Atalhos de Campo


15.12.16

sem emoção

Subia a avenida do liceu. A cintura, que era tão estreita que cabia entre dois polegares e dois dedos médios esticados, sumia-se dentro da blusa de algodão indiano tingido com velhas cores do arco-íris. Ao trotar ligeiro das socas no passeio, soltavam-se-lhe do cabelo comprido fugazes brilhos de hena, e uma alça larga, sustentando a mala de carneira demasiado pesada, pendia-lhe da  clavícula saliente como de um cabide. A subida acentuava-se numa curva ampla e um descampado separava a zona residencial do edifício em betão e vidro protegido por um gradeamento, por onde ela desaparecia antes de a campainha tocar para as aulas. Era costume fazer entorses nos tornozelos, o direito, o esquerdo, ou ambos. Claro que sabia que a culpa era do peso das socas de sola  de madeira, troc, troc, troc, onde insistia em enfiar diariamente os pés nus, que por isso lhe escorregavam. Sempre que havia um furo metia-se por atalhos campo fora, caminhando entre as alfarrobeiras e o grito quente das cigarras, em direcção ao mar. Mas quando reparou que os baldios tinham desaparecido, passou pelo liceu e não entrou. Em vez disso, dirigiu-se a passo rápido para a praia deserta, e faltou às aulas pela primeira vez na vida. Aos setenta anos.        
         

2 comentários:

  1. Quase posso jurar de que liceu se trata. É o Liceu :)

    Reconheci-me tanto na descrição física da menina, em tempos que já lá vão...

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  2. Por vezes, o desejo de evasão fala mais alto..., e sabe bem.:)

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