Atalhos de Campo


26.6.17

What's up, doc?



Pela primeira vez não apareceram frases sem importância seguidas de emojis e smiles, e outros caracteres. Pela primeira vez não se seguiram risos ou sorrisos, ou respostas curtas, ou ausência de resposta. Pela primeira vez não senti aquele irritante frenesim à espera de nada que não seja ser dedilhar desocupado. Pela primeira vez, depois do aviso, enfrentei uma sequência de folhas brancas onde li vigilante o nervosismo trémulo das palavras sublinhadas, os valores alterados, o longo silêncio do medo de uma arma apontada ao coração e aos pulmões. E, grata pelo outro lado da tecnologia, telefonei-te.

23.6.17

de viva voz

Certa vez um amigo meu disse uma coisa tocante sobre a mãe: tenho tanta pena, mas já não me lembro da sua voz, e isso foi de todas as coisas dela a que mais me custou perder. Também eu, anos mais tarde, hoje mesmo, precisava de não ter perdido a voz do meu pai. Muitas vezes a teria ouvido, se aquela mensagem deixada num dia em que não pude atender, ficasse gravada por tempo indeterminado. 

21.6.17

Hão-de ver

Este ano a velha pereira enfeitou-se com muitas flores. Depois, parecendo envergonhada e algo ridícula cobriu-se de folhas e, por função, de pequenos, verdes, e abundantes, frutos. E se as regas e adubações a estimularam, a limpeza melhorou-lhe a auto-estima, devolvendo-lhe uma encantadora copa de primavera rejuvenescida, a ocultar aqui e ali indícios de calvície. Claro que o facto acentuou o contraste com o tronco muito rugoso e retorcido e a secura de alguns ramos, mas trouxe esta árvore extraordinária de volta ao jardim, transformando-a numa espécie de relíquia decorativa. Hoje vinha a vê-la de longe e a notar-lhe como se quebra perante mais um Verão, como não consegue disfarçar a idade, como os frutos prematuros, que foram amadurecendo, apodreceram sem crescer. Viver o Verão no inverno não deve ser nada fácil.

regresso

volto devagar
às coisas que eram minhas:
uma fotografia
uma rosa
um carrinho de linhas

20.6.17

no regresso a casa

Ao chegar à povoação, já perto da hora do jantar, deparo com uma novidade: para além dos habituais homens sentados à porta dos cafés a beber cerveja, vejo também grupos de mulheres, mas em conjuntos separados. Encostadas aos muros e nos bancos em frente às casas, sempre em número de três ou mais, encontro-as a conversar ao ar fresco do princípio da noite. Suponho que não se trata de uma sublevação de mulheres porque me parecem bastante serenas. O que suspeito é que por estes dias as mulheres, no seu pragmatismo incomparável, sentiram boas razões para desligarem os aparelhos de televisão e atrasarem o jantar.

onde



(...)

Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?

António Ramos Rosa / Ciclo do Cavalo

três rosas


lacunar

Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.
(...)
Herberto Helder/ Cinco canções lacunares

19.6.17

açoite

Em 2017 um raio tremendo sacrificou uma vasta região do centro de Portugal. Ao que parece atingiu uma árvore que ardeu e o fogo propagou-se rapidamente, porque, ao que parece, se seguiu uma espécie de tornado que disparou partículas incandescentes para longe, num turbilhão de labaredas incontroláveis. Cercadas pelo fogo, as populações de pequenos lugares e aldeias pediram socorro. Ao que parece ninguém respondeu ao apelo, e, como heróis, com a água que tinham, com os braços que tinham, com os ramos que sobravam, com as forças que já não tinham, ali ficaram a lutar pelo que era seu e dos vizinhos, acenando ao único carro dos bombeiros que não parou, como se fosse o penúltimo dia de muitos rescaldos. Alguns foram atingidos pelo pânico e tentaram fugir, e, ao que parece não encontraram saída, ou a saída que lhes indicaram era um beco incendiado com uma placa a arder sobre o asfalto terminal. Chegaram, ao que parece, até onde implodiam muitas árvores em jorros de cinza e ali ficaram encurralados, e foram uma vez mais o grito sufocado de ninguém. E parece que foi isto mesmo que aconteceu em Portugal, em 2017, dito até à exaustão por quem sobrou. Era Sábado, quando os galos cantaram nessa manhã tudo parecia normal, excepto uma inquietude, tão imperceptível como uma ligeira tremura entre os galhos secos da floresta, vergados pelo calor. As crianças tomaram o pequeno-almoço e vestiram-se para ir brincar. Ia jurar que uma delas até levou um açoite.       

17.6.17

.



Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East, and West
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song.
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out everyone;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H.Auden/Funeral Blues

receptáculo

e talvez o tubo,

de ensaio.

trança

talvez seja a trança
[como penteado]
o melhor tributo ao DNA 

16.6.17

o trivial perdão

a saturação do ódio, de Agustina, e a banalização do mal, de 
Hannah Arendt, podem bem sustentar a trivialização do perdão  

a saturação do ódio*

Talvez tenha chegado o momento de pressentirmos que todo o crime castigado corresponde a uma impunidade que levamos oculta no coração. Sabemos que as palavras paz amor são simples sedativos; por detrás delas escondem-se programas de natureza mortífera. Não se denuncia claramente nada nem ninguém, não exactamente por falta de coragem, mas por falta de convicção. Um dia, ao fazerem um inquérito sobre o possível desfecho e solução para a guerra do Vietnam, eu falei na saturação do ódio. Só é possível terminar com o enigma do ódio humano ao atingir a saturação.
(...)

Agustina Bessa-Luís/Tudo está cheio de sabedoria

final scene - a petrificação

- Não é assim que se fazem as coisas, meu amigo. 
Foi a última frase proferida pelo velho pastor, cujo rebanho fora dizimado pelas minas de guerra. Vista do céu, a terra parecia um enorme cinzeiro pleno de beatas ainda fumegantes. Kosta* queria morrer como a sua amada e com ela, por isso coxeou até à mina mais próxima, mas o velho correu para impedi-lo, deitando-o ao chão e lutando com ele. Se te matas quem é que vai lembrar-se daquela rapariga e do vosso amor?, tinha-lhe dito. Kosta percebeu o que o outro queria dizer - que precisava de viver para conseguir expressar toda a sua mágoa. E passou os quinze anos seguintes a transportar pedras num alforge que levava a pé até à montanha, de modo a cobrir com elas todo o impressionante campo onde houvera sangue derramado naquela tarde. Por fim só lhe faltava o centro, pequeno, mirrado, com a forma de um coração.

*(Personagem principal de On Milky Road, de Emir Kusturica)

catch the light


15.6.17

cumplicidade

O homem viúvo entrou a sorrir, com o cachorrinho deitado no berço das mãos. De compleição muito antiga a sua figura magra e longa inspirava nobreza. Uma nobreza enlutada e triste. Como uma oferenda, o pequeno cão adormecido nas duas mãos abertas provocou um silêncio fresco semelhante ao da sombra de uma velha alfarrobeira, aberta num deserto de sol. E foi com enorme cuidado que o colocou sobre a marquesa. E o cão não acordou, dada a grande confiança, já muito antiga, que sentia no homem. A barriga sardenta continuou a oscilar sob os meus olhos atentos, cadenciada com o ritmo do sono, e as orelhas, abandonadas a uma anestesia de paz, caíram soltas para ambos os lados da cabeça, flectida e docemente imóvel, macia e branca. Peguei no estetoscópio para me acostar ao seu coração, que sabia tranquilo, ainda a afeiçoar-se ao cronómetro da vida. Quando o vacinei dormia, e nem se mexeu.   

14.6.17

Posted by Agustina

Mas porque é que se podem eleger amigos insignificantes
e a mesma regra não é sólida para os nossos inimigos? 
Pronto, calo-me.

(Porto, 28 de Abril de 1959)

outraface

e dei-lhe a outra face,
como se faz com os amigos.

interface

é possível que nunca faça de ti um amigo
julgo-te demasiado precioso

isso é conversa para outra face 

13.6.17

reading tea leaves



Because we don't know when we will die, 
we get to think of life as an inexhaustible well,
yet everything happens only a certain number of times,
and a very small number, really.
How many more times will you remember a certain afternoon 
of your childhood, some afternoon that's so deeply a part 
of your being that you can ever conceive of your life 
without it?  Perhaps four or five times more, perhaps
not even that. How many times will you watch the full moon rise?
Perhaps twenty. And yet it all seems limitless.

Paul Bowles

asynchronous

Uma tarde, já não me lembro qual, mas sei que era uma tarde amena no início daquela Primavera, joguei forte e ainda bem que perdi. Por causa da quantia que perdi morrerei mais cedo, talvez vários anos. Estávamos sentados numa esplanada em mesas diferentes, mas suficientemente próximos um do outro para ninguém nos ouvir, e nem nos demos ao trabalho de mudar de lugar. Ele disse-me que tinha um cancro, e foi assim, a seco, que degluti. É na garganta, acrescentou, mas ele que se cuide, não sabe com quem se mete, que eu vou vencê-lo. Senti uma tristeza enorme, vinda não sei de onde, talvez do céu, que se abateu imediatamente cinzento sobre mim, talvez do novíssimo verde, tão promissor nas primeiras folhas, que adivinhei arremessadas para um Outono gelado. Ele ali, a morrer ao meu lado, a quase vinte anos de mim, e eu a vinte e seis mil anos-luz da Via Láctea, sem saber bem o que fazer à vida. Então, sem que soubesse, jurei-lhe o meu tempo, o tempo que fosse preciso para que pudesse cumprir a sua promessa. Viveu, ainda vive.

como um quadro de Chagall



É maravilhoso, eles voam como os noivos de Chagall, repito, 
eles caem de mãos dadas, eles são o amor que vence a guerra. 
Sem o amor a vida perde a leveza, a vida é um saco de pedras. 
E calo-me, porque me parece que é isto mesmo que no fundo 
quero dizer ao meu filho, omitindo a cena final.

diagnosis

dairy 
very
milky

11.6.17

o espremedor

Agora que Portugal já não está amordaçado
agora que acabaram os dias da má raça
apanho três pequenas laranjas
das que sobraram na laranjeira
depois de vir um homem com um grande saco 
arrancá-las da árvore à força.
Corto-as ao meio com a faca do pão
e espremo-as 
entre os dedos, para um copo.
E bebo o sumo devagar,
a pensar que foi o melhor sumo que bebi
e que tenho de comprar um espremedor.

10.6.17

cor



Um hábito de música ou de sonho, qualquer coisa
que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não
pensar.

Fernando Pessoa / Livro do Desassossego 

perfume























mas, porém, não se ganha
com um paraíso outro paraíso.

Luís de Camões 

Dez



fraquezas são do corpo, que é de terra
mas não do pensamento, que é divino.

Luís de Camões

9.6.17

insecticida

No final da consulta relembrei a colocação do spot on, fazendo um gesto ao longo da coluna do cão. Ainda mal acabara a frase e já sentia um movimento rápido e certeiro de dedos a deslizarem-me pelas costas, acompanhado de um - eu sei. Voltei-me com ar de reprovação pela insolência, mas era tarde. Tinha sido mortalmente atingida. Como uma borboleta fechei as asas e morri ali mesmo. Nunca descobriram a causa da minha morte. Ninguém se lembrou de procurar impressões digitais.     

la danseuse



8.6.17

naco de prosa

os poetas, esses carnívoros

nacco

de prosa

bacco

como um Caravaggio, 
espreita-me de manhã
em moldura de alumínio
os cachos não são verdadeiros
mas a pose é a mesma
sem lençol de linho 

colonial

Na esplanada do Café Central da vila, um homem lê à sombra. O bege acentua-lhe a cor escura da pele. As feições, finamente desenhadas sobre ossos longos, e a postura distinta, denunciam a sua origem. Um relógio e um anel em ouro com uma pedra, brilham, quando no campanário da igreja soa exactamente a uma da tarde sem tempo. Um copo de vinho tinto é colocado com lentidão sobre a mesa enquanto o Financial Times é elegantemente dedilhado como música antiga. O homem que veio de Nascente bebe um pequeno golo de vinho na pausa ínfima entre o passar de cada pauta. Nada o perturba até estacionar no largo uma Ford Transit branca. Uma mulher de meia idade, alta e loura, de roupas claras e cabelo curto aproxima-se e diz Hello! Hi, é a resposta, com rotação do olhar em quarto de circunstância. A mulher comenta alegremente em voz alta que conduz aquela carrinha por lhe dar jeito no dia-a-dia, e os olhos azuis acendem-se mais ainda quando justifica, pareço uma cigana, uma das deles, mas temos de nos mexer senão com a idade vamos parando e o cérebro também pára, não é? É. Mas também há uma forma de nos movermos a alta velocidade, estando completamente imóveis.    

7.6.17

um lugar à mesa

De noite, nem sempre, o telefone toca. Ela atende mas vê primeiro o rosto reflectido no ecrã, e, instintivamente, estuda o melhor ângulo para ser vista, compõe o cabelo, diminui a intensidade da luz. Ela sabe da importância disto, ou suspeita, e mesmo que não seja o melhor momento, ela ensaia a melhor expressão, a que lhe vem de dentro, a que ela quer que transpareça toda no seu rosto, pousando os talheres, interrompendo alguma tarefa, tornando-se disponível. Depois aparece a criança, sentada à mesa, do outro lado. A criança vê a avó, e a avó dá quase sempre uma grande gargalhada sobre a birra da neta, que vira a cara à colher de sopa. A criança reconhece-lhe a voz e sorri, e abre a boca e engole, e quer mais, distraída. Ela então continua, porque sabe da importância disto, a comunicar com a criança, a estimulá-la, a cantar. Depois esconde-se, desaparece da moldura - não há, diz - não há, é o gesto em forma de resposta. E quando volta a aparecer, sempre a sorrir, os sorrisos voltam a encontram-se. Até ao fim da sopa. 

índice de frescura


































































6.6.17

acto único

toda a minha vida foi um acto de contrição 
à tua espera

Canto do início

Ao princípio era a luz, depois o céu
azul porque a luz se embebe
nas camadas de ar que olhamos.
Ao princípio era a Paixão e engendrou
do seu sangue os animais, da sua
Cruz as plantas. Era, ao princípio,
o animal-vegetal minúsculo, oculto
no Paraíso, mas omnipresente
desde o ante-princípio. E da argila
ou terra adâmica formou-se a Natureza
e o Homem, banhados pela luz
que recortou linhas e volumes vagos.
Ao princípio era o martírio
e a bênção daquele que trabalha
o seu corpo e o seu pão de sol a sol.
E os frutos fulguraram nessa luz
quando as águas se apartaram
e o mar, até hoje, quebra e requebra a onda
para eu ouvir o som do início.

Fiama Hasse Pais Brandão / Canto do Génesis 


rosa


5.6.17

iscas sem elas

Abro a embalagem em cuja etiqueta vem escrito, em maiúsculas, - pork liver e por baixo, fígado - disposta a temperar as iscas para o jantar. Muito bem trinchado, o fígado desliza-me finamente por entre os dedos protegidos pelas luvas de cozinha, aguarelando-as de vermelho. Mas o cheiro a sangue é forte, acre, enjoativo, evito olhar e inspirar ao mesmo tempo, enquanto as passo por água fria. Sal, alho, louro, vinho branco, vinagre. Há que tempos que não como fígado amargo, de porco. Without them e por baixo, sem elas.  

Hi

O português deixou de ser a minha língua principal,
no dia-a-dia. Eu não estou cá, digo ao telefone, em
conversa com a minha mãe.

4.6.17

flowers for London















































































































terceiro acto

(...)
E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diálogos de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3º ato do "Tristão". Ele desce para almoçar, e de que é que falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietzsche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados.

George Steiner, ao Expresso

cover



A única música verdadeira é aquela que nos permite 
apalpar o tempo.

Cioran

3.6.17

um copo de rosas

Não troco nada do que não tenho pelo muito que conquistei. Respirar a liberdade do vento; entrar tarde no silêncio da casa quando já metade da lua se apoderou do céu; demorar-me no jardim a colocar estacas nos gladíolos de dois metros, enquanto Cópia - o gato preto que imita Princess, a gata, para se infiltrar na casa do dono desta - cruza agora as patas à frente e me observa do alto do muro, com a atenção dos humanos, percebendo tudo, mas tudo mesmo, sobre essa liberdade felina, esquiva e sinuosa que tomou conta de mim faz seis meses; cortar os rebentos de laranjeira junto ao pé, aproximá-los do rosto e inspirar ao máximo, reter nos pulmões o perfume que se solta do caule e das folhas tenras, depois enfiá-los no meio das rosas, num copo alto; ligar a música e ficar a ouvir o piano que vem do escuro; comer uma fatia de pão, outra de queijo e beber um copo de vinho tinto à luz de uma vela. Nada sabes, mas eu sei que sou todos os poemas que li, tudo o que vi, sou um mundo que tu nunca, mas nunca, poderás encarcerar na melhor versão que tenhas de mim. Escapar-te-ei sempre.     

da paixão

ofereceu-me um morango
perguntei se estava lavado

2.6.17

filatelia

nunca fui de coleccionar selos
porém admirava-lhes a beleza.
alguns, no entanto, eram banais
como os pequenos Cavaleiros carimbados
que em cinzento, amarelo, ou esverdeado  
trotavam com escudo nos centavos 
exibindo autoritária realeza
sobre as cartas 
e nas costas dos postais.

31.5.17

camuflado

todos os dias passo
um longo muro caiado
é assim que eu quero andar
de branco roto
e lavado

desejo



queda livre



Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
(...)

Ruy Cinatti/Poema de Amor

30.5.17

simetria

voltava a oferecer-te 
metade da minha maçã

Depois...

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara 
O par que a alma e a cara lhe pedia.

- E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois, 
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
... se deu e se dará continuamente:

Na palma da tua mão, 
me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

(...)

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu, os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade,
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
- Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a espada...

Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!

José Régio/Adão e Eva

partilha




E viu a mulher que aquela árvore era boa para se
comer, e agradável aos olhos, e desejável para dar
entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu
também a seu marido, e ele comeu com ela.
Génesis 3:6

29.5.17

frutos do silêncio

Sei que quando diz que gosta de mim não sabe o que diz porque não me conhece. Pergunto-lhe porque é que as pessoas gostam do que não conhecem, mas ele encolhe os ombros, e diz que fala mal português, mas não é verdade, fala bem porque viveu em Angola vários anos. Agora estou... e pede-me ajuda, digo reformado, sim reformado. Ainda não se fartou, responde-me a acompanhar um gesto enorme, que trabalha muito, que está a plantar árvores, muitas árvores de fruto. Reparo na barba por fazer e na camisa entreaberta e solta sobre as calças. Deve ter vindo directo do pomar, penso. Gosta de viver aqui. Portugal é muito bom, bom clima, paz. Sim não andamos em guerra civil, mas os homens por vezes matam a família e os vizinhos, e quando isso acontece o povo está doente, não é uma paz verdadeira. Ele levanta-se. Não veio fazer nada, passou e resolveu entrar para conversar. Promete voltar um dia destes, para falar mais um pouco. É que as árvores, apesar de serem boa companhia, não respondem, e isso eu sei muito bem.     

pêssegos




critério

limpo as minhas velhas botas
como trato do meu corpo
quando morrer quero 
levá-las comigo 

28.5.17

afectuoso consolo

Hoje, entre outras (muitas) coisas, releio uma carta da correspondência entre Agustina e José Régio, de 1957. O pai de Régio morrera e Agustina, embora sabendo disso, resolve manter-se em silêncio, escrevendo mais tarde que, quando alguma coisa que tem raiz em nós acaba é muito difícil perdoar a nós próprios até a lógica. A minha maneira de consolar é quase abster-me de estar presente como qualquer outra criatura viva, útil e insidiosamente humana. Régio responde dois meses depois, o seguinte: Claro que as palavras nada remedeiam num desgosto aliás irremediável. Mas, quando nos vamos sentindo cada vez mais sós, sempre nos sabem bem algumas palavras afectuosas que, pelo menos, (e nem sempre o termo ilusão é justo) nos dêem a ilusão de não estarmos desacompanhados de todo.

Fico a pensar que a amizade pressupõe autenticidade e franqueza, mas, em determinados momentos muito particulares, também a generosidade de nos sabermos colocar no lugar do outro e de actuarmos como ele gostaria e esperaria que fizéssemos. E isto encaixa-se em mim que nem uma luva. A minha insociabilidade comodista levou-me a falhar duplamente este fim-de-semana. 

27.5.17

infinitude indecente

A vida não é nada; a morte é tudo. Porém, não existe algo que seja a morte, 
independentemente da vida. É precisamente essa ausência de realidade distinta, 
autónoma, que torna a morte universal; ela não tem um domínio próprio, ela é 
omnipresente, como tudo o que carece de identidade, de limite e de duração: 
uma infinitude indecente.

Cioran/ Do inconveniente de ter nascido

no remoinho

Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha 
desde manhã até à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
não serão mais que uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim te vi em cada manhã,
quando sobre ti mesma te inclinas
no espelho. Ó amada esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que tu és a vida e és o nada.

Para todos tem a morte um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixarmos um vício,
como vermos no espelho 
um rosto morto ressurgir,
como escutar uma boca fechada.
Desceremos, mudos, no remoinho.

Cesare Pavese / Virá a morte e terá os teus olhos
Tradução David Mourão-Ferreira

garantia

Agora que morreste, o dia do teu aniversário lembra-me que já não vives. Virá o tempo em que haveremos de reciclar o riso em vento e voltar a rir de tudo, espalhando muito pó. Isto supondo que a vida, esse estado transitório e vulgar, só os vivos ameaça, e que a morte existe como negação suprema dessa ameaça - que só a própria morte testemunhará no seu leito secreto. Mas hoje, foi mais uma vez por causa da tua morte, que um dia da tua vida me fez tanta falta. Apesar de saber que só agora estás, finalmente, em segurança.

resiliência no meu jardim


26.5.17

certidão

consta que usava botas e chapéu.

botas e chapéus

(...)
O uso das botas tornou-se verdadeiramente preocupante. Significa vontade de poder, isenção do vulgar comportamento feminino, e sobretudo a presunção de afirmar um carácter. É extraordinário como em clima ameno, em dias de sol, em pleno Verão até, o uso das botas se mantém. 
(...)

Agustina Bessa-Luís
A rubrica desta crónica é extremamente inspiradora
Crónica da Manhã



(...)
Seus olhos de novo fitaram aquela rapariga que, já d'entrada, lhe fizera subir a mostarda ao nariz. Logo d'entrada percebera-a sentada a uma mesa com seu homem, toda cheia dos chapéus e d'ornatos, loira como um escudo falso, toda santarrona e fina - que rico chapéu que tinha! -, vai ver que nem casada era, e a ostentar aquele olhar de santa. E com seu rico chapéu bem-posto. Pois que bem lhe aproveitasse a beatice!, e que se não lhe entornasse a fidalguia na sopa!
(...)

Clarice Lispector
Devaneio e embriaguez de uma rapariga
Laços de Família

orgânico



No man ever steps
in the same river twice,
for it is not the same river and
he is not the same man.

Heráclito

25.5.17

longe demais

fui viver para uma terra desconhecida por me ter apaixonado por uma casa; 
as paixões levam-nos sempre mais longe

vade mecum (veterinário)

Falava inglês como se tivesse um abelhão prestes a escapar-se-lhe por entre os dentes. Ao cabo de algumas tentativas para se conseguir explicar, perante a minha dúvida entre se seria francês ou alemão, em desespero arrisquei perguntar se falava francês. Fez-se luz: - Preciso de um remédio para isto, - e mostrou-me um enorme calo no calcanhar, que sobressaía da sandália. Mas está no veterinário, informei. Eu sei. Só que o medicamento que eu preciso é usado nas gretas das tetas das vacas, quando estão no campo ao calor... 

23.5.17

precisão

O que esperam de nós, quando nos solicitam uma eutanásia, é que ponhamos fim a um sofrimento bilateral sem causar mais dor, - vinha eu a pensar no caminho de volta, entre as curvas e as contracurvas do sol, sentindo-me extremamente tranquila por tê-lo conseguido. Ao lado, a mala dos domicílios oscilava com os movimentos do carro, por causa da estrada em muito mau estado. No fim tinha pedido para lavar as mãos, - não preciso de ir à casa de banho - frisei, supondo que poderia estar tão pouco limpa como o resto da casa. Num gesto preciso e aliviado, o homem indicou-me uma torneira com um regador por baixo. Abri-a e deixei o sangue do cão misturar-se com a água. É provável que ainda lá esteja. 

Mesmo longe da vivenda, persistia em mim o odor forte e adocicado do ambiente, apesar dos vidros abertos deixarem circular o ar por entre as janelas. O homem desculpara-se pelo abandono do jardim, outrora ao cuidado da mulher, já falecida. A casa não estava desarrumada, mas inocentemente suja. Tinha arrastado o Pastor alemão para o alpendre. Sugeri-lhe que tentássemos que o cão fosse pelo seu pé até à garagem, ele ajudando com a coleira, eu com uma toalha colocada adiante das patas traseiras. Enquanto tosquiava um trilho na pele ao longo da veia cefálica, ele contava que tinha vivido na Tanzânia, junto à fronteira com o Ruanda. Lembrei-me imediatamente de Dian Fossey, mas não comentei a razão desse meu pensamento. Na preparação do pentobarbital ele tentara voltar para Inglaterra e não se adaptara, mas fitara-me com uns olhos muito azuis, isto é mais parecido com África, bem, não é bem, mas é mais. Concordei, é mais, ao exemplificar como se consegue um bom garrote, lembrando-me dos diques no rio Incomati. 

A seguir, como quem faz um desenho preciso, mergulhei a ponta da lapiseira num rio subterrâneo, e enrosquei firmemente a seringa. Os passarinhos continuaram a cantar como se nada tivesse acontecido, porque não sabiam da minha alegre determinação.

22.5.17

canção de embalar



Ai eu amei, dois olhos negros
dois olhos negros
sem fazer mal a ninguém

para a menina dos olhos negros

Nos olhos brilham asas negras   
Na pele dorme uma pétala perfumada e doce, de flor
Na boca acorda um passarinho
No cabelo vence o génio de um compositor

Mas é nas mãos que batem palminhas
Que lhe encontro o voo das andorinhas
Que voltaram este ano por amor


22 de Maio de 2016

amizade através da rede






























































21.5.17

sensual



Ó amor, Ó celibato.
Mais ninguém senão eu
Caminha com água pela cintura.

Sylvia Plath / Carta em Novembro

dominical

Rego o pé das flores 
com a mangueira ecológica
Rego o pé das flores
com a mangueira ecológica
para o amor não tenho
nem um pingo de cuidar
para o amor não tenho
nem um pingo de cuidar
por isso acordo ao Domingo
sem ter uma flor de amar

Chego à cidade azul
das flores de jacarandá
no meu jardim do sul
trepa um novo maracujá
no meu jardim do sul
trepa um novo maracujá

Entrego uma moeda só
por um copo de cerveja
os golos ficam marcados
com a espuma do frio
os golos ficam marcados
com a espuma do frio
na mesa onde sobrou
o teu lugar vazio

O homem era gordo e alto
e gritava qualquer coisa
a guitarra ainda mais alto
mandava calar a harmónica
as panelas na cozinha 
ralhavam em percussão
o teatro ficou surdo
o teatro ficou surdo
até que veio outro homem
com uma alma melódica
e acabou a discussão

O homem era magro e calmo
como um rio no Verão
o homem era magro e calmo
como um rio no Verão
pela boca gemia um salmo
que lhe fugia da mão

A minha voz é um barco
no delta do Mississipi
A minha voz é uma vela  
acesa na Ria Formosa 

Nas linhas da minha guitarra
dedilho Andaluzia
Com a boca ele desamarra
e prende ao cais a prosa
de harmónica melancolia

Rego o pé das flores
com a mangueira ecológica
Rego o pé das flores
com a mangueira ecológica
e depois, baby 
já no fim
volto o chuveiro para mim.

sob o azul dos jacarandás

Felix Slim * Teatro Lethes

19.5.17

espiritual



'O plunge your hands in water,
 Plunge them in up to the wrist;
 Stare, stare in the basin
 And wonder what you've missed.

W.H.Auden / As I walked out one evening

um deles perderá a cabeça



Der fliegende Höllander

Sentado no terraço, uma sombra entre as estrelas e as luzes de todo o vale, absorto em pensamentos, fixava o farol da Culatra hipnotizado pelo aviso aos navegadores, ainda mais premonitório à distância. Abandonara-se ao mutismo da noite fresca, inquietada aqui e além pelo restolhar do vento nas folhas dos arbustos. Detivera-se a analisar esse grande ilusionista que é o cérebro, usando os seus próprios meios e meandros. Podia muito bem ter vivido toda a vida uma ilusão, a linha do horizonte não era mais do que isso, era aliás a prova irrefutável disso, o canto dos pássaros uma série de sons encenados pelo cérebro, as cores uma miragem de luz sobre a retina e o nervo óptico, as flores pequenos devaneios de perfume. Caíra no engodo da arte, sobretudo da música, aquela que ouvia num arrepio que não sabia se fora provocado pelo súbito arrefecimento, se por um soluço da alma. Nunca o seu cérebro lhe dera a sentir nada tão intensamente como a música, coisa alguma o reduzira tanto a uma partícula do cosmos em comunhão com o Universo, a mais uma célula em comunhão com a Humanidade. Aproximou os joelhos magros para aconchegar as pernas altíssimas, assentou os cotovelos sobre elas e ali ficou, sem pressa de regressar a casa. Se tinha tudo, então por quê essa atracção irremediável pelo mar, por partir, por passar a barra e apenas ir, sem destino, sem fardos, sem nada? Tantos anos e ainda não encontrara o essencial, mantivera-se enredado no equívoco do conforto, fora apanhado na rede como um peixe atrás do isco. E sufocava. Mas agora já era tarde para se fazer de novo ao mar, já era tarde para partir. Levou as mãos aos olhos para limpar uma lágrima, e nem reparou na fatia de lua que lhe escorregou por entre os dedos e que ficou ali, a brilhar no chão. Ultimamente acontecia-lhe isto, emocionava-se com facilidade, disse, ao entrar em casa.