Atalhos de Campo


26.11.16

O casaco da trisavó

A bisavó escolheu a lã mais macia e branca. Talvez a tivesse encomendado em meadas, não me recordo. Quando era assim, uma das mais novas ajudava a dobar a lã mantendo a meada tensa entre as costas das mãos afastadas à medida, balouçando os braços ritmadamente para fazer soltar o fio. A minha avó fazia com rapidez um novelo perfeito e guardava-o no saco de tecido onde colocava o trabalho embrulhado num pano muito limpo, juntamente com as agulhas. A bisavó entrava em competição ciumenta com a avó do outro lado, e tentava sempre superá-la, tanto em número de peças quanto em mestria, embora quando se encontravam para mostrarem uma à outra as lãs tricotadas, trocassem entre elas sorrisos encantadores. A bisavó gostava muito de pessoas. Foi também por isso que resolveu tornar aquele amor crescente num longo abraço de casaco comprido e capuz, apertado à frente por uma presilha com um único botão. O grande desafio para ela fora a trança larga, feita na horizontal ao nível do aconchego dos ombros, que fez e desmanchou várias vezes, como lhe acontecera no colégio com os exercícios de matemática até darem certo. Depois desse verdadeiro obstáculo superado, o casaco, sempre muito branco, foi crescendo rapidamente colo fora, até à véspera do baptizado do meu filho. Suspeito que rezava pelo seu menino enquanto ia acrescentando fiadas, tecidas como contas que lhe deslizavam por entre os dedos. Sempre me pareceu, conhecendo-a, que a minha avó, sabendo que nunca poderia viver o suficiente para o conseguir, secretamente desejava, para a sua obra-prima, o que veio a acontecer: poder abraçar com ela também uma trineta, com a mesma brancura que só o amor torna possível. E foi por isso mesmo que guardei com esmero aquele pequeno casaco feito por ela, durante trinta e três anos.

20.11.16

o ascendente e a boa pessoa

O Víctor de Sousa fez agora setenta anos e é escorpião, como tu. Vi-o num programa de televisão, rodeado de amigos. Também estava presente um astrólogo conhecido, entre vários escorpiões..., que referiu que o elemento do teu signo é a água; quando o ascendente também é um signo de água, afirmou ele, as pessoas de escorpião são mais sensíveis, ligadas às artes, bondosas... Sabes qual é o do teu? Exactamente esse, sou água mais água... Ai sim? Então és boa pessoa, garantiu a minha mãe.

14.11.16

A crítica das árvores

Tenho para mim que os críticos são pessoas que não contemplam as árvores. Pessoas assim andam perto de enlouquecer e sofrem de dores de cabeça permanentes. As árvores, como objectos que atraem e repelem a electricidade, como bem reparou o bom Benjamim Franklin, estão em condições de servirem de meio curativo a certas moléstias cerebrais que produzem a crítica. 

Agustina Bessa-Luís/ Os Críticos-I

12.11.16

O voo de Suzanne # repost 23


Se estivesses aqui dava-te o braço, e passeávamos nas tréguas da chuva por entre choupos e pássaros; veríamos as galinhas atarefadas a esgravatar na terra húmida, os borregos tão brancos e juntos a brincarem como crianças num infantário e as ovelhas a berrarem por eles como mães-galinha; e íamos rindo e vendo, e parando para tu descansares um pouco o teu olhar da cor das árvores, tão quietas como este sol submisso do primeiro dia de Outono. E talvez nos lembrássemos de quando levei a Suzanne para nossa casa, e aí tomaríamos o caminho da ribeira como náufragos do passado ao som daquela voz antiga e consensual que nos enchia os domingos, até que nos pedias para pormos a tocar - só mais uma vez - o pastelão. Era o epíteto ternurento que lhe davas quando ainda não sabíamos, porque agora nos disse, que uma assinatura não consegue roubar a liberdade.

Ao meu pai

Publicado a 22/9/2014

11.11.16

ai...

em menos de 24 horas, chamaram-me A., depois I., o que me deu uma ideia brilhante

Cohen the poem

I heard of a man
who says words so beautifully
that if he only speaks their name
women give themselves to him.

If I am dumb beside your body
while silence blossoms like tumors on our lips
it is because I hear a man climb stairs
and clear his throat outside our door.

Poems 1956-1968/Poem
Leonard Cohen(1934-2016)





Poem


subliminar

apareceu em evidência no escritório, soterrando Munro, Modiano, Dylan, um livro sobre poda, mas não uma poda qualquer: trata-se
de - A Poda - sob orientação da sociedade real de hortofruticultura da Grã-Bretanha. Não sei se consigo.

9.11.16

Cinco perguntas mais uma para Donald Trump

Quem és tu, na verdade, que queres falar ou cantar para a América?
Estudaste bem o país, os seus idiomas e os seus homens?
Aprendeste a fisiologia, a frenologia, a política, a geografia, o orgulho, a liberdade e a amizade do país? Os seus fundamentos e objectivos?
Pensaste no convénio orgânico do primeiro dia do primeiro ano da Independência, assinada pelos delegados, ratificada pelos Estados, e lida por Washington à frente do exército?
Conheces a fundo a Constituição Federal?
(...)
O que é que trazes à minha América?

Walt Whitman/1860

a décima quarta emenda

este blogue passará a ser inconstitucional 

genuflexão

Ajoelhada na relva inclino-me sobre o canteiro, para o limpar de raízes, pedras, pequenos ramos, folhas secas. Algumas raízes estão fortemente agarradas e são profundas, formando uma intrincada rede subterrânea. Enfio então os dedos por entre elas e puxo-as com a mesma força que usaria para extrair um dente carniceiro. Quando cedem, por fim, trazem atrás de si um repuxo de terra, que, em jacto inesperado me vem salpicar os olhos, antes de cair pesadamente sobre as minhas botas, originando um som semelhante a uma toalha tão ensopada como estaria se tivesse havido ruptura de uma artéria. Em prolongamento do esqueleto descarnado da minha mão direita, o ancinho, de dedos crispados, luta como uma arma impiedosa, até arrastar o que ainda resta da relva morta. É com esforço que tento manter a posição totalmente anti-ergonómica escolhida por alguns dos peregrinos que na adolescência via passar em frente ao colégio, a caminho de Fátima. Quando a terra fica pronta vou buscar a enxada para abrir quatro buracos desencontrados. Pego, um por um, em cada crisântemo, e viro os vasos ao contrário. A gravidade devolve-me, a cada vez, um novelo rígido de raízes para a mão, igual ao pé enfaixado e doloroso de um bonsai, uma miniatura quase igual a tudo o que acabei de arrancar. Ajoelho-me de novo, para aconchegar a terra e compactá-la, antes de me levantar. Ao olhar com alívio para o trabalho concluído, percebo finalmente porque, apesar de ajoelhadas, certas pessoas se recusam a rezar.


2.11.16

no reino de Hades


































































































a um homem morto

Eu vi morrer um homem e caminho
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me 
a café

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
Mistério de maresia ou de ninguém

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome


Ruy Belo/ Turismo
Boca Bilingue

José Tolentino Mendonça/ Uma coisa a menos para adorar
A Noite Abre Meus Olhos [poesia reunida] 

à noite

As osgas têm um eu? As plantas têm um eu apesar de não terem cérebro? 
E as pedras? O eu, um eu, o meu eu precisa de luz e de escuridão. 

Adília Lopes/ Poesia Reunida

Costa & Marcelo juntos e ao vivo

1.11.16

pão sem deus

Na esplanada junto à igreja, uma pequena pomba, vestida de cinzento banal e com um defeito numa pata, encontrou, sob uma das cadeiras, um pedaço de pão. Feliz com a descoberta, atirou-o ao ar depois da primeira bicada, tentando desfazê-lo para melhor o comer, e logo perdeu o lugar, pois um macho garboso, de penas claras, ao avistá-lo no zénite, imediatamente lho roubou. De peito feito, a arrolhar, começou a chamar o seu séquito, enquanto enxotava a pomba manca e a perseguia, à bicada. Surgiu então um trio esvoaçante de belas e jovens columbinas a atravessar o sol, que tombava já sobre os mármores imponentes da igreja, entre o qual ele passou a rodopiar, oferecendo pão a cada uma, alimentando-lhes a formosura. Mas por vezes, perdido em meneios de arlequim, errava a pontaria, e o pão disparava na direcção da primeira que o recuperara, como se de um jogo do ringue se tratasse. Mata, mata, atiçavam em gritinhos as outras, e ele investia sem convicção, mal disfarçando a indiferença. Nisto, levantou-se de uma das mesas uma mulher de nariz adunco como um bico curvo, seca como uma côdea velha, séria como uma pedra, e, perante a minha perplexidade, espezinhou com força o bocado que restava. E fê-lo uma e outra vez, até lhe saltarem migalhas da face amarrotada contra o passeio sujo, como se estivesse a apagar uma beata, pondo fim ao jogo. A primeira pomba voltou então, a coxear, e, confundindo-se com a calçada cinzenta, começou a comê-las, com avidez envergonhada.   

bruxedo



*Esta casa cheira a alho
 aqui mora um espantalho
 esta casa cheira a unto
 aqui mora um defunto*

 nesta casa cheira a bolos
 mas aqui só moram tolos
 nesta casa nada medra
 porque aqui só comem pedra