Atalhos de Campo


21.10.17

o poder da personagem

Shakespeare saberia, certamente, transformar Paula em Miss Smile;
mas só Miss Smile saberá como regressar a Paula.

20.10.17

o unguento e a cura



eu era o teu unguento
e tu a minha cura

mas nunca acertámos no dia da semana

saltos altos

apetece-me saltar páginas
como salto conversas




como saltei ao eixo

os mais lidos

É admissível que o escritor cansado escreva à tantas um texto chato, o que origina um leitor desmotivado. Mas o leitor compreensivo continua a ler o livro estoicamente, voltando atrás várias vezes, usando até de superior atenção, ao admitir que a culpa pode ser sua. É portanto plausível que os capítulos mais aborrecidos (e mais desinteressantes da história da literatura), sejam os mais lidos.  

15.10.17

encadernar

sou uma flor seca
guarda-me, no teu e-book
sou um bilhete de interrail
viaja-me, no teu e-book
sou uma fotografia
esconde-me, no teu e-book
sou areia da praia
encontra-me, no teu e-book

agora sou uma pena,
mas já fui um livro.

máquina de escrever

aproximo as mãos do teclado
como se soubesse tocar

do amor perfeito



14.10.17

guardar

não me aguardes
eu sou
de ontem

durante a tarde

com a idade, os homens vão ficando fartos das mulheres
e as mulheres dos homens, mas já é tarde

próximo

o homem do futuro estará advertido contra o amor
esse estado próximo da loucura

blogl au vin

Ontem, foi ontem, claro, que vi à venda um vinho em bom, chamado Blog. 
Blog não é nome de vinho, Sexy, também não, .Com, idem... mas há nesta 
escolha um sinal que achei interessante: parece-me uma aposta no futuro 
do vinho, pelo crédito aos blogues.  

13.10.17

clima

Há pessoas que não escolhem um lugar para viver por razões afectivas ou afinidades várias, mas por razões económicas e, sobretudo, pelo clima. São essas as suas prioridades. Entre um dia bonito e um abraço, preferem certamente um dia bonito. Falar do tempo parece-me então ser um belíssimo tema para início de conversa, logo seguido do custo de vida.

12.10.17

sete foles

Recebe-me a chorar e vai contornando a enorme casa até ao alpendre das traseiras, onde o jardim deixa passar por entre os arbustos o azul transparente de uma piscina. Mas Alba não está ali, onde a deixou, escondeu-se, e então fomos ambas procurá-la. Encontramo-la prostrada, estendida por baixo de um banco, sobre o pavimento molhado. Alba prepara-se para morrer aos vinte anos, e refugia-se, consciente do seu estado de extrema debilidade. Mas a velha senhora não se conforma e chora todo o tempo. Foram vinte anos muito bons, é uma gata espantosa, não vou ter mais nenhuma como ela. Sei o que isso é, tão bem que nem digo nada para a consolar, porque compreendo sobretudo como a morte de um animal, que nos acompanhou tanto tempo, encerra e remete esses anos para um passado irrecuperável. E Alba está nas últimas, seca, a pele cosida ao osso, o pêlo longo, que certamente faiscara ao sol, está descuidado, faz nós espessos, de desleixo progressivo. A dona diz que foi sempre assim, ela tinha muito mais que fazer do que pentear-se (um dia quando quis desfazer-lhe um destes nós deu-me uma valente dentada). Caçadora?, pergunto-lhe, enquanto ponho o soro a correr. Uma caçadora extraordinária. Quando tinha visitas, e ela gostava das pessoas, vinha oferecer-lhes ratos e pássaros, tão contente que por vezes se esquecia de os matar. Perdoo a ambas a euforia, porque sinto que a senhora precisa de recordar esta gata agónica ao sol da sua antiga garra. Trato Alba sem convicção, sabendo que já nada poderei fazer para a salvar. A dona ajuda-me e vai falando. Ela só gostava de beber do meu copo, mesmo quando o copo tinha gin ou whiskey... e limpa mais uma lágrima da face ruborizada pela comoção. Pressinto que vai viver este desgosto sozinha naquele casarão, longe de toda a família. Porque não volta para Inglaterra, pergunto-lhe a certa altura. Mas aí ela solta o olhar azul em voo sobre as lentes embaciadas, como um gato ainda ágil e ligeiramente assanhado atirando-se às janelas de casa ao ver um rival, e diz que é escocesa, e que na Escócia chove durante três meses seguidos. 

À saída passamos por um canteiro de suculentas. As suculentas são as plantas que melhor se adaptam à secura do Algarve, diz-me, ao despedir-se. Eu comparo-as imediatamente à resistência dos gatos, que por aqui pululam em grande número. Mas olhando-as com atenção clínica, percebo que também estas suculentas, apesar do nome, precisam de hidratação urgente. E ainda ouço o suave tilintar das conchas do espanta-espíritos pendurado no alpendre, que acompanhou todo o tratamento. 

11.10.17

aos 130,64 gramas

(100,64 gr depois da minha afirmação), é finalmente 
mencionada a palavra imbróglio

9.10.17

imbróglio

Peso o livro que comecei hoje a ler: 1,450 Kg. 
Tirando 20 páginas para o peso da capa, aos 
30 gramas começa o imbróglio. Tal como na vida.

7.10.17

cá dentro

O meu lugar de sonho é aqui. É aqui que tomo o pequeno-almoço a olhar para o jardim, que colho flores frescas pela manhã, que leio, sentada no terraço, que almoço iguarias em cama de manjericão (que é só colher das floreiras de ervas aromáticas), que saboreio à sobremesa mais um dióspiro dourado ou um figo delicioso, acabados de apanhar da árvore, que janto à luz da vela, e que adormeço num quarto lindo, pintado de azul. 

É aqui que eu faço de conta que acabaram agora mesmo, de me colocar à frente o tabuleiro do pequeno-almoço com saborosas torradas e café cremoso, que as floreiras sempre ali estiveram viçosas a perfumar o terraço, que os canteiros não foram conquistados a pulso, às pedras e à secura, e que não me levanto cedo todos os dias para os regar; que o jasmim, que obviamente não plantei, inebria as noites quentes protegido pelo muro (tão branco, que é claro que não fui eu que pintei), e que o quarto, oh, o quarto em azul báltico a evocar o som do mar, onde encontro a cama aberta e um livro marcado à cabeceira, também não fui eu que arrumei. Ainda há gente que programa férias em lugares de sonho.

6.10.17

burnout

O médico tentava explicar-me como se faz: os passarinhos caem do ninho, estão ali, no chão. Você pega num escadote e volta a pô-los no ninho, isto aconteceu comigo, exemplifica. Um caiu logo de seguida, e depois caiu o outro, e eu vim-me embora. Se eles voltam a cair o que é que você pode fazer mais, disse, ao passar a receita.    

4.10.17

ofício cantante*

Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura das palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
- Uma frase, uma ferida, uma vida selada.

*Herberto Helder/ Última Ciência

zínias em jarra azul























Para ~CC~

2.10.17

cantar

cantar é perfumar as palavras
ouvir é perfumar a vida

e o libertador

o pescador de palavras

Sou cauteloso com todas as palavras. Elas são peixes com dentes.
E depois de pescadas tornam-se mais perigosas.

Daniel Jonas

inodoro e puro

Grenouille tinha a testa coberta de suor. Sabia que as crianças 
não têm odor, à semelhança das flores antes de desabrochar.

Patrick Süskind/ O Perfume

A Alan e Galip Kurdî

1.10.17

cheiro

quem cheira mal 
é porque cheira bem


quem cheira bem
é porque cheira mal

(provérbio chinês)

fecho da urna

(quase) todas as pessoas
são sensíveis
ao fecho da urna.

sorrow, we stinck



Os governos falam de migrantes. Mas nós, que
trabalhamos com os migrantes, sabemos o que
elas são. São refugiados.

Vanessa Redgrave

*sea sorrow*

hoje borrifo-me


No nosso mundo globalizante, a política tende a ser crescente, apaixonada e conscientemente local. Expulsa do ciberespaço, ou tendo o acesso a ele negado, a política recua e reflecte sobre os assuntos que estão «ao alcance», sobre questões locais e relações de vizinhança. Para a maioria de nós, durante a maior parte do tempo, estes parecem ser os únicos temas em relação aos quais podemos fazer «alguma coisa», influenciar, corrigir, aperfeiçoar, redireccionar. É somente nas questões locais que a nossa acção ou inacção «faz diferença» enquanto nas outras, reconhecidamente supralocais, «não há alternativa» (ou, pelo menos, é o que repetem os nossos líderes políticos e todas as «pessoas que estão "por dentro"»).

Zygmunt Bauman/ Amor Líquido

água brava


tu, em Maio de 68

30.9.17

amarige

rasca não é casar amarige não foi mariage

tuscany

Agora que me detenho na mensagem do jacquard estampado na tampa, percebo que foi o nosso entrelaçar imaturo que não conseguiu resistir ao tempo. Percebo porque ficaram contornos por desvendar e porque salvei até hoje a caixa cúbica como se salvasse o perfume inviolável de um anel de noivado. Assente em tule, o frasco elegante de vidro grosso, inquebrantável, ainda usa a mesma gargantilha em cobre e um selo, mas o seu conteúdo já não provoca interjeições de contentamento nos pulsos, no pescoço, no cabelo, no peito. Hoje observo-o com o mesmo interesse que suscita a arqueologia de um amor morto, em que o aroma do sândalo e do cedro das arcas antigas tivesse aprisionado para sempre o perfume das flores e a exuberância dos frutos da juventude.         

26.9.17

qual é o teu perfume?

Fiz um perfume que se dirige ao futuro da sociedade. A próxima grande revolução social vai ser a assexualidade. O meu perfume é para as pessoas que já não estão interessadas em homens nem em mulheres, nem em sexo, ultrapassaram a ideia da sexualidade. Isso vai chegar depressa. É a grande tendência.

Philippe Starck

25.9.17

polite

Noto diferenças admiráveis nos seus comportamentos, quando os comparo com os nossos em situações idênticas. O casal de férias volta com o cão diabético de catorze anos, obeso e já cego, que caiu da varanda há dias, enquanto o dono se banhava na piscina e assistia com estupefacção ao voo, sem poder fazer nada. Mas felizmente que o cão estava ileso. Ele parece uma almofada, comentei a rir, ao terminar a consulta. Já no chão, o velho Westie fez um enorme, enorme, chichi e enquanto eu aproveitava para concluir que a urina estava normal e que era a prova de que a queda não provocara rotura da bexiga, o dono, consternado, afadigou-se a limpar tudo, apesar de eu o tranquilizar e dizer que era perfeitamente usual acontecer, e que não se preocupasse que eu trataria disso em seguida. Hoje o cão veio para o exame clínico e a desparasitação obrigatória para poder regressar ao Reino Unido. Mal foi colocado no chão, a dona sugeriu ao marido que fosse andando com ele para a rua.

24.9.17

pela vida imperturbado

Às vezes bastam óculos mais fortes para curar um apaixonado;
e quem tivesse força de imaginação para conceber um rosto, uma
silhueta vinte anos mais velha, talvez passasse pela vida impertubado.

Nietzsche/ 100 aforismos sobre o amor e a morte 

miopia


22.9.17

submarino ao fundo.

se pensam que dou as coordenadas enganam-se, ah, ah, resistirei
ao sabor dos posts mirandeses lá d'esse andhremnir, hic! que até duvido que estejam mal passados..., hic, açucaradas sobremesas, essas pérolas do equador, onde é que anda a smilenska com os seus amuse-bouche... come-se muito bem neste barco.

20.9.17

contemplação

eu sou
me indiferente

teclista

bernardo soares

teclas

pródigas

Percorro letras sem me zangar, sem ouvir nenhum silêncio a não ser o som das teclas. Dormem ferradas nas suas mantas. Desobedeceram à minha chamada implorativa antes de sair de casa. Pela primeira vez fechei a porta e desapareci a correr para não chegar atrasada sem me sentir adolescente. Durante a tarde lembrei-me várias vezes delas como filhas pródigas. Cheguei já de noite na expectativa que soltassem o remorso a galope, mal pressentissem o carro. Mas não é sintoma de garotas: o seu instinto de sobrevivência alertava-as, e bem, para os perigos da escuridão.

18.9.17

maior idade

quando o teu amor
me compensa

clé

São muitos os vídeos que provam que há gatos cleptomaníacos. Alguns felídeos até conseguem especializar-se em roupa interior (mas da felina). No entanto o meu problema, e bem sei porque escrevi meu - *assim* - não é com um gato, mas com uma cadela menor que gosta de gatos, e que parece ter adoptado um dos seus comportamentos: tenho aqui(que nem sei o que lhes hei-de fazer), brinquedos de criança, havaianas, toalhas, pantufas, ténis, bolas, bolas! - diria a Susana - o horror avoluma-se diariamente, quando a vejo chegar a casa com mais uma coisa daquelas... e bem podia ser a Diane Keaton a dizê-lo, com um dos seus muito bem conseguidos gestos, lá d'isso. 

17.9.17

sem dono

Conservo na memória a imagem desta tarde do cão morto como se chegasse a dormir, nenhum esgar de dor, nenhum espasmo, os olhos circundados por carraças como se fossem piercings, o corpo aconchegado ao alívio da morte. A velha coleira de cabedal, que ainda segurava a vergonha do abandono, mantivera-se como único afago a abraçar-lhe a errância, até ao esgotamento à beira da estrada.

15.9.17

vint' age



a vida é sempre impontual

conversa caiada

Fiz marcha-atrás e dirigi-me a ele em passo apressado. Durante toda a nossa conversa mal levantou os olhos do muro. Era uma espécie, quase extinta, de homem-alfarroba-na-apanha: escuro, seco, concentrado. Usava um rolo pequeno, e com ele branqueava o muro da Escola Primária. Varejei, que a mando da Junta de Freguesia. E não faz trabalhos fora do seu horário, é que precisava, ali para o consultório - apontei-, de uma pintura, como vê... pois vejo, - sem levantar os olhos-de-rolo-de-tinta -, até já disse ao senhorio que é só receber as rendas, e beber cerveja. 

machismo

confesso o meu problema com as vírgulas
e a minha admiração por certas maiúsculas

14.9.17

o grilo

Há duas noites atrás apanhei um grilo no meu quarto, mesmo antes de me deitar. Era um belo exemplar, grande e forte, vestido a rigor de negro noctívago, e brilhante. Peguei-lhe com uma t-shirt, abri a porta da açoteia que dá para a noite onde os grilos se misturam com as estrelas, e deixei-o lá, pensando que voltasse a saltar para o jardim. Despertar de madrugada com o cantar altíssimo de um grilo, faz sumir num ápice qualquer romantismo que possa estar associado às noites de Verão no campo. Estremunhada resolvi voltar-me para o outro lado, mas o grilo não me dava tréguas em lado nenhum. Pensei que talvez não tivesse conseguido devolvê-lo à liberdade, e que ele afinal cantava ali mesmo, aos meus pés. Levantei-me e aproximei-me do sítio de onde vinha o som. Não havia dúvidas de que o grilo estava fora do quarto, mas cantava com tal intensidade que parecia estar lá dentro. Dei dois toques com os nós dos dedos na porta de vidro (duplo, acrescente-se) e ele calou-se, mas por pouco tempo. Recomeçou, e eu voltei a fazer-me notada, e ele voltou a calar-se. Deitei-me de novo, pareceu-me ouvir cantar mais longe e presumo que adormeci. Mas quando às sete da manhã me levantei e abri a porta da açoteia, o grilo foi sugado para dentro do quarto e caiu-me, literalmente, aos pés. Tinha escolhido exactamente aquele recanto para pernoitar. Peguei-lhe outra vez, mas desta feita para descer com ele para o jardim. Coloquei-o no canteiro das zínias, que tem bastante alimento e esconderijos. Há dois dias que o oiço cantar muito próximo da casa, mas suficientemente longe do meu ouvido. Tenho a certeza de que é ele: cada vez acredito mais que deve haver grilos que gostam de pessoas, como há pessoas que gostam de grilos. 

9.9.17

feijoada com todos os poetas

A casa está mergulhada no vento. Acendi velas em vários sítios. Arde ao meu lado uma delas, que resiste há dez anos, sem nenhuma razão especial. Faço contas e reparo que por ser muito grande já conseguiu perfumar as três casas anteriores. Na cozinha, onde adormeceram as cadelas por exaustão, cada uma no seu cobertor colorido, borbulha a fogo lento o esquiço de uma feijoada, que vou aperfeiçoando a cada içar de tampa. Cheira bem, e há paz, e silêncio. Esta semana Tolentino consegue reunir Pessoa, Cecília Meireles, Adélia Prado e ele próprio, num desencontro brilhante. 

prócida:



foste o meu herói azul
a minha solidão sem sul

8.9.17

bd

os teus comentários
parecem documentários

fica bem

pode ser mais simpático
do que ben fica

post

mal passado.

água retrasada

Segue à minha frente uma camioneta, ou eu sigo uma camioneta à minha frente. Idosa, (velha). A camioneta é absolutamente isso, para onde caminho. Vai carregada com um contentor cilíndrico, isso, como ela quase eu, (as)sentado na sua anca rectangular e desengonçada. Reparo com o imenso vagar o n d u l a n t e, que o reservatório está recauchutado com uma espécie de botox, ácido hialurónico ou coisa que o velha (nunca eu) para contentores em alumínio a atirar para o decrépito. Há uma mancha no bidão que me parece um pequeno fantasma, mais escura que o cinzento geral em que me concentro, e que insiste em flirtar comigo, intrigando-me em toda a curva decadente.
Água! - consigo ler finalmente -, e o fantasma sorri-me. Pois é, lembro-me de imediato, aliviada: aqui vende-se água às toneladas e quintais, porque se compra água, porque em muitas casas ainda não há água canalizada.
Olá fantasma, - vamos indo.

5.9.17

a guerra no prato



Respeito muito os vegetarianos. Atualmente, a minha
alimentação e a da minha família é 60% vegetariana.


(...)matar um javali e ir lá com a faca sangrá-lo, 
tirar-lhe o sangue todo, fazer-lhe festinhas enquanto 
o sangue lhe cai pelo pescoço, (...) dar um tiro num 
pombo ou num faisão.
(...) ter um pombo e abri-lo todo, tirar-lhe o peito,
o coração, o fígado e os pulmões, tirar-lhe o sangue
com um paninho, tomar conta dele...

4.9.17

a força da suavidade



Pelo obituário do jornal que apanhei do chão da cozinha,
(ali colocado para os cães fazerem chichi durante a noite), 
soube que Anne morreu há pouco mais de um mês, ao tentar 
salvar duas crianças em risco de afogamento. Chamou-me a atenção 
facto de ser uma mulher ainda jovem e bonita. Ao ler a sua 
curta biografia, sentada ali mesmo, no chão, admirei-a 
imediatamente: alguém que faz a apologia do risco e que 
morre porque arrisca. Viver sem arriscar, não é viver, 
dito por esta filósofa que eu não conhecia, parece-me uma 
boa advertência mesmo que o risco possa ser de vida. As 
crianças sobreviveram e o jornal estava intacto incitando
à leitura, num dia em que era indiscutivelmente importante
que o fizesse.   

1.9.17

claudicações

O cachorro que claudica de um dos posteriores, segue uma senhora que fala ao telefone e que de vez em quando pára. Ele também pára, ansioso por lhe chamar a atenção, mas ela parece não perceber continuando a conversa, e gesticulando com a mão livre. Então ele desiste, adianta-se-lhe e desaparece por entre os carros estacionados, atravessa a estrada e volta a atravessar, de atenção erguida e olhar apurado, como se um periscópio se tivesse destacado do seu pequeno corpo. A senhora ali permanece, indiferente, entregue à conversa, e depois também ela desaparece no interior de uma loja. O cão pequeno fica sozinho e continua a sua busca cada vez mais aflitiva até que eu lhe apareço à frente, e o chamo. Aproxima-se a medo e eu tenho medo que ele, assustado, fuja para o meio da estrada. Finalmente consigo pegar-lhe e levo-o ao colo. É uma cadela com olhos cor de esmeralda, certamente roubados ao mar. Pesa menos de quatro quilos e tem cinco meses. Dedico-me a tratá-la o resto da manhã. Agora dorme numa cama ao lado da outra cachorra. No espaço de um mês é o segundo atropelado que recolho.    

31.8.17

flebotomia

é capaz de haver uma ligação póstuma 
entre o aumento de flébotomos
e o número de corações desabitados

silêncio

em noites de meio luar
reina o mais perfeito silêncio

tu

alguém que me encanta
é alguém que eu desencanto

30.8.17

cantiga

A certa altura a voz ecoa pelos corredores e entra por onde lhe apetece, mas todos sabem a quem se dirige. Ela encolhe os ombros e cora ligeiramente quando ele se põe com aquela de amar pelos dois. Um dia também ela amou por dois, e durante demasiado tempo. Por isso sabe que não resulta. Mas ele é persistente, e, volta e meia, canta-lhe a mesma canção. Então ela aproveita para a ouvir com o sorriso indulgente de quem se perdoa.      

29.8.17

a visita eleitoral

Pela porta aberta entram o presidente e os acólitos: um bom fato distingue o presidente, que cumprimenta e se inteira do espaço, ao relance de um olhar. Os assessores distribuem-se em sorrisos empenhados no programa, iguais aos da fotografia de propaganda. Deve ser uma estopada, não fosse o deslumbre do poder. Todos se fingem muito interessados quando a senhora, que espera sentada com o cão ao colo, comenta que vai conseguir pagar as cirurgias das suas duas cadelas com o dinheiro da alfarroba que ela própria apanhou. Suponho que qualquer padre se encantaria por estes e outros nichos de mercado assim contados, durante a visita pascal.   

28.8.17

melão

Posto isto, a mulher sugeriu ao marido que abrisse a camisa rasgada pelas unhas do gato.
Apareceu um abdómen proeminente, que ela epitetou carinhosamente de melancia. 
- Dra, já agora, importa-se de fazer o curativo?  

dançar à chuva



Um dia, com uma orquestra muito jovem, começámos
a ensaiar *La Javanaise* e os músicos pararam de 
tocar. Pensei que havia algum problema e perguntei 
porque é que não tocavam. Explicaram-me que tinham
ficado muito emocionados. Muitos deles não tinham
mais de vinte anos, provavelmente só conheciam a 
minha biografia da Wikipédia e as músicas do YouTube.
(...)

27.8.17

dialética

Fiquei, sem querer, com os teus princípios elementares
de filosofia. Há muitos anos, quando ainda não sabíamos,
estava escrito o que ambos certamente lemos na página
187: Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa 
de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas uma 
simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas
vezes em ódio. Não foi o que aconteceu: ambos lemos o mesmo
livro, mas sublinhámos coisas diferentes. Nessa altura a
nenhum de nós pareceu relevante o destino de uma simpatia.  

24.8.17

a mulher, o cajado e o cão

Quase todos os crepúsculos passo por uma mulher de rosto oblongo, cabelo escuro, curto e encaracolado, pele tisnada. Seria talvez injusta se dissesse que usa sempre o mesmo vestido de flores escurecidas tal como usa o rosto sério, mas a mim, que sou míope, parece-me sempre tudo igual: o cajado bem seguro na mão direita, um cão negro, com duas pintas a avisar os olhos, à trela pela mão esquerda, o mesmo esforço na subida, a mesma persuasão como uma promessa, antes de anoitecer. Suponho até conseguir distinguir-lhe duas rugas simétricas de cada lado da boca, firmes como duas sentinelas, reprimindo-lhe qualquer sorriso. Saúdo-a com a mão direita fora do volante na descida aliviada, ao que ela retribui com um seco trejeito de supremacia.

23.8.17

valeria

Esperava em pé na esplanada vazia do café fechado, agarrada ao telemóvel. Vinha para uma entrevista de emprego. Percebi imediatamente que era ela. Não existia mais ninguém: calções pretos muito curtos, de bainhas desfiadas, top branco, sandálias, um enorme rabo-de-cavalo negro. Lamentei o facto de ser o dia de folga, mas ela pareceu-me bastante à-vontade, e sentámo-nos mesmo ali. Vencendo o impacto negativo do outfit, comecei por lhe perguntar que idade tinha. Trinta, disse-me, mas achei-a pouco convicta. Estou cá há seis anos, e eu comecei a fazer contas de cabeça, 24... Então, e tem o curso de veterinária... que sim, feito na Rússia, seis anos - mais contas - depois os estágios, mandaram-me para um matadouro, e tal. A Valéria trabalha na praça a vender peixe. Entro às seis e meia da manhã e saio às três da tarde, agora às quatro porque é Verão. E nunca pensou em exercer a sua profissão? Sim, mas querem experiência, eu não tenho. Pode começar por aprender, sendo auxiliar de consultório, e, depois, adquirindo prática, chegar a dar consultas. Nunca pensei nisso, é uma boa ideia. 

Agora os olhos de Valéria eram dois peixes de rio a rabear nas órbitas e toda ela me parecia escorregadia, plena de ácidos gordos Ómega-3, a derreterem, subitamente, chiando sobre um assador. Suponho que eu devia assemelhar-me a uma rede a subir em esforço o rio, ou a uma cana de pesca de qualidade duvidosa a aproximar-se de forma ameaçadora. Por isso não se interessou muito, nem lutou. Passado pouco tempo levantou-se, despediu-me estendendo umas unhas de gel azul turquesa, para o caso de eu não ter reparado, e partiu num Fiat como um sargo assustado, a favor da corrente.         

22.8.17

aterrador, meu caro Watson

IBM Watson, o supercomputador, traçou hoje o meu perfil em segundos, 
baseado no envio de um texto deste blogue, o que não passou de uma 
brincadeira do meu filho. Mas o certo é que falhou por pouco:

*You are skeptical, somewhat inconsiderate and can be perceived as compulsive.
You are independent: you have a strong desire to have time to yourself. You are philosophical: 
you are open to and intrigued by new ideas and love to explore them. And you are reserved: 
you are a private person and don't let many people in.
Your choices are driven by a desire for organization.
You are relatively unconcerned with both achieving success and independence.
You make decisions with little regard for how they show off your talents. 
And you welcome when others direct your activities for you.*

Eis o link:

21.8.17

brexit

Durante a tarde sou convidada para visitar o restaurante que abriu ao lado do consultório. Pergunto pelo empregado que costumo ver na esplanada com uma meia de cada cor e padrão, ténis e calções coloridos, três argolas no lóbulo da orelha esquerda, muito alto e com um inglês perfeito. É inglês? - interrogo, quando ele aparece. Britânico, corrige em português. E depois para provar - como dizia - que também era cidadão do mundo, levantou a t-shirt e exibiu um letreiro em arial XXL, tatuado a bold ao fundo das costas: MADE IN CHINA.

19.8.17

rascunho

Melrax # final scene

Em poucas semanas Melrax estava pronta. No entanto o meu temor por ela fez-me procurar-lhe uma antecâmara de liberdade, uma espécie de hall de saída. Talvez seja melhor eliminar certos factos, porque estou indecisa sobre a última cena: um pássaro indefeso é salvo, queremos todos que o mundo seja melhor, a nossa atitude tornou, sem dúvida, melhor o mundo. Portanto: FIM. 

Ou não. Consegui por intermédio do meu amigo que Melrax passasse da gaiola para um espaço muito maior, onde poderia preparar melhor as asas para voar em liberdade. Pedi-lho por uma semana. O espaço, uma jaula ao ar livre e só para ela, tinha o tamanho de um quarto com paredes de rede. Transportei-a dentro da gaiola, que cobri com um pano, para que não se assustasse. Já no interior da outra abri devagar a portinhola, e esperei. Primeiro ficou imóvel, parecendo resignada ao cativeiro, até que subitamente voou certeira como um projéctil, desaparecendo dentro da pequena abertura circular de uma caixa ninho que estava pendurada na única parede de betão. Acto contínuo saiu de lá um exame de vespas, como numa cena de desenhos animados. Tapei a cara com as mãos e quis desaparecer dali para fora. Era azar a mais. Mas, mal tinha começado a virar costas vejo-a de volta, a sair ilesa como um ricochete e a pendurar-se na rede, exibindo a vitória.  

Melrax foi libertada uma semana depois, como combinado, não sem antes lhe ter sido atribuído o homicídio de outro melro mais pequeno, salvo como ela, e que vivia provisoriamente na jaula ao lado. Quanto a nós, mudámos de casa mais uma vez e fomos felizes, até que certo dia eu fiquei, e tu também voaste. 
      

18.8.17

canção de voar



take this broken wings and learn to fly

Melrax # 5

- Então o melrax, ainda é vivo? Foi assim que lhe chegou o nome, dois dias depois de eu ter entrado sorrateiramente em casa, directo à cozinha com um pássaro escondido no fundo de um saco de papel pardo, para tratar de tudo antes de fazer a surpresa ao meu filho.

Nessa altura vivíamos felizes numa espécie de redoma, tal como o pássaro cuja gaiola não significava ainda prisão, mas protecção. Eu também construíra em nossa defesa uma casa envidraçada sobre os jardins das traseiras de Lisboa, que comunicavam uns com os outros de madrugada através do voo e do canto intenso dos pássaros. Pela janela da cozinha, sempre aberta, entrara e instalara-se um ramo florido de casuarina que salpicava de amarelo a bancada, onde fora colocada a gaiola artesal suficientemente grande para conseguir albergar primeiros voos. Várias vezes suspeitei que a mélroa-mãe vinha pousar num plátano próximo para ficar a observar a cria, visto estarmos em linha recta relativamente perto da tília onde fizera o ninho. Conta-se que quando os vêem enclausurados lhes trazem bagas tóxicas para os envenenarem. Por ter ouvido isso eu nunca ficava muito tranquila quando via melros nas proximidades, mesmo não tendo qualquer certeza sobre a veracidade do facto.

Fazíamos turnos para o podermos alimentar ao longo do dia, consoante os nossos horários: primeiro eu, depois tu, depois eu, depois tu, depois eu. Aceitaste bem a obrigação, mas era eu que limpava a gaiola, como fora estipulado. Divertias-te a dar-lhe de comer, a observar-lhe as novas penas finamente matizadas que a cobriam de castanho, e que começavam a indicar tratar-se de uma fêmea. Entretinhas-te a fazê-la abrir o bico, aproximando um dedo esticado através das grades, para testares se tinha fome. Uma vez demos-lhe esparguete, porque ela o confundiu com uma minhoca e se atirou a ele com voracidade; e acabámos o jantar à gargalhada. 

Sim, Melrax estava viva, crescida, a tornar-se uma bela ave. Atrevo-me a dizer que tu também.

(continua)

17.8.17

melrax # 4

tão feiinho, como é que o vou apresentar ao meu filho

(ainda) Melrax # 3

Claro que o melro é um sobrevivente, pensava eu, ao vê-lo engolir comida para gato sem a menor relutância. Afinal não é ele, como diz Kundera, que há séculos vem desistindo de viver no campo para conquistar as principais cidades da Europa? Não o recrimino, se o campo é, tantas vezes ainda hoje, uma saraivada de chumbos. E Melrax, o olisipógrafo, também conquistou Lisboa.

(continua)

(continuo) Melrax # 2

A história podia ficar assim, mas eu gosto de coscuvilhar nela, por isso vou dizer que ao ultrapassar a porta da clínica, com um passarinho aconchegado na mão, senti a frescura extraordinária de uma árvore frondosa, e fiquei com uma certeza: ia salvá-lo. Fui imediatamente rodeada pelas auxiliares, olhem o que trago aqui, e telefonei a um amigo para perguntar o que podia dar-lhe como alimento, pois sabia que era insectívoro. - Para já, comida de gato - foi a resposta -, depois procura uma mistura para insectívoros que há à venda nas lojas de animais, e faz uma papa com água morna. Agradeci e desliguei, radiante. O problema estava resolvido para aquele momento: foi só abrir uma lata para gatinhos e acreditar que ele abriria o bico. Foi o que fez, mal aproximei a seringa com a pasta, demonstrando enorme vontade de viver. 

(continua)  

16.8.17

Melrax

Enquanto percorria a pé o jardim da avenida para o trabalho de todos os dias, percebi que, ainda longe de mim, um homem se afadigava para colocar qualquer coisa em cima do tronco alto de uma tília. A coisa caía, teimosa, e ele com muita paciência voltava a pô-la repetidamente no mesmo galho. Após uma última tentativa, já à vista do número do seu autocarro, subitamente correu para a paragem, largando a coisa, que voltou a cair. Fiquei a ver o autocarro partir a toda a velocidade, com um certo alívio confesso por poder resgatar o que suspeitara ser um passarinho. Terá ele olhado para trás? Ter-me-á visto a aproximar da coisa, que ele sabia ser um melro (e que eu ainda não), e terá suspirado de desalento por ma entregar assim, com uns minutos de atraso? O certo é que me esqueci rapidamente do benemérito para olhar para o topo da árvore, onde a progenitora se esforçava por chamar a atenção em esvoaçares e piares, aflita junto ao ninho, e só então realizei que, o que o meu antecessor tentara, era de todo impossível de consertar. Peguei no passarinho quase sem penas e dirigi-me para a clínica onde trabalhava, para lhe dar a primeira consulta. Há alguns anos salvei um melro, numa tarde bonita de Primavera. 

(continua)

14.8.17

Posted by Cioran

Houve um tempo em que, de cada vez que sofria uma afronta, 
para afastar de mim qualquer veleidade de vingança, me 
imaginava muito tranquilo no meu túmulo. E acalmava-me 
imediatamente. Não desprezemos demasiado o nosso 
cadáver: ele pode ajudar-nos em certas ocasiões.

eutanasiar uma galinha

São mulheres grandes, mãe e filha, a mãe magra a filha corpulenta. Dizem bom-dia em português delicado, sorrindo e falando baixo, mas explicam-se em inglês, tomando a filha a iniciativa, com o acordo da mãe. A pergunta é se podemos eutanasiar uma galinha. Ela ainda come e bebe água, mas já não tem qualidade de vida, é muito velha e tem um tumor enorme, e faz o desenho do papo com a mão, para eu perceber onde é. Eu respondo-lhe que não sou especialista em aves, que ocasionalmente trato pássaros, que talvez seja melhor procurar um veterinário de exóticos para o efeito. Ela continua, justificando-se, que gosta muito daquela galinha, que não quer vê-la sofrer mais, que ela costumava subir-lhe para o colo para que lhe fizesse festas, que vieram ali por ser mais perto, que talvez fosse possível ali. Eu digo-lhe que não é impossível, que percebo que alguém se afeiçoe a uma galinha, é uma ave como outra qualquer, porque não, e lembro-me de O Livro das Igrejas Abandonadas, em que há uma galinha que vai esperar a dona e a acompanha à igreja enquanto ela reza, e parece-me que estou a vê-la agora: castanha, comum, de crista murcha e sem conseguir andar, pele e osso, moribunda. Eu sei que aqui ninguém faz isso, prossegue a filha, demonstrando ter consciência do ridículo do pedido, enquanto eu a vejo já a atravessar a porta, na data marcada, com a galinha de estimação debaixo do braço, eu a recebê-la contrafeita, mas sem mostrar, porque tirar a vida é uma coisa tramada e tão triste. Aqui, continua ela, o meu vizinho já me disse que lhes torcem o pescoço, que se eu precisar lhe faz isso, e ela morre logo.