Ali, naquela quinta, viveu uma mulher que raramente saía. Consta que desistira do mundo, dos amigos, das cidades, das modas, de ganhar dinheiro com a profissão. De manhã, subia para uma pequena pianha de granito, equilibrava-se nela para poder acenar para a estrada, com o seu longo braço levantado à espera de uma buzinadela como resposta, que por vezes tardava, e vinha já sobre a curva. Ou o gesto ficava suspenso, ignorado pelo som que não chegava. Só então descia, e, caminhando de pés nus sobre a calçada de pedra, se dirigia a uma porta, para penetrar num prolongado silêncio. Dedicava-se às flores, aos animais, à organização da casa, diziam. Da sua vida pessoal pouco se sabia. Quem a visse aparecer ao longe, com uma braçada de flores silvestres, pensaria numa eterna noiva do campo. Quem a visse a dar às vacas as flores que colhera, a acariciar os borregos, ou rodeada de galinhas a comerem milho ao fim da tarde, pensaria que ela era uma noiva que fugira de um quadro de Chagall. Dizia-se que de noite levitava no azul iluminado do céu, que a sua sombra se projectava na lua, que as estrelas cadentes se lhe prendiam ao cabelo, que se mantinha ali porque estava enfeitiçada por aquele lugar. Sussurrava-se que fora casada uma vez, há muitos anos, com a luz de Setembro, e que um dia esperara pelo fim do sol, no último dia desse mês, para nele desaparecer.
Há uma noiva de Chagall em cada um de nós.
ResponderEliminarTambém acho, as noivas de Chagall são as mais bonitas. :)
Eliminartambém quero uma :)
ResponderEliminarcostumam voar (com os noivos, claro)
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no entanto, setembro é muito mais do que um mês, e adivinhando as suas intenções, resolveu não acabar, e deixou que o verão se prolongasse pelo outono dentro, para que a mulher voltasse todos os dias à pianha de granito, e entendesse que há formas de acenar, sem gestos, sem palavras, sem espaço, sem tempo.
ResponderEliminara mulher vivia setembro no outono, agosto no outono, março no outono; outubro era o seu mês e setembro o último mês que passara com a mãe. e todos os dias regressava à pianha e acenava à primavera, e acenava ao verão, mas já ninguém a via, tornara-se invisível, anacrónica, patética.
Eliminarque aceno lindo este teu, ana; só tu sabes acenar assim.
fica a perder, é quem não vê uma mulher que acena às estações :)
ResponderEliminarhttps://www.youtube.com/watch?v=XTGdeGY2YRU
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