Atalhos de Campo


22.12.16

o céu esgarçado

Parecia uma seda passada com o ferro demasiado quente: foles e esfiapos num padrão monótono rumo a sul. Premonitório e belo. Era a primeira vez que via um céu assim. Estava na hora de deitar dos pássaros e as pequenas árvores do parque de estacionamento assemelhavam-se a espanadores com flores ao rubro, de onde eles subiam em voos estridentes, verticalmente curtos e assombrados. Reparava no corte profundo, rectilíneo e oblíquo, que rasgara cirurgicamente o enorme tecido de céu politraumatizado, quando o homem das mudanças veio dizer que deviam prosseguir viagem. Já no cockpit, com aquele retalho estranho a ocupar todo o vidro da frente, o homem que guiava a camioneta confessou que nunca tinha andado de avião.

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