Atalhos de Campo


27.9.16

a noiva de Chagall

Ali, naquela quinta, viveu uma mulher que raramente saía. Consta que desistira do mundo, dos amigos, das cidades, das modas, de ganhar dinheiro com a profissão. De manhã, subia para uma pequena pianha de granito, equilibrava-se nela para poder acenar para a estrada, com o seu longo braço levantado à espera de uma buzinadela como resposta, que por vezes tardava, e vinha já sobre a curva. Ou o gesto ficava suspenso, ignorado pelo som que não chegava. Só então descia, e, caminhando de pés nus sobre a calçada de pedra, se dirigia a uma porta, para penetrar num prolongado silêncio. Dedicava-se às flores, aos animais, à organização da casa, diziam. Da sua vida pessoal pouco se sabia. Quem a visse aparecer ao longe, com uma braçada de flores silvestres, pensaria numa eterna noiva do campo. Quem a visse a dar às vacas as flores que colhera, a acariciar os borregos, ou rodeada de galinhas a comerem milho ao fim da tarde, pensaria que ela era uma noiva que fugira de um quadro de Chagall. Dizia-se que de noite levitava no azul iluminado do céu, que a sua sombra se projectava na lua, que as estrelas cadentes se lhe prendiam ao cabelo, que se mantinha ali porque estava enfeitiçada por aquele lugar. Sussurrava-se que fora casada uma vez, há muitos anos, com a luz de Setembro, e que um dia esperara pelo fim do sol, no último dia desse mês, para nele desaparecer.

8 comentários:

  1. Há uma noiva de Chagall em cada um de nós.

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    1. Também acho, as noivas de Chagall são as mais bonitas. :)

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  2. no entanto, setembro é muito mais do que um mês, e adivinhando as suas intenções, resolveu não acabar, e deixou que o verão se prolongasse pelo outono dentro, para que a mulher voltasse todos os dias à pianha de granito, e entendesse que há formas de acenar, sem gestos, sem palavras, sem espaço, sem tempo.

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    1. a mulher vivia setembro no outono, agosto no outono, março no outono; outubro era o seu mês e setembro o último mês que passara com a mãe. e todos os dias regressava à pianha e acenava à primavera, e acenava ao verão, mas já ninguém a via, tornara-se invisível, anacrónica, patética.

      que aceno lindo este teu, ana; só tu sabes acenar assim.

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  3. fica a perder, é quem não vê uma mulher que acena às estações :)

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