Atalhos de Campo


17.10.16

brincos-de-princesa

O velho senhor trazia entre as mãos trémulas um saco de plástico, que me entregou, dizendo com algum embaraço: - A A. manda-lhe isto porque sabe que gosta de plantas... Aceitei, e, curiosa, abri ligeiramente o pequeno invólucro, algo amassado pela viagem, para poder ver. - Ah, muito obrigada! O que é? Não consigo reconhecer... - São estacas de brincos-de-princesa, dão umas flores muito bonitas, respondeu-me com um sorriso simpático. Afinal sei, respondi-lhe, são de facto plantas muito decorativas, vou já tratar de as pôr dentro de água, senão morrem, com este calor... 

Agosto não é o mês mais propício para a sobrevivência de uma planta tão em esquisso, sem nenhuma raiz, ainda por cima no Alentejo, por isso apressei-me a colocar água dentro do saco, pus o saco dentro de um recipiente com mais água, e deixei tudo sobre um dos bancos exteriores da entrada, sem saber muito bem o que fazer. Mas a temperatura era abrasadora, e quando olhei para as estacas, ao princípio da noite, e as vi desidratadas, resolvi pegar no conjunto e colocá-lo por baixo do armário do lavabo social, um local bem mais fresco, e quem sabe, também, para me libertar, ainda que momentaneamente, da obrigação de as colocar logo. Porém, com a casa cheia de gente, confesso que me esqueci delas, para me lembrar, apenas, ao sentir o primeiro golpe de culpa e a seguir a estocada do remorso, mal as voltei a espreitar e dei com elas secas e algo enegrecidas, e, ainda, passados mais cinco dias, quando, ao despedir-me da minha visita, que me perguntou se sempre tinha gostado dos brincos-de-princesa, a humilhação da vergonha, ao responder, ruborizando, que sim, vamos ver se lhes encontro um sítio bonito, onde consigam sobreviver a estas temperaturas, e depois às geadas... Parece-me que as princesas não foram feitas lá muito a pensar nestes climas, tão desabridos. 

Culpei o clima, com o maior descaramento. O certo é que o senhor partira sem as estacas terem sido colocadas na terra. Quando as voltei a ver, estavam como eu calculava: miseráveis, e a maior parte dos ramos mais finos definitivamente perdida. Mas havia dois, dos maiores, que senti que ainda poderia aproveitar. Limpei-os das folhas secas e do excesso de ramificações, e espetei-os na terra de um vaso, alimentando uma réstia de esperança. Passei a observá-los diariamente e a regá-los com alguma frequência, tentando ganhar agora o tempo que perdera. Nada. Mas ao fim de um mês, sempre a insistir nos cuidados, pareceu-me que em dois dos nós, de uma das estacas, começavam finalmente a despontar uns gomos verdes; na outra persistia a dúvida. Hoje fiquei convencida: numa delas já começaram a surgir várias folhas, embora muito pequenas; a outra tem um gomo em início. 

Na próxima Primavera talvez haja princesas com brincos, mas presentemente o que me preocupa é não decepcionar aquela pessoa, e mostrar-lhe, já na próxima vinda, que dei atenção ao testemunho que tão delicadamente me passou para as mãos, naquele dia tórrido de Verão, acreditando em mim ao presentear-me com um esboço, para que eu tivesse oportunidade, talvez, de o aperfeiçoar.         

4 comentários:

  1. adoro brincos-de-princesa.
    quando era miúda punha-os nas orelhas a pender e sentia-me tão especial!

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    1. E continuas, Laura, a ser muito especial. Talvez não se chamem brincos-de-princesa em vão...

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  2. São lindos... Há um canteiro deles (da minha prima), aqui mesmo em frente de minha casa.

    Acredito que esses daí, no Alentejo, vão vingar. :)

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