Atalhos de Campo


21.10.16

memória. curta # 26

Nunca me esqueci de um conselho dado a certa altura por um professor, numa das aulas de clínica: aquilo que parece, muitas vezes não é; aquilo que nos dizem os donos é importante, mas temos que analisar para confirmar, e sobretudo, quando subsistem dúvidas, partir do zero, usando todos os sentidos e toda a atenção, para concluirmos por nós próprios. E este conselho, aparentemente banal, ao repetir-se na minha memória como o refrão de uma música sempre nova e diferente, foi o responsável por ter conseguido salvar algumas vidas.   

Estava marcada uma eutanásia para o final das consultas daquele Sábado. Alguém telefonara a dizer que tinha um cão com ataques convulsivos repetidos, suspeito de tumor no cérebro. A resposta fora que qualquer eutanásia pressupunha uma consulta prévia ao animal em questão, visto não ter ficha clínica, e que, na sequência dessa consulta, o animal poderia vir a não ser eutanasiado. Vi um senhor inclinado sobre um cão, um Cocker spaniel azul ruão lindíssimo, e a auxiliar veio dizer-me que o dono, antes de entrar, pedira para lhe dar uma guloseima como despedida. Eu permaneci sentada à secretária, com a porta para a sala de espera aberta, observando comovida aquela imagem complacente do dono, num último gesto de ternura para com o seu companheiro. Mas com brevidade percebi que a figura masculina se ajoelhava ao lado do animal, e que tinha a mão entre os seus dentes, que a abocanhavam sem largar, num espasmo convulsivo. Levantei-me da secretária e corri para o ajudar. Ele gemia de dor, curvando-se cada vez mais sobre o corpo do cão, que deitado no chão, lhe apertava brutalmente os dedos, fixados entre os quatro caninos. E todas a minhas tentativas foram infrutíferas para lhe abrir a boca, ao ponto de ter pensado dar-lhe a injecção letal ali mesmo, para poder libertar a mão do proprietário. Quando a convulsão terminou, segundos depois, felizmente antes de ter consumado a minha intenção, pude verificar o estado deplorável em que fora deixada a mão altruísta, ao fazer-lhe um curativo. No chão da sala de espera reparei que ficara esquecido um pedaço de chocolate.

Comecei a consulta inquirindo sobre aquela última guloseima (que poderia de facto ter sido a última), e o pobre homem, ainda com fácies crispado de dor, respondeu que gostava muito de chocolate e que o partilhava vezes sem conta com a cadela. Quando eu lhe disse que um cão de 10 Kg podia morrer se comesse um chocolate de 250 g, começou a chorar ali mesmo. Expliquei-lhe que os cães não conseguem digerir o chocolate como nós, particularmente a teobromina, um dos seus componentes, que por isso se acumula no organismo, incluindo o cérebro, causando convulsões e outros problemas do foro neurológico. E que o efeito de pequenas quantidades oferecidas por muitas vezes, valem o mesmo que um chocolate inteiro, pelo seu efeito cumulativo. 

Valquíria não foi eutanasiada. Em vez disso fez um tratamento paliativo para a intoxicação por chocolate e foi proibida de alguma vez mais tocar nas guloseimas do dono, que isso sim, seria curativo. Afortunadamente a dentada que lhe dera não fizera ferida; nada que um pouco de gelo e um anti-inflamatório não pudessem resolver.   

8 comentários:

  1. Querida Teresinhamiga (III)

    A sorte da Valquíria foi ter ali mesmo ao lado uma veterinária profissional, sensível e competente. A estória esta muito bem contada; tão bem que ate parece feita por uma jornalista - quando havia jornalistas a sério... E eu posso dizê-lo porque também fui - e sou... - jornalista que nunca se reforma, nem aos 75 anos...

    Espero verte lá pela NOSSA TRAVESSA

    Qjs = queijinhos = beijinhos

    Henrique, o Leãozão

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    1. Caro Henrique,

      Que simpático, o seu comentário. Sabe que a minha mãe tinha o sonho de ser jornalista, e por vezes liga-me a dizer, falta-te ali uma vírgula, ou um "S", ou gostei muito. Um médico é como um jornalista, nunca se reforma. Eu não tenho 75 anos e resolvi mudar de vida, mas, tal como o Henrique, continuo a "exercer" a minha profissão, por todos os poros...
      Visitá-lo-ei em breve.

      Um abraço.

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  2. enquanto as pessoas nã entenderem que os cães e os gatos têm hábitos alimentares diferentes dos nossos, acho que deviam ficar pelos peixes... de imitação... com pilhas...

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    1. Experimentar primeiro num tamagotchi, talvez seja melhor :)
      Uma vez, já não me lembro em que filme foi, o conselho era: se nunca tiveste um animal, trata primeiro de uma planta; se tiveres êxito, então arranja um animal. As pessoas humanizam os animais e esquecem-se que eles ganham rapidamente os maus hábitos dos humanos... e alguns deles podem ser fatais, por puro desconhecimento.

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    1. Sim, ana, o desfecho seria sempre fatal, de uma forma ou de outra. :)

      Uma boa noite para ti.

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  4. Ohh! Coitadinho, ainda bem que se curou. O dono devia gostar de chocolate e queria, por desconhecimento, fazer o seu animal feliz. Entendo, de qualquer forma é preciso informarmo-nos do que é bom ou mau para eles. :)

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    1. É mesmo isso; então os gatos, que são ainda mais susceptíveis que os cães, e têm o hábito de mascar (e engolir!) coisas esquisitas. :)

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