Atalhos de Campo


23.8.17

valeria

Esperava em pé na esplanada vazia do café fechado, agarrada ao telemóvel. Vinha para uma entrevista de emprego. Percebi imediatamente que era ela. Não existia mais ninguém: calções pretos muito curtos, de bainhas desfiadas, top branco, sandálias, um enorme rabo-de-cavalo negro. Lamentei o facto de ser o dia de folga, mas ela pareceu-me bastante à-vontade, e sentámo-nos mesmo ali. Vencendo o impacto negativo do outfit, comecei por lhe perguntar que idade tinha. Trinta, disse-me, mas achei-a pouco convicta. Estou cá há seis anos, e eu comecei a fazer contas de cabeça, 24... Então, e tem o curso de veterinária... que sim, feito na Rússia, seis anos - mais contas - depois os estágios, mandaram-me para um matadouro, e tal. A Valéria trabalha na praça a vender peixe. Entro às seis e meia da manhã e saio às três da tarde, agora às quatro porque é Verão. E nunca pensou em exercer a sua profissão? Sim, mas querem experiência, eu não tenho. Pode começar por aprender, sendo auxiliar de consultório, e, depois, adquirindo prática, chegar a dar consultas. Nunca pensei nisso, é uma boa ideia. 

Agora os olhos de Valéria eram dois peixes de rio a rabear nas órbitas e toda ela me parecia escorregadia, plena de ácidos gordos Ómega-3, a derreterem subitamente, chiando sobre um assador. Suponho que eu devia assemelhar-me a uma rede a subir em esforço o rio, ou a uma cana de pesca de qualidade duvidosa a aproximar-se de forma ameaçadora. Por isso não se interessou muito, nem lutou. Passado pouco tempo levantou-se, despediu-me estendendo umas unhas de gel azul turquesa, para o caso de eu não ter reparado, e partiu num Fiat como um sargo assustado, a favor da corrente.         

22.8.17

aterrador, meu caro Watson

IBM Watson, o supercomputador, traçou hoje o meu perfil em segundos, 
baseado no envio de um texto deste blogue, o que não passou de uma 
brincadeira do meu filho. Mas o certo é que falhou por pouco:

*You are skeptical, somewhat inconsiderate and can be perceived as compulsive.
You are independent: you have a strong desire to have time to yourself. You are philosophical: 
you are open to and intrigued by new ideas and love to explore them. And you are reserved: 
you are a private person and don't let many people in.
Your choices are driven by a desire for organization.
You are relatively unconcerned with both achieving success and independence.
You make decisions with little regard for how they show off your talents. 
And you welcome when others direct your activities for you.*

Eis o link:

21.8.17

brexit

Durante a tarde sou convidada para visitar o restaurante que abriu ao lado do consultório. Pergunto pelo empregado que costumo ver na esplanada com uma meia de cada cor e padrão, ténis e calções coloridos, três argolas no lóbulo da orelha esquerda, muito alto e com um inglês perfeito. É inglês? - interrogo, quando ele aparece. Britânico, corrige em português. E depois para provar - como dizia - que também era cidadão do mundo, levantou a t-shirt e exibiu um letreiro em arial XXL, tatuado a bold ao fundo das costas: MADE IN CHINA.

19.8.17

rascunho

Melrax # final scene

Em poucas semanas Melrax estava pronta. No entanto o meu temor por ela fez-me procurar-lhe uma antecâmara de liberdade, uma espécie de hall de saída. Talvez seja melhor eliminar certos factos, porque estou indecisa sobre a última cena: um pássaro indefeso é salvo, queremos todos que o mundo seja melhor, a nossa atitude tornou, sem dúvida, melhor o mundo. Portanto: FIM. 

Ou não. Consegui por intermédio do meu amigo que Melrax passasse da gaiola para um espaço muito maior, onde poderia preparar melhor as asas para voar em liberdade. Pedi-lho por uma semana. O espaço, uma jaula ao ar livre e só para ela, tinha o tamanho de um quarto com paredes de rede. Transportei-a dentro da gaiola, que cobri com um pano, para que não se assustasse. Já no interior da outra abri devagar a portinhola, e esperei. Primeiro ficou imóvel, parecendo resignada ao cativeiro, até que subitamente voou certeira como um projéctil, desaparecendo dentro da pequena abertura circular de uma caixa ninho que estava pendurada na única parede de betão. Acto contínuo saiu de lá um exame de vespas, como numa cena de desenhos animados. Tapei a cara com as mãos e quis desaparecer dali para fora. Era azar a mais. Mas, mal tinha começado a virar costas vejo-a de volta, a sair ilesa como um ricochete e a pendurar-se na rede, exibindo a vitória.  

Melrax foi libertada uma semana depois, como combinado, não sem antes lhe ter sido atribuído o homicídio de outro melro mais pequeno, salvo como ela, e que vivia provisoriamente na jaula ao lado. Quanto a nós, mudámos de casa mais uma vez e fomos felizes, até que certo dia eu fiquei, e tu também voaste. 
      

18.8.17

canção de voar



take this broken wings and learn to fly

Melrax # 5

- Então o melrax, ainda é vivo? Foi assim que lhe chegou o nome, dois dias depois de eu ter entrado sorrateiramente em casa, directo à cozinha com um pássaro escondido no fundo de um saco de papel pardo, para tratar de tudo antes de fazer a surpresa ao meu filho.

Nessa altura vivíamos felizes numa espécie de redoma, tal como o pássaro cuja gaiola não significava ainda prisão, mas protecção. Eu também construíra em nossa defesa uma casa envidraçada sobre os jardins das traseiras de Lisboa, que comunicavam uns com os outros de madrugada através do voo e do canto intenso dos pássaros. Pela janela da cozinha, sempre aberta, entrara e instalara-se um ramo florido de casuarina que salpicava de amarelo a bancada, onde fora colocada a gaiola artesal suficientemente grande para conseguir albergar primeiros voos. Várias vezes suspeitei que a mélroa-mãe vinha pousar num plátano próximo para ficar a observar a cria, visto estarmos em linha recta relativamente perto da tília onde fizera o ninho. Conta-se que quando os vêem enclausurados lhes trazem bagas tóxicas para os envenenarem. Por ter ouvido isso eu nunca ficava muito tranquila quando via melros nas proximidades, mesmo não tendo qualquer certeza sobre a veracidade do facto.

Fazíamos turnos para o podermos alimentar ao longo do dia, consoante os nossos horários: primeiro eu, depois tu, depois eu, depois tu, depois eu. Aceitaste bem a obrigação, mas era eu que limpava a gaiola, como fora estipulado. Divertias-te a dar-lhe de comer, a observar-lhe as novas penas finamente matizadas que a cobriam de castanho, e que começavam a indicar tratar-se de uma fêmea. Entretinhas-te a fazê-la abrir o bico, aproximando um dedo esticado através das grades, para testares se tinha fome. Uma vez demos-lhe esparguete, porque ela o confundiu com uma minhoca e se atirou a ele com voracidade; e acabámos o jantar à gargalhada. 

Sim, Melrax estava viva, crescida, a tornar-se uma bela ave. Atrevo-me a dizer que tu também.

(continua)

17.8.17

melrax # 4

tão feiinho, como é que o vou apresentar ao meu filho

(ainda) Melrax # 3

Claro que o melro é um sobrevivente, pensava eu, ao vê-lo engolir comida para gato sem a menor relutância. Afinal não é ele, como diz Kundera, que há séculos vem desistindo de viver no campo para conquistar as principais cidades da Europa? Não o recrimino, se o campo é, tantas vezes ainda hoje, uma saraivada de chumbos. E Melrax, o olisipógrafo, também conquistou Lisboa.

(continua)

(continuo) Melrax # 2

A história podia ficar assim, mas eu gosto de coscuvilhar nela, por isso vou dizer que ao ultrapassar a porta da clínica, com um passarinho aconchegado na mão, senti a frescura extraordinária de uma árvore frondosa, e fiquei com uma certeza: ia salvá-lo. Fui imediatamente rodeada pelas auxiliares, olhem o que trago aqui, e telefonei a um amigo para perguntar o que podia dar-lhe como alimento, pois sabia que era insectívoro. - Para já, comida de gato - foi a resposta -, depois procura uma mistura para insectívoros que há à venda nas lojas de animais, e faz uma papa com água morna. Agradeci e desliguei, radiante. O problema estava resolvido para aquele momento: foi só abrir uma lata para gatinhos e acreditar que ele abriria o bico. Foi o que fez, mal aproximei a seringa com a pasta, demonstrando enorme vontade de viver. 

(continua)  

16.8.17

Melrax

Enquanto percorria a pé o jardim da avenida para o trabalho de todos os dias, percebi que, ainda longe de mim, um homem se afadigava para colocar qualquer coisa em cima do tronco alto de uma tília. A coisa caía, teimosa, e ele com muita paciência voltava a pô-la repetidamente no mesmo galho. Após uma última tentativa, já à vista do número do seu autocarro, subitamente correu para a paragem, largando a coisa, que voltou a cair. Fiquei a ver o autocarro partir a toda a velocidade, com um certo alívio confesso por poder resgatar o que suspeitara ser um passarinho. Terá ele olhado para trás? Ter-me-á visto a aproximar da coisa, que ele sabia ser um melro (e que eu ainda não), e terá suspirado de desalento por ma entregar assim, com uns minutos de atraso? O certo é que me esqueci rapidamente do benemérito para olhar para o topo da árvore, onde a progenitora se esforçava por chamar a atenção em esvoaçares e piares, aflita junto ao ninho, e só então realizei que, o que o meu antecessor tentara, era de todo impossível de consertar. Peguei no passarinho quase sem penas e dirigi-me para a clínica onde trabalhava, para lhe dar a primeira consulta. Há alguns anos salvei um melro, numa tarde bonita de Primavera. 

(continua)

14.8.17

Posted by Cioran

Houve um tempo em que, de cada vez que sofria uma afronta, 
para afastar de mim qualquer veleidade de vingança, me 
imaginava muito tranquilo no meu túmulo. E acalmava-me 
imediatamente. Não desprezemos demasiado o nosso 
cadáver: ele pode ajudar-nos em certas ocasiões.

eutanasiar uma galinha

São mulheres grandes, mãe e filha, a mãe magra a filha corpulenta. Dizem bom-dia em português delicado, sorrindo e falando baixo, mas explicam-se em inglês, tomando a filha a iniciativa, com o acordo da mãe. A pergunta é se podemos eutanasiar uma galinha. Ela ainda come e bebe água, mas já não tem qualidade de vida, é muito velha e tem um tumor enorme, e faz o desenho do papo com a mão, para eu perceber onde é. Eu respondo-lhe que não sou especialista em aves, que ocasionalmente trato pássaros, que talvez seja melhor procurar um veterinário de exóticos para o efeito. Ela continua, justificando-se, que gosta muito daquela galinha, que não quer vê-la sofrer mais, que ela costumava subir-lhe para o colo para que lhe fizesse festas, que vieram ali por ser mais perto, que talvez fosse possível ali. Eu digo-lhe que não é impossível, que percebo que alguém se afeiçoe a uma galinha, é uma ave como outra qualquer, porque não, e lembro-me de O Livro das Igrejas Abandonadas, em que há uma galinha que vai esperar a dona e a acompanha à igreja enquanto ela reza, e parece-me que estou a vê-la agora: castanha, comum, de crista murcha e sem conseguir andar, pele e osso, moribunda. Eu sei que aqui ninguém faz isso, prossegue a filha, demonstrando ter consciência do ridículo do pedido, enquanto eu a vejo já a atravessar a porta, na data marcada, com a galinha de estimação debaixo do braço, eu a recebê-la contrafeita, mas sem mostrar, porque tirar a vida é uma coisa tramada e tão triste. Aqui, continua ela, o meu vizinho já me disse que lhes torcem o pescoço, que se eu precisar lhe faz isso, e ela morre logo.

13.8.17

um certo tipo

há um certo tipo de amor sem urgências, premonições, sobressaltos
aquele tipo (de amor) que não te deixa em alerta permanente
com os cinco sentidos sempre ligados
e um medo a piscar

mas não é o amor maternal

bicos de pés

ajoelhar.

pés

os homens rezam sem asas

10.8.17

devolução

Dentro da pequena caixa de estanho com a forma ovóide de um coração liso, colocada sobre o móvel do escritório, encontras o outro coração. É negro como te lembras, o artífice foi um sem-abrigo, ladrão de palácios. Encomendaste-o no basalto daquele teatro em demolição e depois mandaste-o encastoar em ouro branco, para que o pudesse pendurar no meu fio. Nunca o usei, mas guardei até hoje aquela ínfima poção de negro vulcânico, polida pelo sebo de umas mãos infinitamente sujas. Está intacto, ainda é o teu.   

9.8.17

tributo

advertência

Limpei-lhes o pó ontem, são dois pisa-papéis em vidro, bem bonitos, 
mas agora inúteis. Um é de vidro negro, o outro transparente. Sequestram, 
cada um, o seu coração vermelho. Este é o teu, disse-me apontando para o 
transparente, ao oferecer-me ambos; e este é como o meu, porque tem um 
fundo negro. Porém, o meu tinha sobre ele gravados três traços negros; 
o outro, três traços brancos. E foi isso mesmo que aconteceu. 

8.8.17

biodiversidade

A meio do jantar, a criança aponta para o tecto com insistência, demonstando ter a noção de estar ali a acontecer algo diferente e digno de ser partilhado. Balbucia também qualquer coisa. Olhamos todos, quase ao mesmo tempo, seguindo o seu pequeno e adorável indicador: a osga, que estivera sumida por uns dias, tinha voltado, e estava em grande actividade a caçar insectos. A criança não demonstra medo e ninguém revela qualquer desconforto com a presença do pequeno sáurio, antes pelo contrário.      

zebra


5.8.17

a preto e branco

(...)
Como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria
e deixou centenas de fotografias, e de rolos por revelar 
por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após 
a sua morte, com excelentes fotografias que ela nunca viu.

Atalhos,7/11/14


Tinha-lhe perdido o nome. Sei que, provavelmente, Vivian Maier 
preferiria assim, manter-se anónima. Mas hoje reencontrei-o e 
reencontrei-a. Fotografava desapiedadamente, como uma cientista 
que estivesse a estudar o comportamento humano. Talvez por isso
tivesse mantido a sua obra em apertado segredo, enquanto viveu.


home movie


(...)
Apaixona-me, por isso, a história de Vivian Maier(1926-2009). O seu primeiro trabalho é, em Nova Iorque, ao balcão de uma loja de doces. Transfere-se depois para Chicago, e passa a ser ama na casa de uma família de North Side. Nunca se casou. Aprendeu inglês indo ao cinema e ao teatro. Andava sozinha. No dia de folga pegava na sua Rolleiflex de médio formato e ia fotografar. Calcula-se que tenha feito perto de cem mil fotografias, num preto e branco rigoroso, que não mostrou nunca a ninguém. Fotografou a rua: os moradores dos bairros, as crianças brincando, os bêbados, as senhoras coquetes, os homens das mudanças, as marchas, as manifestações, os pequenos enredos de esquina, os chanfrados, o alarde das montras ou a confidência sempre diferente que um olhar, ao mesmo tempo reserva para si e escancara. No mês anual de folga, acontecia fazer uma viagem, mantendo a mesma preocupação de registar fotograficamente a rua. Quando morreu, os seus anónimos pertences foram vendidos em leilão, sem que se fizesse ideia de que se estava a entregar, por um escasso punhado de dólares, a preciosa obra de uma das grandes criadoras do século XX.

José Tolentino Mendonça/O Verbo Fotografar
Revista E, 5/Agosto/2017  



declaração de amizade

E foi ali, à sombra da canícula, que jurámos amizade. Chegámos, felizmente, à conclusão, ultrapassando as habituais situações de envolvimentos e arrependimentos, de que ambos tínhamos características para sermos bons amigos e maus amantes. Depois despediu-se e eu continuei a ler o jornal. Lembrei-me da dedução do juiz, aquando do meu divórcio, felicitando os ex-cônjuges pela idoneidade demonstrada no acordo de separação. Mas claro que não lho disse. 

2.8.17

Agosto

Vou atrasar-te o mais possível
fazer toda a fraude que puder com as minhas horas
gaguejar os teus minutos
fechar os olhos aos novos segundos
soletrar dias pendentes 
mergulhar devagar no sol das tuas noites quase frias.
Vou desfocar o registo da tua lua toda
e perder tempo, muito tempo 
a vê-la afastar-se por entre os ramos da figueira alta,
apanhar-lhe os últimos figos 
e ficar a comê-los no luar quente e maduro.
E quando o vento já não fizer estremecer nenhuma folha insegura
deixarei presas à chuva
todas as rosas brancas que cultivei para ti, 
emersas no silêncio sem leds do céu inteiro.
E quando a lua minguar e as flores empalidecerem
e as Monarcas tiverem migrado para o México
à procura de outras zínias mais coloridas e mais novas,
eu já te terei atrasado tanto
que um pequeno cristal em tua vez
ficará como o único Verão,
que valeu em mim
a tua pena.

1.8.17

Mr. Nigel

Para todos os efeitos Mr. Nigel mora na minha casa, que é onde chega, subitamente, toda a sua correspondência. Eu, cidadã escrupulosa, pego nas cartas e entrego-as no posto dos correios, mas começo a ficar intrigada com este homem invisível que mudou para o meu endereço. Ainda ontem o carteiro, recém-regressado de férias e por sinal mais gordo, me tocou à campainha, suponho que com curiosidade por entregar, em mão, uma carta a Mr. Nigel. Não o critico, evidentemente. Como por infortúnio Mr. Nigel não estava no momento, perguntei-lhe se era algum registo, mas não, era só zelo. Mr. Nigel vai-se revelando um facto, um homem afirmativo. Ora bem, fantasio eu, e se Mr. Nigel fosse o homem da minha vida que se fizesse assim anunciar, conquistando primeiro a caixa do correio, e depois quem sabe, um dia, eu viesse a receber, finalmente, uma carta dele, deveras encantadora, explicando as nobres razões deste enorme incómodo? E atrevo-me mesmo a dizer, ao devolver várias cartas de um conhecido banco: pode ser que ainda por cima seja rico.

tacto

Voava desorientada quando pousou sobre a terra, abrindo completamente as asas e fechando-as muito devagar até as unir ao máximo, no que parecia querer ganhar fôlego para iniciar nova volta, larga e atabalhoada, sobre o jardim. Fui a correr buscar a máquina fotográfica e tentei tirar-lhe uma fotografia em voo, sem grande sucesso, mas entretanto ela veio aterrar aos meus pés. Aproximei-me devagar e estendi-lhe um dedo sob o corpo. Subiu confiante, como se estivesse à espera de me dar oportunidade para ter aquele gesto. Senti-lhe as patinhas muito leves a agarrar as minhas impressões digitais e elevei-a no ar, onde ela pertencia.     

toma
























29.7.17

na idade da pena

arremessa uma pedra e ela voará

agora experimenta arremessar uma pena

na idade do bronze

Os meus poetas podem levar a civilizações etruscas e em alguns casos a contusões.
                            
Os meus posts podem levar a conclusões patuscas e em alguns casos a confusões.

na idade do ferro

Oiço o ruído de um automóvel, portas a bater e vozes de seguida. Continuo a enrolar a mangueira, tentando descortinar se o som vem de dentro da propriedade. Quando tenho a certeza que vem, dirijo-me à entrada para ver quem é. Encontro uma família de ciganos: a mãe de criança ao colo, os mais velhos, pendurados no baloiço da alfarrobeira sorvem gelados e um deles já trepa para a casa da árvore, o pai ainda dentro do Ford Cortina azul ferrugem estacionado no caminho, como recém-chegados a um parque de diversões. Pergunto o que desejam. Só viemos varejar a alfarrobeira aqui do terreno em frente, diz o homem ao sair do carro. E esta, também podemos? Digo que sim, do lado de fora, que não quero o jipe sujo, nem embalagens atiradas para o chão. Respondem em coro que sim. Fico a vê-los a estender um enorme plástico verde e a usarem as canas com destreza. As crianças também, terminado o gelado. Entretanto uma galinha canta demoradamente, para anunciar que acabou de pôr um ovo, e um cavalo relincha, numa quinta próxima. Nada mudou assim tanto desde tempos imemoriais: os jogadores é que mudam, mas o jogo, esse é sempre o mesmo.

ladrões de figos



28.7.17

the barber, since 1899*

cabeleireiro de homens voltou hoje ao consultório, com uma pergunta pertinente sobre canitos. Admirei-lhe o chapéu e a pose, mas não perdi oportunidade de lhe fazer as perguntas que tinha idealizado no caderno que não escrevo. E foi mais ou menos coincidente ele abrir o portfólio de cabeleireiro encartado in USA, para que o admirasse, e a minha pergunta ansiosa: - Não foi barbeiro em Buenos Aires? Lembra-se se cortou o cabelo a Jorge Luis Borges? Empertigado (com razão), - porque me lembrava de tudo menos de que ele não era barbeiro - respondeu-me à la lettre: nem a ele nem ao Al Capone.

* Jorge Luis Borges e Al Capone nasceram no mesmo ano 
(nota do investigador deste blogue, Manuel Hilário)     

antes da fuga

Feito

eu sou mais discreta :) faço acima:



































(ou the moon and sixpence)

27.7.17

nota para uma conversa de café daqui a vinte e cinco anos

Quando eu ainda não tinha um ano, a minha avó recomeçou a vida num sítio que não conhecia. Vivia sozinha com duas cadelas e um gato. Era veterinária numa pequena aldeia. Ah, e tinha um blogue! E parece que um dia, para tirar uma fotografia a um triciclo, ou melhor, a uma bicicleta que estava num terraço de uma vizinha, precisou de usar um escadote para passar de uma açoteia para outra e depois de esconder-se, porque a vizinha apareceu. Então ela teve que esperar um bom bocado para conseguir tirar a fotografia clandestina, quase apanhando uma insolação. Tinha ficado fascinada com o ambiente daquele amontoado de coisas velhas, onde estavam brinquedos que já ninguém queria, entre eles uma bicicleta que teria sido a alegria de uma criança, na altura já homem adulto. Ela vivia obcecada com este tipo de coisas, com os ciclos de vida que se repetem, que se fecham e recomeçam de novo.     

confusões

Os meus posts podem levar a conclusões patuscas e em alguns casos a confusões. Sempre que falo sobre isso com a minha mãe acabo a explicar-lhe tudo, as mais das vezes, tim-tim por tim-tim. Ora um post, se for ligeiramente dúbio, se conduzir alguém a pensar, a investigar, a relacionar, cumpriu a sua missão. Lembro-me que os blogues que mais me fascinaram no passado (e que me levaram a fazer um), eram precisamente assim. Aprendi muito com eles e foi por eles que me meti por atalhos nunca antes imaginados. Conheci mundos. Estou muito grata por tudo aquilo que não me foi dito, mas sugerido, e por todas as dúvidas que continuei a ter.  

equipamento

a ronda do dia




































































uni verso

eu, a brincar sozinha no grande mundo desde pequena

25.7.17

8%

É o tamanho da lua, hoje: para mim chega. Está linda no céu, não apaga nada, antes existe ali, como espada, uma foice quieta, que não quer cortar. E não sabendo qual a percentagem que me resta, também eu brilho como foi-se incerta, num caminho que é lunar.

desfocado

se focava o livro, desfocava o homem
se focava o homem, desfocava o livro

por fim preferi ler

cão a dormir


24.7.17

desafinado

Ele não toca bem e desafina quando canta.
Seria horrível ouvi-lo, se a maior parte das vezes 
o silêncio, as janelas fechadas, e a escuridão,
não fossem ainda piores.

sponging on e sponging off

Passo parte do Domingo a pintar o meu quarto. À cabeceira da cama uso uma esponja natural para deixar marcado o azul báltico. Contorno a janela e a prateleira em pedra. Continuo na parede contígua, seguindo uma voz que vem de dentro. Termina, como maré irregular, sobre branco. Ouço Async em repeat. Não se volta duas vezes ao mesmo amar. Adormeço numa ilha.

pequeno-almoço em áfrica

Levo o pequeno-almoço para o terraço que dá para o jardim. 
A cadelita anda por ali, vai recuperando mas ainda coxeia da mão esquerda. 
De manhã cedo recebe-me com saltos e latidos, quando entro na cozinha. 
Enquanto bebo o café afasta-se para explorar o espaço em volta. Procuro-a com o 
olhar. De súbito vejo uma ponta de cauda branca a aparecer por entre as ervas baixas, 
como se fosse a de um mabeco.  

22.7.17

the goats man

A nossa representação foi perfeita. Eu tentei não deixar transparecer ansiedade, ele foi directo ao assunto, venho buscar um cachorro que uns ingleses deixaram aqui, quanto devo. Suponho que ensaiou bem a fala, a atitude, a postura. Eu improvisei o quanto pude. No final ganhámos os dois: ele viu-se livre da cachorra de dois meses, que deixara cheia de carraças ao abandono, até ser atropelada; eu, que entretanto me afeiçoara, disse-lhe com um baque no coração, mas quer o cachorro porquê, se estava tão maltratado... não quer dá-lo, até eu ficava com ele, faz-me lembrar uma cadelita que eu tinha quando era pequena. Os meus cães têm liberdade e eu nem sempre estou, deu-me a desculpa esfarrapada. Ela até é muito esperta, mas agora parece-me estranha... E está, Sr. goats man, ficou com um lado semi-paralisado, com a pancada, mas a recuperar. Mesmo que a quisesse levar agora, eu não lha entregava. Ainda não está livre de perigo. O , é que é terrível: um campo de concentração de cabras e outros bichos, bem no centro da localidade. E olha-se para o homem e nem parece má pessoa.   

Cestrum-nocturnum












































al face bio lógica sem verde alface

enquanto a lavo e me desmaia nas mãos:

[de tanta ecologia
talvez sofra de anemia 
- o desfalecimento!]

Palavra

ESGOTADA

17.7.17

nocturno

noite serena
brilham aromas 
*em* estrelas

siameses



bestialidades

No auge do Verão a câmara manda cortar as árvores de sombra: lódãos, jacarandás, áceres, plátanos. Os troncos ficam no chão, durante vários dias, a libertar maciçamente pólenes que invadem tudo. A seguir recolhem os troncos e arrancam definitivamente as árvores. Um dia voltam e decepam as árvores-da-borracha centenárias, que sangram como elefantes feridos. Entretanto os jardins e canteiros públicos continuam ao abandono.

16.7.17

medieval

No meio da algazarra das ruas, exibem-se três aves raras
para sessão fotográfica: uma Arara-azul, um Bufo-real e uma 
Coruja-das-torres. O homem jamais conseguirá escapar ao 
seu instinto de Idade Média.

bordado

Acordo estremunhada e levanto a cabeça para encarar a janela à esquerda, entreaberta, de onde vem um ruído de carros a trepar pelas paredes. Onde estou, pergunto-me, abrindo os olhos com mais força para vencer o espanto, se a outra janela é atrás da cama? Olho para o estore japonês bordado à luz da rua e sigo o picotado em código repetitivo até ao fim, até ele estacionar no meu cérebro ainda meio desligado. Finalmente deixo-me cair para trás, confiante, sobre a almofada: já sei, estou no meu quarto antigo, deitada na minha cama. Mas já não volto a adormecer como dantes.   

inesperadamente














































15.7.17

in memoriam

A baixa e arenosa praia e o pinheiro anão,
a baía e a longa linha do horizonte.
Que longe estou de casa!
O sal e o odor de sal do ar do oceano
e as redondas pedras polidas pela maré.
Quando chegará o barco?
Os vestígios queimados, quebrados, carbonizados,
e a profunda marca deixada pela roda.
Por que é tão velho o mundo?
As ondas encapeladas e o céu imenso e cinza
sulcado pelas lentas gaivotas e pelos corvos.
Onde estão todos os mortos?
O delicado salgueiro dobrado sobre o lamaçal,
o grande casco apodrecido e os flutuantes troncos.
A vida traz pena!
E entre pinheiros escuros e pela margem lisa
o vento fustigando. O vento sempre o vento!
Que será de nós?

George Santayana / Cape Cod 

14.7.17

aferição

a minha aferição é com a morte

trânsito

A proibição do prazer é a chave que o estimula: a luz vermelha 
acende-se e com ela os meus desejos de atravessar a rua.

Fernando Savater / Teresa

veto

hoje vetei uns shorts mais curtos do que 
a camisa da farda 

você nessa figura não entrava no Vaticano,
- fica a saber.

festarola

e fugi o mais rápido possível da aldeia, da música pimba em altos berros, 
dos lugares sentados (de primeira), do cheiro a sardinha, das marchas, 
da modinha; e fugi de ti, artigo indefinido, principalmente para mim.

a décima sexta emenda

está declarada a época alta

Imperial

- Havia de experimentar ir lá ao fim da tarde; 
  a cerveja é servida em copos de cristal!

E como explicar-lhe que o que me atrai é precisamente
a esplanada do café estafado e sujo onde ecoam gargalhadas 
boçais, onde me servem uma imperial em copo vulgar 
e baço num canto qualquer; que não se trata de celebração
mas de um lamento, de uma moínha mansa que se contenta com
um resto de espuma.  

13.7.17

compromisso

a tatuagem como modo de libertar a alma
ou antes de a aprisionar

contei as minhas cicatrizes
tenho mais do que julgava
e várias picadas de mosquito
e é tudo.

daiquiri




12.7.17

geringonça

Hoje castrei o Gerigonça. Seria um acto eleitoral se fosse a Geringonça, mas não. Esquecendo o risco desta anestesia geral, foi menos leal castrar o Geringonça do que seria oportuno castrar a Geringonça, mesmo que ela não estivesse ainda preparada. Suponho que também consegui a proeza de transformar o em o, com o auxílio de alguma técnica, o que para o caso poderia ter interesse. O Geringonça, como já se percebeu, é o meu novo gato. Um dia encontrei-o na minha cama, quando me ia deitar. Apanhei um valente susto ao distinguir uma sombra escura sobre os lençóis. Corri com ele, que desapareceu a derrapar pelos telhados. Mas ele insistiu e voltou umas noites a seguir, daí o nome, e eu voltei a correr com ele. Porém apercebi-me de que estava doente, pois deixara uma marca de sangue no sítio onde estivera deitado. De dia procurei-o, entre os muitos que por aqui andam, e encontrei finalmente um gato magro e desarticulado no andar, com um abcesso numa pata, que supus ser o acertado. Levou várias injecções até ficar curado, o que seria muito útil também na Geringonça,  mas para isso era preciso que ela se tivesse deitado na minha cama, coisa que felizmente não aconteceu.

de as atropelar

De manhã, e à noite no regresso, as andorinhas fazem uma festa em volta do carro. Suponho que é o ar em movimento que levanta insectos e as atrai. Então é como se eu fosse a voar com elas, e travasse com elas sobre o asfalto. Esqueço-me que vou no chão. Saio mais cedo, e chego mais tarde, para poder ir mais devagar e não correr o risco de as atropelar.

11.7.17

attraper

A mensagem é curta, mas sugestiva. É na verdade um agradecimento, 
acompanhado por uma pequena nota: entretanto conseguimos arranjar 
uma gatinha adorável, pequena mas dotada, já apanhou um pássaro! 
O pássaro era uma andorinha - hirondelle.   

pisa papéis



Era uma folha pousada
no cotovelo do vento:
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida me ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira / Folha 

silly season

- Agora tenho atrás de mim um casado e um louco! - diz-me ao telefone.
- Escolhe o louco; escolhe o louco - aconselho.

10.7.17

barrocal

Sentada ao seu lado no automóvel, ia sentindo uma vez mais que médicos e veterinários têm muito pouco em comum. A conversa era sobre as hepatites, A, B, C, (porque também no cão há hepatites virais), e a vacina que eu levava comigo na mala isotérmica tinha precisamente uma dessas valências. Aquilo que estudamos é idêntico, actuamos sobre corpos doentes, mas para todos os efeitos um médico é prioritário porque o homem é prioritário. Assim sendo um cão é secundário e o veterinário passa a ser um médico secundário; e quando um médico e um veterinário se juntam no mesmo habitáculo esse complexo parece acentuar-se. Médica reformada antes do tempo, mas dona do seu tempo, como referiu. E depois havia feito uma reflexão e chegado à conclusão de que um médico é sempre um médico. Concordei. Mesmo que a medicina vá progredindo e os tratamentos se actualizem, as doenças, na sua maioria, continuarão a ser as mesmas de sempre. E há a experiência, dizia-lhe eu, a experiência deveria ser considerada património da humanidade. Sim, eles quando nos propuseram a reforma antecipada não se lembraram disso. Chegámos a um portão fechado sobre um jardim, que um muro caiado separava das cigarras, do calor e da secura. Comentei o contraste, a orquestra das cigarras à hora de mais calor, o mar ao longe, uma paisagem de Sophia. Um barrocal, rematou. Pedras e barro, acrescentei, tenho conquistado o meu jardim às pedras e ao barro. A quinta tinha o nome de uma doença, mas o cão estava saudável. Era enorme e meigo como o mar, visto assim, de longe.        

de olhos fechados

e só procuro























II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia

castigo

é preciso que te repita vezes sem conta
para que te esqueça de uma vez 

9.7.17

desmoronamento

e foi assim
descalça e nua
que me tomaste
e que de mais ninguém
fui tua

Bau n'ilha



I
De todos os cantos do mundo
Amo com amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia

8.7.17

o homem que só lia blogues extintos

Era um homem pacato, nem gordo nem magro, de estatura média, um homem comum de meia-idade. Morava sozinho e era discreto, cumprimentava os vizinhos com parcimónia, evitando qualquer tipo de diálogo quando se cruzava com eles na rua, ou na escada do prédio antigo onde morava. Viam-lhe por vezes um saco de compras, geralmente à sexta-feira, e sempre uma mala negra a tiracolo que ele transportava com cuidado, escudando-a com a mão. Chegava tarde do trabalho e mal entrava em casa dirigia-se à cozinha para abrir uma lata de comida para o gato tigrado que  não o largava, saltando para a bancada com miados de súplica. Depois do jantar, - invariavelmente comia a ouvir ópera - colocava o tabuleiro no chão, ao lado do sofá que partilhava com o gato, para retirar do interior da mala um portátil pequeno que colocava sobre os joelhos. E fazia sempre a mesma coisa, dedicava-se a usar o motor de busca para encontrar blogues conhecidos. Ia ao fim das listas de leitura recomendadas e continuava, noite após noite, um já longo trabalho de pesquisa: a procura de blogues extintos. Geralmente eram bons blogues, com vários anos, bem escritos, com leitores fieis, mas que inesperadamente tinham terminado. Então fazia-se seguidor, um seguidor póstumo, colocando a fotografia de perfil do seu gato Bashô no início da grelha, ali bem em evidência. Era um pouco mórbido, concordava, rindo-se sozinho, mas ele não entendia aquela avidez da leitura imediata e do esquecimento quase imediato. Por isso voltava todas as noites para ler tranquilamente aqueles blogues tristes como diários cansados, à procura do entusiasmo dos seus primeiros dias.