Atalhos de Campo


27.10.16

fontanário

Enquanto uma rapariga era praxada em grande algazarra, o homem sentado à minha frente bebia calmamente uma imperial, ignorando o chafariz onde tudo estava a acontecer. Parecia ter sido, também ele, cuidadosamente engomado ao mesmo tempo que a T-shirt preta, sem um vinco, que lhe acentuava a palidez: nem uma pequena onda no cabelo encanecido, nem a mais leve ruga lhe sobrara na testa inclinada onde a luz do fim da tarde viera pousar; e os olhos, pequenos, procuravam insistentemente o céu, que lhes devolvia um azul desbotado, por entre os espaços dos chapéus de sol da esplanada. Enquanto obrigavam a jovem caloira a mergulhar na água da fonte, chegou um amigo, que se sentou à mesa com ele. Conversavam baixo, em francês, mas não segredavam. Pareciam apenas não dar conta do bulício da cidade, como se estivessem no interior de uma cabine à prova de som. A rapariga foi obrigada a ajoelhar-se e a colocar-se de gatas, para que a madrinha se pudesse sentar nas suas costas, mas depois levantaram-se, abraçaram-se, e desapareceram por uma das ruas que dá acesso à praça, acompanhadas pela comitiva a cantar e a bater palmas, deixando o mármore em volta da fonte estranhamente molhado. Na mesa à minha frente, instalara-se entretanto aquilo que parecia ser um longo e intrigante monólogo. O homem caucasiano falava gesticulando com moderação, enquanto o outro, bastante moreno, de cabelo ondulado e grisalho, olhava atentamente, através de uns óculos de armações grossas em tartaruga, para um pequeno caderno de pontas encaracoladas e sujas, talvez por ter andado muitas vezes no bolso traseiro das calças. Dei comigo a pensar como era possível aquilo, como é que ele conseguia ler - porque voltava as páginas - enquanto o outro falava, quase sem parar. Só depois me apercebi de que as páginas eram viradas, apenas, durante algumas das curtas pausas no monólogo. Concluí maravilhada que o homem ensaiava ali mesmo, naquele fim de tarde magnífico, a declamação de um longo poema, e que não hesitara, sequer, uma única vez. Quando o caderno chegou ao fim dirigiu-se então ao amigo, num português arranhado, com o alívio de missão cumprida, e, quebrando o ritmo imposto com uma suave gargalhada, deu-lhe um pequeno murro de vitória no ombro. Anoitecia. Eu vestira o casaco e continuava a minha leitura disfarçada, à luz dos candeeiros acesos da rua.  

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