Atalhos de Campo


6.10.16

A Missa

Fui assistir ontem, no Grande Auditório da Gulbenkian, à maravilhosa Missa em Si menor(BWV 232) de Bach, a missa que há quase cinco anos mudou o curso da minha vida. Quando acordei na manhã do dia doze de Outubro de 2011 não tinha sequer a mais leve suspeita de como um pequeno impedimento nessa noite poderia vir a interferir no meu futuro. A minha mãe, que eu convidara para assistir ao concerto comigo, ligara-me desolada para me dizer que afinal só chegava a Lisboa no dia seguinte, e eu ficava de repente com um bilhete a mais, a escassas horas da audição. Tentei lembrar-me de vários amigos que gostassem de Bach, sem nenhuma convicção de arranjar companhia. Comecei por telefonar àquele que seria menos provável aceitar, por viver longe. Aceitou imediatamente. A missa que fora tão milagrosa que me fizera mudar radicalmente de vida, a ponto de em 2013 optar por passar a viver no campo, merecia sem dúvida um encore. Caminhava portanto para a entrada da Gulbenkian como se me dirigisse a um santuário, porventura à espera de novo milagre. Ao entrar na sala, o impacto do magnífico jardim iluminado, integrado pela enorme parede de vidro ao fundo, era, também ele, um hino em si; depois começaram a chegar muitos dos já nossos conhecidos músicos, e certamente também bastantes de entre os sessenta e um membros do antigo coro, que foram tomando os seus lugares; quem sabe, de igual modo, alguns dos espectadores de há cinco anos, como eu, como tu, que esperávamos ansiosos pelo mesmo maestro, Michel Corboz. A ovação de uma sala cheia. Os libretos a abrirem as asas ao longe como gaivotas, a comoção do voo além das árvores, a exultação, das mãos para a voz dos cantores. Aos primeiros acordes, percebi que esta missa, com quase três séculos, me trazia de novo algo decisivo, e prodigioso. Na minha vida surgira entretanto um pequeno anjo, e era esse anjo que pairava ontem ali, sobre a minha cabeça, com o extraordinário poder redentor de uma ressuscitação.

Et resurrexit tertia die

14 comentários:

  1. Que o anjo te proteja, Teresa!

    Beijos :)

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    1. Estava a ler-te neste preciso momento, Maria.

      Obrigada; beijos também. :)

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    1. Gosto muito das "minha" Maria ana: :)

      Boa noite, ana.
      Obrigada

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  3. Ter um anjo, assim, é por certo maravilhoso.

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    1. Um verdadeiro anjo de quatro meses, que ri a olhar para mim. :)

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    1. Então conto-te uma coisa que se passou ontem, e que quase deu um post. O meu filho chamava Cuca, Cuca, Cuca, à filha, a brincar com ela, e eu perguntei-lhe: Então a Constança vai acabar por ser Cuca? Resposta: Cuca, a pirata!
      :)

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  5. Os anjos têm o poder de alegrar os nossos dias :)

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  6. como assim "Cuca"???!!!! toda a gente sabe que o diminutivo de Constança é FLOR!

    fazfavordecorrigiroseupiqueno!


    (quase nos encontrávamos. quem sabe numa próxima :)

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    1. Como é que adivinhou que ela é uma flor, tia? :)

      (nãosebriguemagorastopprecisamosdetodasprapoiaromovimentoblogmulheresaopoder!)

      [quem sabe; temos que combinar um encontro secreto :)]

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  7. que é isso das mulheres ao poder?

    (nã entendo como há pessoas inertes, imunes, insensíveis a Bach!)

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    1. coisas cá nossas... :)

      Esta Missa é fabulosa. A última obra de Bach, concluiu-a já cego.

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