Atalhos de Campo


26.11.16

O casaco da trisavó

A bisavó escolheu a lã mais macia e branca. Talvez a tivesse encomendado em meadas, não me recordo. Quando era assim, uma das mais novas ajudava a dobar a lã mantendo a meada tensa entre as costas das mãos afastadas à medida, balouçando os braços ritmadamente para fazer soltar o fio. A minha avó fazia com rapidez um novelo perfeito e guardava-o no saco de tecido onde colocava o trabalho embrulhado num pano muito limpo, juntamente com as agulhas. A bisavó entrava em competição ciumenta com a avó do outro lado, e tentava sempre superá-la, tanto em número de peças quanto em mestria, embora quando se encontravam para mostrarem uma à outra as lãs tricotadas, trocassem entre elas sorrisos encantadores. A bisavó gostava muito de pessoas. Foi também por isso que resolveu tornar aquele amor crescente num longo abraço de casaco comprido e capuz, apertado à frente por uma presilha com um único botão. O grande desafio para ela fora a trança larga, feita na horizontal ao nível do aconchego dos ombros, que fez e desmanchou várias vezes, como lhe acontecera no colégio com os exercícios de matemática até darem certo. Depois desse verdadeiro obstáculo superado, o casaco, sempre muito branco, foi crescendo rapidamente colo fora, até à véspera do baptizado do meu filho. Suspeito que rezava pelo seu menino enquanto ia acrescentando fiadas, tecidas como contas que lhe deslizavam por entre os dedos. Sempre me pareceu, conhecendo-a, que a minha avó, sabendo que nunca poderia viver o suficiente para o conseguir, secretamente desejava, para a sua obra-prima, o que veio a acontecer: poder abraçar com ela também uma trineta, com a mesma brancura que só o amor torna possível. E foi por isso mesmo que guardei com esmero aquele pequeno casaco feito por ela, durante trinta e três anos.

6 comentários:

  1. que belo pensamento o de continuar a abraçar as gerações futuras... é uma pena se um dia isso se perde, acho que foi essa transmissão de objectos e de conhecimento que nos tornou sapientes!

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  2. Que amor tão bonito, assim tricotado.

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  3. E nós esperamos dar continuidade a esse legado, para que seja tão ou mais imortal quanto o registo que ficou.

    P.S.
    Gostei muito do texto.

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  4. Esse é um património inquantificável, pelo reencontro de épocas e gerações, embora, nem sempre o reflexo desse espelho nos seja assim tão confortável, seja pela memória, pela saudade, ou pela melancolia que infunde em nós.

    Por altura do baptismo da minha filha mais velha, lembro-me de estar a olhar para o meu vestido de baptizado que a minha mãe tinha criativamente confeccionado em África, e de ter pensado com os meus botões quão gracioso era, e não hesitei. Lá foi a Raquel a espreitar de azul, por entre o cor-de-rosa do tule.

    A minha mãe ficaria tão, mas tão honrada por esta partilha inesperada.:):)

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