Atalhos de Campo


30.9.16

memória. curta # 25

Encontrando alguém na rua, atropelado ou a claudicar severamente, estendido num banco com febre ou a vomitar, ninguém se lembraria de olhar em volta à procura da primeira placa com o nome de um médico e entrar de rompante pela sala de espera dizendo: - Encontrei esta pessoa em dificuldades, não tem dinheiro, cuidem dela. Gostam de pessoas, não gostam? 

À primeira vista parece absurdo, mas não é. Acontece muito aos veterinários. Na minha vida profissional sempre reservei uma parte do meu tempo para atender em voluntariado. Aderi a campanhas de esterilização, colaborei com organizações de defesa dos animais, mas, sobretudo, apoiei os proprietários da vizinhança que tinham menos posses. Tive sempre uma porta aberta para casos especiais, mas nunca gostei que me obrigassem a fazê-lo; ou não seria voluntariado. E nunca fui fundamentalista.

Era um gato de rua, grande, tigrado, com um focinho bicudo e algo arrebitado, o que fizera com que a senhora que lhe dava comida lhe chamasse Pinóquio. Certo dia, o Pinóquio apareceu muito debilitado, com aquilo que suspeitei ser uma pneumonia. Mas não era nada manso e a D. Benta chegara a arfar, não só por lhe ter sido difícil apanhá-lo, mas também por carregar com ele a pé, pelas ruas do bairro. Inexplicavelmente ou não, (porque estava de facto muito doente), o Pinóquio portou-se bem quando lhe injectei o antibiótico, o que fez com que a D. Benta, habitualmente séria, me presenteasse com um sorriso, embora módico. Levou antibiótico para misturar na comida, aconselhei-a a mantê-lo dentro de uma casa durante uns dias, e o Pinóquio ficou curado. 

Olhando para ela agora, com o olhar peneirado pelo tempo, poderia dizer que D. Benta era uma espécie de Madre Teresa de Calcutá dos gatos. De pequena estatura, bastante magra, morena de olhar corajoso e invasivo, andava pelas ruas a caçar desgraças felinas e a todas tentava estoicamente socorrer. Para isso usava de uma vontade férrea, de uma teimosia e de uma resiliência únicas, de uma habilidade coerciva. Da mesma forma que angariava fundos, seleccionava beneméritos, colaboradores, ou simples vítimas. E eu, claro, acabei, como muitas outras pessoas, por ser uma das suas vítimas.

No ano seguinte o Pinóquio voltou. Esqueci-me de contar que o olhar da D. Benta não era para graças. Amarinhava por mim acima com se tivesse garras, entrava-me pelos olhos e tentava devassar-me o pensamento, enquanto a maioria das vezes as suas palavras me arranhavam o cérebro, ou então, quando queria que lhe desse alguma coisa, empinava a voz e como que me dava pequenas turras, interesseiras, que podiam muito bem acabar numa patada. Desta vez o gato estava activo, tinha engordado, e, pior que tudo, pareceu-me assanhado. Passei-o para uma jaula de contenção para o poder observar, enquanto ia dizendo à D. Benta que ele parecia estar perfeitamente saudável. Mas ela insistia que não, que o pobrezinho estava muito doente. Contrariada, abri ligeiramente a tampa da jaula para o tentar auscultar. Imediatamente deu um pulo cá para fora e voltou-se contra mim, a assoprar. Mal me tentei aproximar começou a dar saltos em todas as direcções, subindo e descendo das bancadas, sobre as quais patinava deitando tudo ao chão e, já completamente desorientado, tentava nelas firmar saltos para as paredes, pendurando-se nos quadros que balouçavam, riscando os aparelhos ao escorregar por eles. Perante a minha incrédula estupefacção, a doença tinha-lhe instalado molas nas patas - e asas! -, pois voou de seguida, aos uivos, e pendurou-se no estore do lado oposto, subindo por ele, deslizando e subindo de novo, até cair sobre a secretária e derrubar o telefone, e exausto correr ainda de cauda entufada, para se ir refugiar por trás do fax, sobre o qual urinou. Fez-se silêncio. Estávamos amedrontadas a um canto. De súbito, o espectáculo da devastação surgia aos nossos olhos em toda a sua plenitude: o estore, irrecuperável, fazia foles, deixando entrar a luz pelo que pareciam várias bocas descaídas, havia papéis e material espalhado por todo o lado, frascos partidos, cadeiras derrubadas.

Quando finalmente consegui recuperar a voz e arrumar os pensamentos em linha recta, disse: - D. Benta, a senhora agora vai fazer o favor de apanhar o gatinho. Pode voltar a soltá-lo lá onde ele vive feliz, à minha responsabilidade. A clínica vai fechar para pôr isto tudo em ordem; como se percebe pelo que aqui está feito, durante o resto da manhã não poderá haver consultas. O estore é para cortar junto à calha e deitar no lixo, disse, virando-me para a auxiliar. E ah!, a senhora não me deve nada, mas não volte cá com o Pinóquio quando ele não estiver doente. 

2 comentários:

  1. se tratar pessoas é complicado, gatos indomáveis nem imagino :)

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    1. felizmente que só houve este incidente; a grande maioria dos gatos portava-se melhor que os cães.
      confesso que sempre achei alguma graça a animais com temperamento, q.b.
      :)

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