabor dos posts mirandeses lá d'esse andhremnir, hic! que até duvido que estejam mal passados..., hic, açucaradas sobremesas, essas pérolas do equador, onde é que anda a smilenska com os seus amuse-bouche... come-se muito bem neste barco.

20.9.17

contemplação

eu sou
me indiferente

teclista

bernardo soares

teclas

pródigas

Percorro letras sem me zangar, sem ouvir nenhum silêncio a não ser o som das teclas. Dormem ferradas nas suas mantas. Desobedeceram à minha chamada implorativa antes de sair de casa. Pela primeira vez fechei a porta e desapareci a correr para não chegar atrasada sem me sentir adolescente. Durante a tarde lembrei-me várias vezes delas como filhas pródigas. Cheguei já de noite na expectativa que soltassem o remorso a galope, mal pressentissem o carro. Mas não é sintoma de garotas: o seu instinto de sobrevivência alertava-as, e bem, para os perigos da escuridão.

18.9.17

maior idade

quando o teu amor
me compensa

clé

São muitos os vídeos que provam que há gatos cleptomaníacos. Alguns felídeos até conseguem especializar-se em roupa interior (mas da felina). No entanto o meu problema, e bem sei porque escrevi meu - *assim* - não é com um gato, mas com uma cadela menor que gosta de gatos, e que parece ter adoptado um dos seus comportamentos: tenho aqui(que nem sei o que lhes hei-de fazer), brinquedos de criança, havaianas, toalhas, pantufas, ténis, bolas, bolas! - diria a Susana - o horror avoluma-se diariamente, quando a vejo chegar a casa com mais uma coisa daquelas... e bem podia ser a Diane Keaton a dizê-lo, com um dos seus muito bem conseguidos gestos, lá d'isso.