Atalhos de Campo


24.9.16

A caixa da tampa azul # repost 17

Como perceberão, já de seguida, não foi só era uma vez uma caixa de tampa azul: foram pelo menos duas vezes. De plástico, muito pequena e baixa, insignificante até, não fosse o facto de a tampa ser de uma cor diferente de todas as outras (de um azul enganadoramente celestial), e de ter passado a ocupar um lugar à parte. Foi o prato com que partilhava o fundo da prateleira, que, ao esbarrar com ela, fez Carlota recordar-se imediatamente que tinha prometido devolvê-la, ou de contrário nem repararia. A pobre acabara esquecida sobre a bancada da cozinha, como acontece tantas vezes às caixas, mesmo às maiores, não obstante esta ter sido a eleita para transportar umas azeitoninhas deliciosamente temperadas. Embora os jantares fossem cada vez mais raros, eles mantinham ainda o velho hábito de juntar umas coisas como se juntam trapinhos: coziam massa, com várias formas e cores, maravilhosamente perfumada com folha de louro, polvilhavam-na de queijo parmesão, acrescentavam-lhe uma mistura de legumes salteados. Enquanto cozinhavam abriam um bom vinho tinto que aromatizava o início da conversa com interjeições leves e frutadas. Mais tarde, quando as velas consumissem o tempo, surgiriam pequenas ilhas de silêncio, suavemente percorridas até à hora do café pelos acordes de um vibrafone. Era então que a noite se carregava de nostalgia sob o efeito da mistura das cores violáceas do vinho com o sangue, o ácido das framboesas,  a baunilha, a parafina já extinta, o corpo entregando-se ao corpo equilibrado dos taninos, o ar à rendição de um clarinete. Às vezes optavam por partilhar um filme, tão entrecortado de comentários e interrupções, que resultaria, certamente, em expulsão dos dois de qualquer sala de cinema.
         
                                                                           

Acabar a noite nos braços dele, estava já fora de questão. No entanto não dispensava a sua boa companhia, o dom que ele tinha  de contar as histórias mais banais com imensa graça, os sonhos que eram divertidos ou rocambolescos, os novos projectos (que quase nunca realizava por perderem logo a validade), a curiosidade insaciável de velho adolescente ou o humor irreverente de jovem centenário, sempre pronto a aprender com os mais novos e a ensinar os mais velhos, e a preocupar-se com eles, como um ancião cujos enormes braços a todos envolvesse numa grande família. Carlota sorria com a caixa vazia nas mãos, distraída com estes pensamentos, e ia justamente guardá-la mais à vista, quando a amiga que fora lá jantar nessa noite, exclamou: A minha caixinha das azeitonas gourmet, afinal está aqui! Há imenso tempo que a procuro... Não é tua, e até prometi devolvê-la com uma surpresa, esclareceu Carlota. Mas Cristina resolveu provar-lhe que era dela, mostrando-lhe num dos cantos uma pinta queimada, que mal se notava. E foi assim que Carlota ficou com a certeza do que sempre suspeitara.

Publicado a 19/7/2014

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