Atalhos de Campo


29.12.16

Mulheres, e as borboletas em frol

Ao ler este ano, Mulheres, de Charles Bukowski, lembrei-me do meu desconforto  quando certa vez abri uma das caixas de sapatos perfuradas onde a minha irmã criava bichos-da-seda. Naquele espaço ínfimo e mal pontilhado de luz, vi dezenas de mariposas entregues ao acasalamento frenético até morrerem esfarrapadas. E eram os mesmos bichos que tinham produzido maviosos casulos em seda.
Seda natural, como se depreende.

Também este ano, numa escrita irrepreensível sem direito a vernáculo,  vi surgir um caçador de borboletas. Incansável. Andava o que fosse preciso até as apanhar. Parecendo gostar do jogo, as incautas abriam as asas trementes de provocação, penteavam as longas antenas à sua frente, como se pusessem rímel usando a glossa, fitavam-no destemidas com olhos de grande angular e submetiam-se à polinização do seu olhar ampliado. Mas o caçador de borboletas nada queria saber das suas belas asas, ou sequer das suas vidas. Quando menos esperavam tinham uma alfinetada certeira nas costas, sempre do lado direito, e uma etiqueta para a posteridade.

Ao ler o segundo, lembrei-me do primeiro. Recomendo ambos. A borboletas.

27.12.16

toma o teu leito*

Fiz uma lista mental aturada, mas mesmo assim ficaram esquecidas
algumas coisas - muito poucas - entre elas um par de canadianas,
o que interpretei como bom prognóstico.

marinha

26.12.16

brinde

o vermelho medronho
destilado é como água
mas o seu espírito é de fogo 

25.12.16

almoço de Natal

Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,
os moços ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir à missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos,
de certeza marota de que ao final de tudo
uma confissão in extremis garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem mesmo frei Jácomo.

Adélia Prado/Missa das 10

22.12.16

o céu esgarçado

Parecia uma seda passada com o ferro demasiado quente: foles e esfiapos num padrão monótono rumo a sul. Premonitório e belo. Era a primeira vez que via um céu assim. Estava na hora de deitar dos pássaros e as pequenas árvores do parque de estacionamento assemelhavam-se a espanadores com flores ao rubro, de onde eles subiam em voos estridentes, verticalmente curtos e assombrados. Reparava no corte profundo, rectilíneo e oblíquo, que rasgara cirurgicamente o enorme tecido de céu politraumatizado, quando o homem das mudanças veio dizer que deviam prosseguir viagem. Já no cockpit, com aquele retalho estranho a ocupar todo o vidro da frente, o homem que guiava a camioneta confessou que nunca tinha andado de avião.

20.12.16

o jardim de rosas

Ao fundo do relvado, conquistado ao saibro, está um jardim de rosas. Para a maioria passará despercebido que o canteiro das roseiras tem a forma de um T gravado na terra, recortado na relva aparada. Na base do T cresce uma roseira diferente de todas as outras porque dá rosas quase negras. É aí, entre a roseira e o caminho em calçada árabe, que está enterrada Swatch, a coelha-brava.

Feliz Natal

(COM OS MEUS AGRADECIMENTOS AO GOOGLE)

19.12.16

discrição

Aparentemente, Mirele entrou no antigo escritório do meu pai para me dizer com simpatia que a minha cadela é muito fofinha e bem-educada, fazendo-lhe muitas festas. Desvio a atenção do computador para conversar com ela. Mirele é romena e consome os seus dias a fazer as mesmas coisas em muitas casas diferentes. Depois diz-me que não pareço avó, que sou elegante, e eu devolvo-lhe o elogio. Sentindo-se encorajada, pergunta-me se tenho saúde. Sem perceber qual a sua intenção, respondo-lhe que suponho que sim, mas que nunca se sabe. Ela sorri docemente, e diz-me que assim é mais fácil superar qualquer contrariedade, com saúde e tempo. Eu digo-lhe que penso o mesmo, desculpando-lhe a inconfidência.

18.12.16

gaivotas em terra

A mulher que já não escrevia cartas de amor, sabia que devia soltar a rola-turca. Então, numa tarde bonita entre os dias de caça, quando a rola lhe pousou na cabeça, a mulher que já não escrevia cartas de amor, em vez de se sentar, abriu a porta que dava para o telhado de entrada, a que tinha um monograma, a que sabia que era a porta principal. A rola que já não esperava voar, assustou-se, e voou entre as janelas sem vidros e o aro sem porta, agitando o ar frio do pequeno alpendre que sabia que não era casa. A mulher achou lindo aquele bater de asas inocente, e então saiu a porta que não era porta, para lhe indicar o caminho que era para a liberdade. A rola que já não esperava voar, seguiu-a, mas em vez de lhe voltar a pousar na cabeça, subiu muito alto no céu limpo, e, a seguir, desapareceu. A mulher voltou a entrar em casa com aquele pedaço de céu vazio nos olhos.

17.12.16

Árvore Virtual, 2016

ana
Cuca,a Pirata
flor
Gábi
Gaja Maria
Impontual.
Isa Sá
Laura Ferreira
Linda Blue
luisa
Madalena Falcão
Manuel Mau-Tempo
Maria Eu
mia dos santos
Miss Smile
Pedro Gordalina
Susana Rodrigues
III
III
III
III
ttt
III
III
Os vossos comentários maravilhosos, que não desistiram
de acompanhar o período difícil em que não li blogues,
não comentei, e não respondi, farão parte dos meus
desejos para 2017. A todos um muito obrigada.

15.12.16

fim da linha


sem emoção

Subia a avenida do liceu. A cintura, que era tão estreita que cabia entre dois polegares e dois dedos médios esticados, sumia-se dentro da blusa de algodão indiano tingido com velhas cores do arco-íris. Ao trotar ligeiro das socas no passeio, soltavam-se-lhe do cabelo comprido fugazes brilhos de hena, e uma alça larga, sustentando a mala de carneira demasiado pesada, pendia-lhe da  clavícula saliente como de um cabide. A subida acentuava-se numa curva ampla e um descampado separava a zona residencial do edifício em betão e vidro protegido por um gradeamento, por onde ela desaparecia antes de a campainha tocar para as aulas. Era costume fazer entorses nos tornozelos, o direito, o esquerdo, ou ambos. Claro que sabia que a culpa era do peso das socas de sola  de madeira, troc, troc, troc, onde insistia em enfiar diariamente os pés nus, que por isso lhe escorregavam. Sempre que havia um furo metia-se por atalhos campo fora, caminhando entre as alfarrobeiras e o grito quente das cigarras, em direcção ao mar. Mas quando reparou que os baldios tinham desaparecido, passou pelo liceu e não entrou. Em vez disso, dirigiu-se a passo rápido para a praia deserta, e faltou às aulas pela primeira vez na vida. Aos setenta anos.        
         

11.12.16

A felosa

A pequena felosa agarrou-se com força às grades e não se mexeu durante um bom bocado, ambientando-se à penumbra. De vez em quando ia espreitá-la para ver se reagia. Secara-lhe bem as penas com um papel absorvente, mas reparara que continuava a respirar com o bico aberto. De início optara por colocá-la no quarto, a divisão mais quente da casa. Pela hora do almoço descera com ela para a sala, não para muito longe da salamandra acesa. A felosa entretanto arrebitara bastante, saltitando de poleiro em poleiro, e não parecia nada incomodada pela exiguidade do novo espaço, comportando-se como se tivesse vivido sempre numa gaiola. À oferta da primeira mosca reagiu com precisão, tragando-a num ápice. Durante as três horas seguintes voou alegremente e comeu mais seis moscas e uma traça, tornando-se o centro das atenções. Porém, ao cair da noite, subitamente aninhou-se, e escondeu a cabecita por baixo da asa. Estranhamente não se empoleirara para dormir, e em vez disso encostara-se à taça onde estava a água. E foi assim aconchegada que se deixou a pouco e pouco escorregar, e que nem deu conta que já tinha morrido. 

7.12.16

ralacionamento

Qualquer relação com um ralador é sempre uma ralação. 

a dupla-face

transforma-te o ralador em cousa ralada

O ralador

O ralador era banal, uma superfície metálica, desigualmente áspera pelos diferentes crivos de espessura de corte, rematada por dois suportes em plástico, (daqueles que toda a gente já teve pelo menos uma vez na vida).