Atalhos de Campo


3.9.16

Miúda Gira # repost 14

Conheci-te numa insónia (aliás conhecemos-te), porque é relativamente vulgar ter insónias, eu pelo menos lido com elas desde os dezoito anos. Portanto nós conhecemos-te. Não sei o que aconteceu com as outras mulheres, se nunca mais se lembraram de ti, mas eu seguramente nunca mais me consegui esquecer. Ao princípio estive quase para mudar de canal, mas parecias-te tanto com uma amiga minha, isto é, a tua fotografia de antes, que fiquei ainda com menos sono a ouvir-te. 

Era como se tivesses sido tu a entrar no restaurante onde de vez em quando almoçávamos, vi-te a atravessar a rua de saia vermelha justa, de saltos altos, de camisa de seda natural, tão elegante que eras um quase acidente. Sentaste-te à minha frente com um sorriso radioso de felicidade, e ainda antes de pedirmos fosse o que fosse já me estavas a contar as novidades. Havia um novo ele, verdadeiramente novo porque era de facto mais novo do que tu, uma lufada de ar fresco na tua vida, um homem alto, inteligente e simpático, disseste-me enquanto me mostravas a fotografia, e eu confirmava. Iam sair nessa noite, assistir a uma passagem de modelos e depois jantar, e a seguir quem sabe o que pode acontecer, a minha mãe já me disse para me portar bem, mas eu quero é portar-me mal, há imenso tempo que não conheço ninguém tão interessado em mim, vai esperar-me todos os dias ao escritório, telefona-me vezes sem conta, manda-me ramos de flores lindas, todas as manhãs acordo com uma mensagem maravilhosa, já lá vão quase três meses, há três meses que me sinto no céu, apaixonadíssima. Lembras-te daqueles postais da Happy, quando nos divertíamos a tentar encaixar num tipo de miúda - e nenhuma delas nos serviu porque havia sempre alguma coisa que não batia certo - olha, eu hoje escolhia a frase mais provocatória de cada um e fazia um postal novo, todo branco mas saído da casca, que é do que eu preciso - dizia-me à sobremesa.

Devagar destapaste a cara, afastaste o lenço branco que te cobria o rosto. O lado esquerdo tinha desaparecido, o sorriso tinha sido arrancado, e estavas cega. Não havia emoção especial na tua voz, mas eras uma bandeira branca a visitar o mundo, dizias-nos para não confundirmos perseguição com interesse, ameaça com ciúme, posse com amor; que  não sentíssemos culpa pela primeira bofetada, que logo outras se seguiriam sem nenhuma razão, que detectássemos rapidamente estes sintomas, que não deixássemos entrar ninguém assim nas nossas vidas. 

Aquilo que o encantara foi motivo para as primeiras discussões, começou por declarar guerra às saias justas, depois ao vermelho, por fim  aos saltos altos; em vez de frases românticas, apareciam palavras obscenas a cobrir o ecrã do telemóvel e depois das perseguições, proibições e sequestros, vieram as ameaças de morte. Um dia telefonou-te e disse-te, tens aí um homem em casa!, tu respondeste-lhe que era a tua mãe, ele disse-te que mentias, que ia entrar e te ia matar. Quando conseguiu entrar, alvejou primeiro a tua mãe, que morreu, e depois, depois deu-te esse tiro, na cara. 

Há muitos anos que não sei de ti, embora te tenha procurado; não sei se continuas a tua cruzada ou se desististe, mas a minha amiga salvou-se, nós salvámo-nos, por causa dessa tua bandeira branca, na nossa noite em branco.

A Carolyn Thomas

Nota: Este texto foi inspirado num caso verídico apresentado por Oprah Winfrey num programa a que assisti numa noite de insónia. Anos mais tarde consegui finalmente identificar a minha heroína, Carolyn Thomas. 

Publicado a 23/7/2014



Já passou tanto tempo que ainda não se falava levianamente no burkini; que ainda esta semana não haviam sido mortas mais duas mulheres, por violência doméstica. (3/9/2016)

4 comentários:

  1. Dói, esta absurda violência. Dói, todo o tipo de violência.

    Beijos, Teresa :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É, Maria, e 2016 não melhorou nada em nenhum tipo de violência.

      Beijos, Maria :) Bom fim-de-semana para ti.

      Eliminar
  2. conheço alguns casos muito parecidos, em que o marido ou namorado ideal num repente passa a controlador... já disse até em textos que o simples segurar pelo pulso entre casais me causa confusão... mas tb sei que tentar abordar mulheres para as despertar do sonho apaixonado é impossível... elas são as primeiras a achar que toda a gente tem ciumes do maravilhoso relacionamento... digo sempre que é bom duvidar das pessoas perfeitas, e o gene y é um perigo muitas vezes camuflado de presentes e palavras bonitas. Liguem à policia, peçam ajuda a um familiar ou amigo de confiança, contratem um cigano se for preciso, esses indivíduos merecem pena máxima.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. e tolerância zero. Mas há muitas situações camufladas por medo. A denúncia pela vítima, que é muitas vezes tardia e desesperada, pode precipitar o desfecho. É terrível. Esta mulher, que ficou horrivelmente mutilada e foi operada mais de vinte vezes para reconstrução facial, tem sido um emblema pela luta contra a violência contra as mulheres. Que melhor exemplo que este, de um rosto desfigurado a dar uma palestra numa faculdade, e cuja mãe foi morta porque sim, para se perceber do perigo bem real destes relacionamentos. Há um ditado que diz, " entre marido e mulher, não metas a colher", mas a denúncia precoce, anónima que seja, e o medo dessa denúncia por quem pratica esses actos e represálias, poderia ser bem mais coerciva do que uma queixa aflita e pontual. Somos todos cobardes quando fechamos os olhos.

      Obrigada, Manel, pelo teu depoimento.

      Eliminar