Atalhos de Campo


28.10.16

médico e médicos

Poderá parecer estranho para muitos que, numa reunião
destinada a cantar os triunfos da moderna ciência
médica, eu tenha escolhido um tema tão cinzento na cor,
como sinistro no perfil e amargo no travo - o erro em
medicina. Far-me-ão a justiça de crer que não me moveu
um intuito moralista, ou que pretendo transmitir-vos o
segredo que nos permitiria praticar uma arte porventura
infalível, mas, talvez, sem alma. Só um político como
o príncipe Metternich para poder declarar «L'erreur n'a
jamais approché de mon esprit».

(...)


E não tenhamos ilusões: os médicos não têm amigos,
nem no governo nem nos meios de comunicação social.
Todos gostam muito do seu médico, mas a maioria não
gosta dos médicos.

João Lobo Antunes(4/6/1944 * 27/10/16) 
Um Modo de Ser*Sobre o erro

2 comentários:

  1. Devíamos, em todas as profissões, falar muito mais sobre os erros do que sobre os êxitos.

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    1. Concordo. Passar para os outros a nossa experiência com o erro é a melhor maneira de partilhar o conhecimento. Acontece muito entre colegas, mas partilhá-lo com o público é complicado. O livro de João Lobo Antunes, do qual tirei este trecho, é uma compilação de uma série de palestras dadas por ele em congressos e reuniões científicas, e só depois veio a público. As pessoas querem anestesiar-se com o êxito; querem acreditar, e nós também queremos que elas acreditem.
      Sou o mais possível a favor da partilha do erro: já aprendi muito com os meus, e também com os dos outros.

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