Atalhos de Campo


28.10.16

cérebro & cérbero

Um cão castanho, já velho, circulava sozinho pela praça. De peito decidido abria caminho por entre as pernas dos transeuntes, ao impulsionar o corpo para a frente, conseguindo disfarçar a rigidez dos membros posteriores, embora o movimento, quando observado no seu todo, lembrasse a oscilação de um pêndulo trôpego a precisar de lubrificação, balouçando entre os quadris em equilíbrio precário. Com a cabeça perdida num labirinto em curto-circuito, parava bruscamente junto àquilo que parecia ser a abertura de uma grande lacuna, semelhante, por exemplo, a ter-se esquecido de quem era o dono. Porém a coleira, de um amarelo fluorescente e demasiado comprida, com uma ponta que lhe pendia do pescoço pregueado, como se fosse o cachecol de um velho decadente e garrido, não deixava margem para dúvidas, e, ao tropeçar nela, a todos deixava prosseguir em paz. Na segunda volta à praça, parecia ter finalmente encontrado coisa, porque de súbito levantou o focinho (já muito branco), do chão, para ficar a cheirar o infinito, e fez uma inflexão inesperada na marcha titubeante, dirigindo-se lépido para o fontanário, apesar dos olhos vendados pelas cataratas. Com inusitada agilidade saltou para a borda da água - no exacto local de onde tinha acabado de sair uma rapariga - e começou a beber sofregamente. O sofrimento causado por aquela tarde demasiado quente, fora um forte estímulo que se lhe alojara, directo, no centro da sede.

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