Atalhos de Campo


22.4.17

a beata

Descubro duas beatas junto ao degrau do meu pátio. Depois uma terceira. São beatas recentes, de ontem ou anteontem. Leio a marca escrita em itálico junto ao filtro, mas não a fixo. Sinto um ligeiro mal-estar com o facto de alguém aproveitar a minha ausência para fumar, sentado junto à entrada da minha casa, e ainda por cima sobre a floreira dos amores-perfeitos, que encontro bastante amachucados. Pergunto-me que desculpa dará se por qualquer motivo der de caras comigo, ou se andará a estudar-me os movimentos, e por cálculo de probabilidades souber, com pouca margem de erro, que a hipótese de isso acontecer é muito remota, acendendo calmamente outro cigarro. Ao apanhar as beatas do chão tenho a sensação estranha de que se trata de uma mulher. Há homens assim, descarados, mas andam mais ocupados. Será portanto uma mulher que se senta aqui quando eu não estou, a contemplar o meu jardim, enquanto fuma. Sinto-me até lisonjeada, mas só por breves instantes. Sim, porque nunca vi ninguém. Só as beatas acintosas provam que aqui esteve alguém. Pode ser a mulher que já vi por estes lados, a pedir. Mas, se for ela, usará o dinheiro para comprar cigarros. Afasto essa ideia da cabeça: a mulher é fumadora, mas contemplativa. Vem aqui porque gosta de ver o jardim, enquanto fuma. No entanto amanhã vou buscar uma beata daquelas e vou guardá-la com uma etiqueta. Nunca se sabe.        

três minutos de silêncio

21.4.17

ensaio

cairia muito bem dizer que ainda tenho os olhos cegos sobre ti,
mas não:
já abri os olhos sobre mim.

profissional

O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não
largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O
que faço aqui no campo declamando aos metros versos
longos e sentidos? Ah que estou sentida e portuguesa, e
agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.

Ana Cristina Cesar/A teus pés

cativeira

A doutora aqui é uma cativeira, disse-me certa tarde, pousando 
o ferro de engomar para enfrentar o meu ar cansado e triste, 
quando lhe comuniquei que me ia embora. Olhei-a com assombro. 
Aquela mulher, que sempre me parecera ignorante, acabava de 
resumir a uma frase toda a minha deplorável condição.   

20.4.17

olhai os lírios com fúria



Abril ainda não morreu
O sol ainda não doeu

sem parquímetro


































Garrano estacionado numa aldeia portuguesa
Algarve, Séc. XXI


measles

Aconteceu há muitos anos, no tempo em que os pais com vários filhos juntavam as crianças, mal uma delas adoecia, para que todos fossem tratados simultaneamente. Assim todos tivemos sarampo, varicela, e outras doenças. Quando algum de nós aparecia com febre, em vez de ser posto em isolamento, era precisamente estimulado a permanecer junto dos irmãos, para que houvesse sincronia na doença e abreviamento do período de tratamento. Felizmente nunca correu mal, isto é, ficámos sempre todos doentes, e foi assim que o meu irmão mais novo contraiu sarampo ainda no berço. Só bem mais tarde vim a saber que o vírus da esgana, doença infecto-contagiosa do cão, é da mesma família que o vírus do sarampo, e que no cão, uma vez contraída, a doença mata ninhadas inteiras. Sintomas ligeiros de rinite evoluem para pneumonia seguida de gastro-enterite. Por fim uma encefalite origina paralisias, convulsões, e morte ou sequelas graves nos poucos sobreviventes. Portanto, no cão, é urgente vacinar para reduzir drasticamente o desfecho quase sempre fatal da doença. Hoje em dia é raro aparecer um caso de esgana por causa da vacinação maciça dos cachorros, e do cuidado na sua revacinação. 

Foi precisamente num desses períodos de cura que certa vez que os meus pais foram ao cinema nos deixaram entregues a alguém que veio tomar conta de nós e levou companhia, uma mãe e uma filha, ou talvez uma tia e uma sobrinha. O certo é que, quem quer que fosse, ia munida de uns livrinhos de histórias para crianças que ia contando a pedido. Mas as histórias nada tinham de encantar, eram antes povoadas por criaturas que elas resolveram a certa altura encarnar, rugindo e apagando as luzes para nos caçarem às escuras, bruxas vivas e lobisomens, monstros à solta pelos quartos, gritos de pavor, sofrimentos e várias mortes, pedidos implorativos para acabarem com aquela, que contassem outra, mas a seguinte era ainda pior. Ficámos petrificados, cansados. O teatro acabou muito antes de os meus pais chegarem a casa. Tudo estava aparentemente normal e nós dormíamos, exaustos e olheirentos, quando eles apareceram. Mas ainda hoje me lembro do ambiente de terror que vivemos, e do que nunca mais foi igual.

19.4.17

uma história de fadas

Mulher-Cão * Paula Rego
1994



























Quando apareceu a Mulher-Cão foi um grande dia na minha vida, posso assegurá-lo.
Paula Rego

Paula Rego/John McEwen 

15.4.17

sepulcral silêncio

(...)
Cruz, rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro. Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega. Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trespassado de sede. Árvore
Que bebe do homem. Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva. Verbo
Tão inteiro que se fez espelho.

Daniel Faria/Zaqueu

as últimas sete palavras

enigmática

a rosa branca perfuma-se de amarelo

12.4.17

Amarante

É macio como um antigo tapete persa. Enfio a mão com dificuldade pela rede de malha larga que nos separa, enquanto ele espera e se encosta mais, o mais possível, ao ouvir que é bonito. Amarante é um cão grande, um pointer maravilhoso, que troca todos os dias de lugar com as galinhas, senão já não havia galinhas, nem galo. É solto de noite para guardar o quintal, enquanto elas recolhem e se aninham para dormir, empoleiradas no limoeiro. Amarante leva a sério essa nova função, esse posto de guarda-nocturno que lhe deram quando a caça para ele terminou, com a morte do dono. Quer justificar a sua habilitação como cão de trabalho, precisa de sentir que consegue ganhar honradamente a magra ração que come e que o deixa magro. Por isso aceita a tarefa com humildade, correndo em volta do terreno, atirando-se à rede com convicção, surgindo de surpresa do meio dos arbustos que escondem a estrada, empertigando-se e engrossando a voz. Mas às vezes uiva, infeliz, num longo lamento como um fado triste. Sinto-lhe as orelhas cada vez mais grossas de carraças, adivinho o perigo dos fins de tarde pegajosos de insectos, sei que Amarante desconhece esses perigos que vão matando aos poucos, porque agora ainda corre alegremente, esticando a cauda de vime para açoitar com veemência o mau presságio do lusco-fusco. Um dia os seus olhos esmorecerão, levantar-se-á com o sacrifício da febre, e o veterinário dirá que foi tarde demais. Olho para ele e nem sei se é Amarante, o cão que corria num jardim da minha infância, porque em todos os jardins abandonados vive um cão fiel.           

7.4.17

o remédio

Doctor, you are a dog savior!- disse, ao abandonar o consultório.
Nunca recebi um elogio tão exagerado por tão pouco, mas também nunca 
me senti tão feliz por ter, fora de horas, uma única embalagem do 
que alguém necessitava desesperadamente. 

6.4.17

amor pela correspondência

fantasio sobre aquele casal muito jovem que gere o pequeno posto dos correios da vila: ela, morena e sardenta, rosto comprido e sorriso branco a aparecer por entre o cabelo escuro e teimoso, escondida atrás de uma secretária-balcão no meio de invólucros manuscritos, manuseando carimbos, pacotes e encomendas, separando e despachando, controlando a enorme parede postal da entrada, feita em tijolo de segredos sobrepostos e bem fechados à chave; ele, que eu nunca vi, mas que pressinto quando pára à minha porta e se inclina para a caixa do correio, que segue num arranque rápido e estridente dobrado sobre a motorizada caminho fora por entre quintas e courelas, a derrapar nas estradas poeirentas de sol, ou de chuva e de vento protegendo o peito magro, ele que salta para abrir a mala postal, para distribuir, para decifrar e para entregar na mão certa que volta as costas e assina, ele já ansioso pelo regresso, exausto e vazio como uma carta de amor lida dezenas de vezes, quando finalmente volta em segurança ao longo e silencioso abraço do seu envelope 

4.4.17

dias de guerra

vi hoje a espantosa imagem de uma mulher velha e tisnada pelo sol,
de lenço na cabeça, saia comprida e avental, a transportar lentamente, 
estrada fora, uma bilha de gás num carro de bebé 

2.4.17

Anjo

Por esta hora, cedo para um Domingo, a minha irmã ainda não dormiu. Durante toda a noite vigiou a temperatura daquele filhoesculpido em barro com as próprias mãos. Eu chamo-lhe anjo. Embora não lhe encontre asas sei que ela fez um anjo, um anjo de terra, moldado para que os homens possam vê-la no lugar do coração, através dos braços postos, as mãos juntas colocadas sobre a ausência de corpo. E agora esse anjo, esse projecto arrojado de um filho, está deitado no forno, não um forno crematório mas um ventre de temperaturas altíssimas, como é o interior da terra. Uma gestação vigilante sem hipótese para distracções, a espera ansiosa pelo arrefecimento certo, que pode durar mais do que um dia para que o barro não abra fissuras - como a superfície do solo - durante a passagem para este mundo. E depois, depois a surpresa à abertura do forno já frio, que pode ser de assombro ou de sobressalto. O nascimento de um anjo assim, será sempre um triunfo da humanidade.  

27.3.17

guarida

Enrolei bem o cacto em grossos tapetes de tear, depois peguei nas pontas e, evitando tocar nos picos, puxei. As raízes já estavam bastante soltas pelo trabalho anterior de tirar toda a terra em volta, e não foi difícil arrastá-lo do velho vaso até ao buraco fundo que havia preparado para ele. Compactei a terra em torno, reguei, e deixei-o a lutar pela vida naquele local, protegido por dois muros em ângulo recto. Depois fiquei com a missão espinhosa de salvar três tapetes cravejados de picos. 

Comecei a vigiar o cacto amiúde, a espreitar-lhe os ressentimentos, as feridas (poucas), a mimá-lo com boa terra, que lhe aconchegava ao redor como uma gola alta, a ministrar-lhe adubos. E foi nessa altura que reparei em algo semelhante a uma pequena palha, que talvez tivesse ficado ali sequestrada entre aqueles aguilhões compridos, mas que parecia mover-se entre eles com vontade própria contrariando o vento, e, ao invés, os usava como protecção. Observando com mais atenção vi que era um insecto, ou melhor, uma miniatura de guerreiro-insecto, que me olhava fixamente enquanto se movia oscilando as longas patas, e que juntava as pinças em oração, não para implorar que não lhe fizesse mal, muito pelo contrário, era um louva-a-deus corajoso, um cruzado. Talvez já lá vivesse antes, e se tivesse conseguido equilibrar, também, durante aquele transplante inusitado, ou ali se refugiasse depois, isso nunca saberei.  

O cacto sofreu um pouco com a mudança em pleno Inverno, mas agora recupera a olhos vistos, e o seu único hóspede lá se mantém, apesar da chuva, do vento e do frio. Presumo que se agarra como eu aos espinhos e que é assim que se consegue salvar. Hoje fui vê-lo de propósito, logo de manhã cedo. Olhou-me, acredito, com a mesma admiração que eu lhe tenho. Estava vivo. Ainda bem.    

Empusa pennata






















granizo

(...)
E granizo enorme, com o peso de um talento, caiu do céu sobre as pessoas; 
e as pessoas blasfemaram [contra] Deus devido à praga do granizo, 
porque a sua praga era mesmo enorme.
Apocalipse 16:21
nota:«um talento»: sensivelmente 45 kg.

BíbliaVolume II
Tradução por Frederico Lourenço
Quetzal 

25.3.17

parceria

Callas, a leitura do Apocalipse

à lareira (2)

pequenas achas ardem sozinhas

fava beans in wonderland

Pesa as favas acrescentando que as costuma descascar enquanto vê televisão, que não é capaz de estar ali sentada sem trabalhar. Admito que para mim vai ser mais difícil porque não vejo televisão, mas quando chego a casa lembro-me que o jardim é o melhor ecrã.  

aviso de recepção

Um blogue pode não terminar por uma eventualidade. Entrei na mercearia onde sou cliente, mas desta vez para perguntar onde era o correio. Aqui, apontou a proprietária em direcção à porta, sorrindo. Não me lembrava de ter visto nenhum posto dos correios nessa rua, culpei-me por distracção, saí, olhei, percorri o passeio, nada. Voltei atrás e entrei de novo, com ar interrogativo.  Aqui, aqui, apontou a simpática senhora para o lado de dentro. O correio é dentro da mercearia. E foi essa a única razão por que este blogue não acabou. 

a senhora do shopping

- Olá, tu aqui!! Há que tempos que não te via...

Com certeza era engano. Eu não conhecia aquela senhora de - há que tempos - mas, curiosamente, à medida que a nossa distância diminuía no tempo e focava os seus olhos de azul comedido nos meus, mais tinha a certeza de que ela poderia muito bem ter razão, já nos havíamos conhecido.

- Ah, desculpe - continuou, verificando a minha estranheza - confundi-a com uma amiga minha, é tal e qual, (mas eu também vejo mal); só agora reparei que ela tem o cabelo mais escuro, até ia comentar, agora és loura, mas noto que está bronzeada e o cabelo...

- ... eu também vejo mal e até me pareceu de longe que de facto me poderia conhecer, tentei recordar-me de onde, mas sendo assim, uma vez que admite que não me conhece, então muito prazer, eu também acho que estou com o cabelo mais claro e a pele mais escura, é de apanhar sol, a jardinar...

- jardinar faz bem, mexer na terra... - e olhava para as minhas compras, enchidos, bifes, um ferro de engomar, um saco de pinhas, uma alface pindérica, lá para o fim.

- concordo consigo, alivia o stress... - logo eu que tivera um ataque carnívoro hoje, e reparava nos collants de delicadas flores azuis que lhe trepavam pelas pernas finas como hastes e se escondiam numa saia comprida de lã, para reaparecerem em frutos da terra que ela colocava suavemente sobre o tapete rolante. Tudo nela era coerência, o azul escuro dos sapatos picotados, de camurça, a magreza ocultada por panos leves e quentes sobrepostos, o cabelo curto cortado a rigor, quase branco, deixando sobre a nuca uma faixa propositadamente mais escura, a sugerir outrora.

Durante o pagamento ouvi-a dizer ao empregado:
- As tostas, estas tostas, que eu escolhi com tanto cuidado, são muito frágeis, qualquer pequeno toque, por mais ligeiro que seja, as desfaz em migalhas...
E ele, sentindo-se criticado:
- Alguns colegas meus atiram com as compras, eu costumo pousá-las...

Com um ligeiro desconforto percebi que os olhos sensíveis da minha conhecida desmaiaram na farinheira que ora deslizava descontraidamente em direcção à caixa, antes de corresponder com simpatia ao seu aceno de despedida.

21.3.17

em resposta a um pedido

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta 
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus e degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade/ Lisboa
Coração do dia 




até à vista

20.3.17

altruísmo

sabes, um dia supus que te podia oferecer a primavera
mas o tempo fez-me descobrir que era impossível
porque a fazia regressar todos os anos.
espantei-me, insisti, lutei por isso tantos invernos... 
até que a primavera ganhou,
agora é minha.

pereira

































renascer sem data

(...)
Que a notícia circule entre os amolgados e feridos que somos todos; chegue aos que tentaram e falharam, aos sobrecarregados, aos que começaram a dizer que já é tarde; corra entre os que viram o fogo a tornar-se cinza e não voltar a acender-se, os que semearam e não colheram, os que olham assustados as mãos vazias; visite os desiludidos, os encarcerados nos seus desgostos, os enlutados, os perseguidos por aflições maiores do que as que podem suportar; resgate os que se perderam nos corredores longos e todos iguais dos seus invernos, os que sem saber como viram-se a pensar que a vida já não é para eles, os que caminham pelo tempo desolados e sós.

José Tolentino Mendonça (Expresso Revista 11/3/2017)

haja flores


































































































































































































































18.3.17

robaletes

Maria tomou em suas mãos o último peixe que Simão lhe estendeu. Já em casa, Maria lembrou-se, contrariada, que haveria de amanhar os três peixes. Quando os foi buscar à mesa da entrada, onde os pousara, encontrou-os cercados por três gatos, que estacaram por segundos, antes de fugirem com o olhar assustado. Maria levou os peixes para dentro, calçou as luvas de cozinha, lavou-os, e, escolhendo o maior, aconchegou-o em sua mão esquerda, tomando-lhe a beleza. Pegou então na tesoura para o abrir ao longo da linha do abdómen, aproveitando o orifício natural. Maria procurou o fígado e puxou devagar, arrastando para o exterior todo o conteúdo da cavidade lisa. Fez o mesmo com as guelras, segurando-as com firmeza debaixo dos opérculos, e começou a escamar o peixe sob a água corrente. O odor era intenso, como se houvesse uma adrenalina post mortem que continuasse a libertar-se durante toda a operação, até a pele nua lhe surgir a brilhar, e os finos vestígios de sangue que lhe corriam por entre os dedos desaparecerem. Colocou-o, já limpo, no prato: só então se deteve nos maxilares, que haviam congelado a última inspiração aflitiva, e nos olhos onde ficara gelificada uma ínfima porção de céu.      

14.3.17

dica sentimental

Per una migliore riuscita, tenere la busta di sementi 
in frigorifero per 15 giorni prima di seminare.

(transcrito da bula da verbena)

12.3.17

o milagre dos peixes e dos pães

eles passam na estrada e buzinam quando param.
abrem ambos as portas traseiras das furgonetas brancas:
Simão distribui peixes frescos; Bartolomeu, pão quente.
todas as quintas e sábados.

11.3.17

javardo

A desmancha ocorria com algazarra sobre uma mesa de carpinteiro, colocada à entrada do armazém de revenda. Eu só venho buscar daquele substrato para plantas, disse, voltando a cara, horrorizada. Os homens riam-se, em volta do cadáver. Um deles segurava os membros posteriores, esticando-os, enquanto outro esquartejava e rachava os ossos como se fossem lenha. Ali, a céu aberto, na adrenalina da matança, o coração do porco vertera sangue sobre o pavimento, mas os homens assistiam, eufóricos, à própria autópsia.  

9.3.17

Cassius

Kacio, escrevera o homem pálido sobre um pedaço de papel, que guardei na oficina. Mas Kacio era antes Acácio, corrigido pelo próprio ao telefone, com dicção estranha. Acácio chegou à hora combinada para montar o roupeiro. Trazia as ferramentas num balde de tinta reciclado, que oscilava ao seu ritmo sobre os barrotes do caminho. As perguntas que Kacio me fazia saltavam-lhe dos olhos negros como pássaros escuros. Acácio é um nome bem português, disse-lhe, enquanto Cássio travava um combate sério com as medidas. 

1.3.17

cinzas

Para voltar para casa escolho as estradas secundárias que se encaracolam pelo meio da serra. Embora percorra mais quilómetros, faço-o porque sei que a partir de certa altura tenho noventa e nove por cento de hipótese de não me cruzar com ninguém. Ligo os máximos sempre que o carro mergulha profundamente na escuridão. Ao atravessar a vila passo pela florista local, ainda de porta aberta e luz acesa. Trabalha, debruçada sobre uma coroa de flores.   

carnem levare

não me mascaro porque sou

23.2.17

chuva vertical

dizem que afinal existem 
não sei quantas Terras
talvez por isso, tenha chovido lama

14.2.17

Talha dourada

Marie Brizard

Estaciono à beira da estrada, junto ao ecoponto. Ouço o som do vidro a partir-se no frio, empurro com força o saco de plástico vazio das pinhas, repleto de polietilenos. Irrito-me por não me ter lembrado do lixo orgânico, era só atravessar a estrada, que atravesso, em direcção aos outros contentores, antes de entrar na espécie de saloon com pastéis de nata, cafés, e coisas que não uso, como raspadinhas. As raparigas rebolam-se diante dos homens enquanto lhes servem shots que matam a manhã. Embora Angel não condiga com isto, pergunto à mulher jovem se sabe de alguém que me possa mudar as fechaduras. Ela escreve em números redondos um nome em um papel, e, diligente, telefona ao carcereiro. Olho em frente para o espelho que trespassa o vidro das prateleiras. Mais alto, os meus olhos pousam numa garrafa de Marie Brizard. A garrafa é tal e qual a lembrança do meu avô: transparente, com uma braçadeira azul. Bebo o último golo de café, acabo de comer o pastel de nata, e, ao sair, inspiro aquele velho anis adormecido, na minha nova liberdade. 

3.2.17

B I ?

- Sorry... ?
- Business Intelligence.

bilhete de identidade

- Vitalício?
- Não, eutanásico.

banho de água fria

nunca estive em lado nenhum.
por isso hoje, quando o esquentador não funcionou
peguei no meu sabão de pedra
e tomei banho de água gelada
como se não estivesse lá.

30.1.17

enxada

antes uma mão enchada
que uma inxada na mão, (h)ouve-se.

E o príncipe encantado é...

... e nunca mais te esqueças que o príncipe encantado és tu.

Obrigada.

a pedra é de quem a trabalha

lembro-me de ter fixado esta ideia, mas não me lembro do autor:
dai a alguém uma pedra e ele a transformará num jardim; 
alugai a alguém um jardim, e ele o transformará numa pedra.

hoje peguei a sério numa enxada(pela segunda vez), e encontrei dezenas de pedras 

28.1.17

planos para a Primavera # 1

frésias - 120
anémonas - 40
ranúnculos - 40
gladíolos - 24
lírios - 20

IEFP

Quase hora do almoço. Entrei, pela porta muito usada. Tinha duas pessoas à minha frente, como sugeria a senha para a inscrição que acabara de tirar. No total havia quatro pessoas na sala de espera: um cigano já velho, todo vestido de negro, com um chapéu de abas largas da mesma cor, um homem relativamente jovem com ar de desempregado, um velho com idade para ser bisavô, um outro homem, também de chapéu, mas castanho, barba clara e aparada, que aguardava ironicamente a sua vez. Reparei que a determinada altura resolveu cravar os olhos em mim, com interesse de pintor. Era Van Gogh. Van Gogh estava ali por não ter emprego, tal como eu. Uma família de ciganos, ao sair ruidosamente de um dos gabinetes, fez estremecer a apatia de quem não cumpre horários: primeiro o pai, jovem esbragalado trazendo pela mão um rapazito de olhos pardos que logo lhe fugiu; seguidamente a mãe cigana, protestando qualquer coisa em romeno, puxava por uma garota linda e suja e continuava a dar de mamar ao mais novo, enganchado à cintura. Uma espécie de luz divina iluminava-lhe o peito redondo e dourado, proeminente apesar da cifose, que o mais novo expunha com despudor, ao encostar docemente a cabeça. A jovem mãe dirigira-se apressadamente ao canto da sala onde deixara o carrinho de bebé, ralhando alto e virando-se para a assistência como se esperasse aprovação, enquanto o marido se escapava pela porta muito usada. Ao saírem todos, fez-se uma espécie de silêncio de conversas das empregadas do instituto, todas gordas e sorridentes entre elas, entretidas com os computadores, até que o pequeno cigano voltou a entrar e atravessou a sala em diagonal com uma caneta na mão, que entregou no balcão como um herói. 

23.1.17

as aves

voltam de quilhas estreitas
e dedos com grossos anéis
quando outras esperam perfeitas
sobre insolúveis cordéis

12.1.17

kartódromo

Ontem de manhã fui ter com o João ao kartódromo. O meu irmão levantou os olhos de uma das marquesas onde estava a operar um kart e disse-me, indicando as carrocerias coloridas que esperavam vez, imóveis sobre as mesas que ocupavam toda a oficina: é com isto que os putos treinam para a fórmula 1. Assim a descoberto, o chassi parecia a feia arcada dentária de um peixe, com estranhos implantes lubrificados. O meu irmão pegava numa pinça e afinava meticulosamente qualquer coisa no motor em ponto morto. Achei que afinal o que ele fazia era muito parecido com o que eu também já fizera, mas com uma vantagem: os motores não sangram.

9.1.17

ode louca

- Vou dizer-lhe já uma coisa, a casa não tem casa de banho, nem cozinha...
- Como assim? 
- Tem de sair de casa para usar o lavabo, que é no exterior. A cozinha é ao lado.
- Então tenho de sair a meio da noite para usar a casa de banho, e no caso de chover devo também levar um guarda-chuva...
- Pois...
- Ah! Assim sendo digo-lhe já que não, a não ser que haja alguma hipótese de fazer uma porta para dentro de casa, tanto num caso como no outro.
- Isso há, pode-se fazer... lá para a Primavera.
- Mas essa obra é no interior, porque não fazê-la já? 
- Agora não me dá jeito, entende, questões financeiras. Mas porque não vem ver a casa? Fica num alto, tem um grande terreno em volta, um pomar de laranjeiras, garagem... fica perto da ribeira, que é de água salgada, não sei se sabe, e até há estrangeiros que param para tirar fotografias às cegonhas. Caso venha, primeiro tenho de lhe fazer uma limpeza, embora esteja a mostrá-la assim a toda a gente. O inquilino anterior deixou tudo sujo e ainda cá estão os móveis de um amigo dele.

A casa era inqualificável. Ficava realmente no alto de uma colina, perto da estrada. A garagem, uma barraca rematada com chapa e madeira, de chão enegrecido pelas fogueiras; a cozinha não usava chaminé, nem janela, e tinha o tecto bolorento a escassos centímetros da minha cabeça. Chovia no quarto principal. A instalação eléctrica, um ensarilhado de fios. Uma divisão independente, cheia de tralha, fora fechada à força por uma porta apodrecida. Numa outra divisão, com a parede exterior em muito mau estado, uma tábua curvada pelo peso do telhado impedia a porta de abrir. Era aqui que o brasileiro guardava o cavalo, vim dar com isto cheio de pão. Só ela é que trabalhava, ele vivia à espera de uma indemnização que demorou dois anos a chegar. Uma explorada, dois filhos, dois empregos para sustentar a família. 

Mas havia também coisas boas. O chão era antigo e lindo, o tecto da pequena casa principal, com barrotes à vista, estava forrado a cana, as portas interiores em madeira maciça, pintadas de cinzento, as portadas das janelas mantinham-se bem fechadas por velhas ferragens. À saída reparei em dois cavalos de balanço, que jaziam abandonados no pátio, e num carrinho de bebé que ficara aprisionado entre as ervas crescidas. Junto ao depósito da água, a magra romãzeira exibia com despudor restos de frutos ulcerados pelos pássaros. Saí de lá desolada pela impossibilidade de salvar aquela casa onde uma criança inocente deixara um baloiço, e a infância suspensa no frio de Portugal.     

progresso

o grito das gaivotas que voam entre os prédios
é sinal de tranquilidade no mar