Atalhos de Campo


20.9.16

vozes

Terceira Voz:
(...)
Aqui estão as roupas de uma mulher gorda que não conheço.
Aqui está o meu pente e a minha escova. Aqui está um vazio.
De repente sinto-me tão vulnerável.
Sou uma ferida aberta que caminha para fora do hospital.
Sou uma ferida aberta que eles deixam passar.
Deixo aqui a minha vitalidade. Deixo alguém
Que se colaria a mim: arranco de mim os seus dedos como adesivos. E saio.

Segunda Voz:

Não sou feia. Talvez seja mesmo bela.
O espelho devolve-me uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras entregam-me as minhas roupas,
É normal, dizem elas, que estas coisas aconteçam.
Aconteceu na minha vida e na de outros.
Sou um caso em cinco, ou algo assim. Não sou um caso perdido.
Sou bela como estatística. Aqui está o meu bâton.

Primeira Voz:
(...)
Estou calma. Estou calma.
Estas são as cores claras e alegres do quarto das crianças,
Os patinhos que falam, os cordeirinhos risonhos.
Voltei a ser simples. Acredito em milagres.
Não acredito nessas terríveis crianças
Que me atormentam os sonhos com os seus olhos em
 branco, as suas mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Meditarei sobre a normalidade.
Meditarei sobre o meu filhinho.
Não anda. Não diz ainda uma palavra.
Está ainda enfaixado de branco
Mas é rosado e perfeito. E sorri frequentemente.
Decorei o seu quarto com grandes rosas,
Pintei coraçõezinhos por toda a parte.
(...)

Sylvia Plath 
Três Mulheres*Poema a três vozes

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