Atalhos de Campo


9.9.16

memória. curta # 24

De todas as cirurgias é a cesariana a única em que se pode salvar mais do que uma vida ao mesmo tempo. Talvez por isso foi sempre aquela que eu mais gostei de fazer. É também das mais urgentes, pode acontecer quando menos se espera, por exemplo ao fim de um dia de trabalho, quando toca o telefone mesmo antes de se apagarem as luzes e de se fechar a porta com rapidez, nem que seja para enfrentar um temporal desfeito.

O telefonema era por causa da Chica. Já tenho comigo o relatório da ecografia, doutora Teresa. Os cachorros estavam bem esta manhã, mas fui avisado que um deles é grande e pode dar problemas. Ela está muito instável desde o meio desta tarde, mas, nem sinais de parto ... - dizia-me o dono, nervoso, ao telefone - Estou com medo da noite. Se houver algum problema, o que faço? Esta é a pergunta crucial que nos fazem ao anoitecer. Não podia dizer-lhe que procurasse um hospital veterinário porque tinha sido eu a acompanhar toda a gravidez da cadelita, extremamente mimada por sinal, o que não ajuda muito nestas situações. Ainda me lembro que o pai da ninhada, cão pequeno e castiço, Fadista não só de nome - conhecimento feito por conversa dos donos entre alçares de perna - era vizinho três números abaixo do palacete da Lapa onde vivia a Francisca, pintados sobre uma porta baixa e estreita, em alumínio castanho.

Ao fazer o toque verifiquei que o cachorro maior se tinha adiantado e que nunca conseguiria sair devido ao tamanho da cabeça, nem deixaria nascer os outros dois. Chamei uma enfermeira para me ajudar. O dono foi aconselhado a ir jantar e desapareceu no dilúvio iluminado pelos candeeiros da cidade. Eu e a auxiliar fomos preparando a sala. Quando a enfermeira chegou já tinha as luvas calçadas e a lâmina colocada no bisturi. À incisão linear, a pele afastou-se para deixar ver a linha branca, que é o segmento de recta com que Deus fechou sem sangue todos os abdómenes. Vencida essa segunda linha, a que não sangra, apareceu o útero como uma bolsa enorme, a pulsar na cavidade abdominal. Em concentração absoluta e com a anestesia bem controlada era preciso escolher depressa o local para a terceira e última incisão, evitando os maiores vasos de superfície. Os dedos entraram pelo diminuto corte para dentro do corno uterino e procuraram um objecto, que traccionaram com a leveza e precisão de pinças versáteis e delicadas que são, até aparecer à luz o primeiro cachorro. Como se o mundo se resumisse ao que estava sob aquele intenso foco, reparo através do saco vitelino que ele é malhado de preto e branco, e, sobretudo, que mexe. Sinto-o a ocupar a minha mão, ainda tenso, agarrado ao útero da mãe. Abro rápido o invólucro,  puxo ligeiramente mais junto ao útero, a placenta solta-se como uma ventosa que teima em deixar uma ferida que sangra, passo-o à enfermeira que lhe desimpede a boca de secreções e lhe coloca uma pinça no cordão  umbilical antes de o cortar, e que o entrega à auxiliar, que rapidamente começa a reanimação, massajando o tórax com uma toalha turca até se ouvir chiar; acto contínuo a enfermeira entende-me as mãos para receber nelas o cachorro seguinte. 

Entrego a Francisca já acordada ao dono ansioso, que recebe as três crias à parte, resguardadas num saco de transporte próprio. Reunimo-nos todos em volta da marquesa enquanto lhe vou dando as últimas recomendações perante a luz fatigada do tecto. Quando por fim ficámos só as três e nos entreolhámos cúmplices, ficou um tal brilho de felicidade no ar que conseguia vencer até o som da chuva mais forte. Lá fora sob o toldo, descomprimindo, enfileiradas à espera da mínima aberta para dispersarmos, de súbito começámos a correr cada uma para seu lado, despedindo-nos em gritos que se ficaram a ouvir por entre a chuva gelada. 

Passa das dez e meia da noite quando entro no restaurante. Dizem-me que sim, que posso jantar. Acho que ainda hoje preciso daquele bife.  

6 comentários:

  1. a Teresa é o meu amor platónico.

    (e que carta de amor tão bela, esta)

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    1. pode ser! gosto disso pelos bichos :)

      é uma carta de amor, sim, com a resposta mais maravilhosa que já recebi: ver respirar :)

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  2. Fico encantada com estas histórias, eu que nunca conseguiria ter essa admirável profissão. :)

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    1. Obrigada, luisa. Eu desde muito pequena que sonhava tratar de animais. Agora parei, há já três anos, mas escrevê-las faz-me ter saudades. :)

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  3. Fascina-me quem salva vidas. Bem hajas Teresa :)

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    1. Obrigada, GM. Agora dedico-me aos que encontro por aqui. :)

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