Atalhos de Campo


22.9.16

As músicas que eu ouvia # 3



Tinha dez anos, quase onze, quando ouvi esta música pela primeira vez. Deslumbrei-me, dancei-a e cantei-a. Estávamos em Portugal, em casa dos meus avós, no centro do país. A minha mãe ia a Lisboa e perguntou-me o que é que eu queria que me trouxesse. Mãe, eu gosto muito de uma música que ouvi no rádio, é o Fire, adoro, só quero isso. Não conheço, disse-me a minha mãe, mas que nome estranho para uma música, não queres antes qualquer coisa dos Beatles? Não mãe, eu agora gosto do Fire, respondi com um gesto implorativo, please! Foi mais ou menos por essa altura que comecei a usar um anel que tinha uma caveira com os olhos pintados de vermelho e quis trocar o meu velho relógio clássico por um enorme, de mostrador negro, ponteiros amarelos e números às cores, talvez um precursor do maravilhoso Frank Muller, que anos mais tarde vi no pulso de uma amiga minha. Digamos que passei do estilo românico para o estilo gótico num abrir e fechar de olhos (vá lá que não pedi também uma sombra negra para os pintar). Fiquei sem dormir de expectativa, mas o certo é que a minha mãe, jogando muito pelo seguro, me trouxe isto, perante a minha horrível decepção:



Oh!... a banda sonora do Goodbye Mr. ... Chips..., mãe?! Minha querida, aquilo é horrível, são só gritos, um inferno, pensei que tinhas gostado do filme... O desalento deixou escorregar uma lágrima, e foi nesse mesmo dia que decidi passar a odiar musicais. As labaredas do Fire tinham sido apagadas - mas não extintas - e substituídas com desafogo pelo rescaldo da voz de Petula Clark, que fumegava uma qualquer canção, de amor é certo, mas para velhinhos iguais aos do filme sensaborão que estava na altura em cartaz; nem Peter O'Toole escapava. O disco ficou por ouvir e eu continuei durante muito tempo a suspirar por arder naquele fogo ainda desconhecido, que desejava e ao mesmo tempo temia. 

É o primeiro dia de Outono. Por alguma razão (certamente equinocial), tentei encontrar a música que me ateou a adolescência e que nunca mais tinha ouvido. Ao ouvi-la de novo, confesso, fiquei abismada com a minha precocidade: havia ali, em mim, um ramo ectópico que tinha sido necessário podar.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. tive qualquer coisa, ana, mas esmoreceu... acho que a culpa foi da Petula Clark.
      agora nem no Halloween :)

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  2. Vou evitar a Petula depois de ter ouvido o Fire... a adolescência é um tempo difícil, às vezes parece que ainda estou a viver nesse tempo... na idade média...
    gostei pra lá de tanto do que escreveste :)

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    1. Fazes bem, a Petula fez parte do processo de co-incineração :) (até a minha mãe confessou que já não se pode ouvir... ). A adolescência é um lugar estranho que coabita connosco; faz parte da história pregressa.
      Obrigada, Manel.

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