Atalhos de Campo


3.10.16

A ilusão de salvar

Já tive a convicção de estar a salvar vidas. E salvei, por profissão. Também já salvei sem estar a trabalhar, sem um horário para socorrer, tratar, curar. Acudir um passarinho, conseguir retirá-lo da boca de um gato e vê-lo logo a seguir a cantar num galho próximo; espantar a caça a um cão que não precisa de andar a caçar para estar bem alimentado; resgatar um ratinho exausto da piscina, ou mesmo um sapo, que procurou refrescar-se nos dias tórridos, mas que jamais conseguirá encontrar a saída, morrendo estupidamente; libertar uma borboleta, ou um gafanhoto, ou um grilo, que tenham entrado inadvertidamente em casa, são alguns exemplos de situações que colidem comigo e me premeiam, sem eu estar à espera. Com outras, tive apenas a ilusão de salvar: os pardais de caíram do ninho, ainda sem penas, e que eu alimentei e soltei já no estado adulto; o borracho de rola-turca que jazia no chão de um dia frio, de pele quase nua, ao lado do irmão morto, atirados pelo gato do alto de um pinheiro, e que hoje é uma bela ave que voa pela casa; o coelho bravo com um mês, que vinha cheio de carraças e que se retirou ainda ileso da boca de um dos gatos. Todos estes animais têm, ou terão no futuro, quando libertados, muito poucas hipóteses de sobreviver. Resta-lhes o cativeiro, ou a morte ao virar da primeira esquina, e digo isto com uma percentagem mínima de erro. 

Salvar um animal silvestre é conseguir devolver-lhe o mais depressa possível, senão imediatamente, a liberdade. Quando o homem supõe que salva um animal, ao livrá-lo da implacável máquina da cadeia de onde o resgatou, e o consegue alimentar mimetizando os pais, o protege para adiar riscos, o domestica, não está, de facto, a salvar, mas apenas a protelar-lhe a morte, quando, convencido disso, o introduz de novo, mais à frente, no carrossel alimentar a que ele pertence e de onde, por infortúnio, saiu. Na natureza, tudo aquilo que não tem capacidade imediata (ou quase) para sobreviver em liberdade, é porque já está morto. 

4 comentários:

  1. O que a Teresa quer dizer é que para palpar as intimidades da natureza não basta ter umas mãos delicadas? Se é isso, não podia estar mais de acordo.

    Um abraço.

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    1. Uma possível conclusão, essa sua, e certeira, sem dúvida. As mãos, a cabeça, o coração: um tríptico.

      Um abraço.

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  2. uma vez salvei uma borboleta para ser imediatamente engolida por uma alvéola... se nã tivesse escorraçado a borboleta, ela nã tinha morrido naquele preciso instante, mas morreria muito em breve, sem fazer parte da cadeia alimentar daquela alvéola... os nossos actos de salvamento são insignificantes perante a capacidade de criação e destruição da natureza, atrevo-me a pensar que a própria natureza nos dá essa esmola do salvamento para aliviar os nossos espíritos...

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    1. Nesse caso apenas se acelerou um processo natural; poderias não ter presenciado e ficarias com outra ideia. Foi um salvamento azarado. Também acontece. O meu problema é mais filosófico do que outra coisa. Continuarei a "salvar" sempre que puder, mas sei perfeitamente que onde o homem põe a mão tudo muda e se desvia do seu curso natural; que, por exemplo, um pássaro que é facilmente atirado de um ninho abaixo é porque a mãe não foi suficientemente cautelosa para fazer um ninho num sítio mais seguro, e foi ali que começou verdadeiramente a selecção natural. Salvei-o? E agora o que faço? Ele não tem medo dos predadores, deita-se ao lado do cão a apanhar sol. Coloco-o lá fora para que tenha liberdade e seja caçado mal pouse no chão a primeira vez? Apontar o dedo a alguém por tentar proteger aquilo que salvou parece-me injusto. Sei que dediquei muito do meu tempo a tratar destas aves; sei que nada faria que me afastasse delas enquanto dependessem 100% de mim. Tinha um compromisso. Agora continuo a ter.
      Obrigada, Manel.

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