Atalhos de Campo


30.9.16

memória. curta # 25

Encontrando alguém na rua, atropelado ou a claudicar severamente, estendido num banco com febre ou a vomitar, ninguém se lembraria de olhar em volta à procura da primeira placa com o nome de um médico e entrar de rompante pela sala de espera dizendo: - Encontrei esta pessoa em dificuldades, não tem dinheiro, cuidem dela. Gostam de pessoas, não gostam? 

À primeira vista parece absurdo, mas não é. Acontece muito aos veterinários. Na minha vida profissional sempre reservei uma parte do meu tempo para atender em voluntariado. Aderi a campanhas de esterilização, colaborei com organizações de defesa dos animais, mas, sobretudo, apoiei os proprietários da vizinhança que tinham menos posses. Tive sempre uma porta aberta para casos especiais, mas nunca gostei que me obrigassem a fazê-lo; ou não seria voluntariado. E nunca fui fundamentalista.

Era um gato de rua, grande, tigrado, com um focinho bicudo e algo arrebitado, o que fizera com que a senhora que lhe dava comida lhe chamasse Pinóquio. Certo dia, o Pinóquio apareceu muito debilitado, com aquilo que suspeitei ser uma pneumonia. Mas não era nada manso e a D. Benta chegara a arfar, não só por lhe ter sido difícil apanhá-lo, mas também por carregar com ele a pé, pelas ruas do bairro. Inexplicavelmente ou não, (porque estava de facto muito doente), o Pinóquio portou-se bem quando lhe injectei o antibiótico, o que fez com que a D. Benta, habitualmente séria, me presenteasse com um sorriso, embora módico. Levou antibiótico para misturar na comida, aconselhei-a a mantê-lo dentro de uma casa durante uns dias, e o Pinóquio ficou curado. 

Olhando para ela agora, com o olhar peneirado pelo tempo, poderia dizer que D. Benta era uma espécie de Madre Teresa de Calcutá dos gatos. De pequena estatura, bastante magra, morena de olhar corajoso e invasivo, andava pelas ruas a caçar desgraças felinas e a todas tentava estoicamente socorrer. Para isso usava de uma vontade férrea, de uma teimosia e de uma resiliência únicas, de uma habilidade coerciva. Da mesma forma que angariava fundos, seleccionava beneméritos, colaboradores, ou simples vítimas. E eu, claro, acabei, como muitas outras pessoas, por ser uma das suas vítimas.

No ano seguinte o Pinóquio voltou. Esqueci-me de contar que o olhar da D. Benta não era para graças. Amarinhava por mim acima com se tivesse garras, entrava-me pelos olhos e tentava devassar-me o pensamento, enquanto a maioria das vezes as suas palavras me arranhavam o cérebro, ou então, quando queria que lhe desse alguma coisa, empinava a voz e como que me dava pequenas turras, interesseiras, que podiam muito bem acabar numa patada. Desta vez o gato estava activo, tinha engordado, e, pior que tudo, pareceu-me assanhado. Passei-o para uma jaula de contenção para o poder observar, enquanto ia dizendo à D. Benta que ele parecia estar perfeitamente saudável. Mas ela insistia que não, que o pobrezinho estava muito doente. Contrariada, abri ligeiramente a tampa da jaula para o tentar auscultar. Imediatamente deu um pulo cá para fora e voltou-se contra mim, a assoprar. Mal me tentei aproximar começou a dar saltos em todas as direcções, subindo e descendo das bancadas, sobre as quais patinava deitando tudo ao chão e, já completamente desorientado, tentava nelas firmar saltos para as paredes, pendurando-se nos quadros que balouçavam, riscando os aparelhos ao escorregar por eles. Perante a minha incrédula estupefacção, a doença tinha-lhe instalado molas nas patas - e asas! -, pois voou de seguida, aos uivos, e pendurou-se no estore do lado oposto, subindo por ele, deslizando e subindo de novo, até cair sobre a secretária e derrubar o telefone, e exausto correr ainda de cauda entufada, para se ir refugiar por trás do fax, sobre o qual urinou. Fez-se silêncio. Estávamos amedrontadas a um canto. De súbito, o espectáculo da devastação surgia aos nossos olhos em toda a sua plenitude: o estore, irrecuperável, fazia foles, deixando entrar a luz pelo que pareciam várias bocas descaídas, havia papéis e material espalhado por todo o lado, frascos partidos, cadeiras derrubadas.

Quando finalmente consegui recuperar a voz e arrumar os pensamentos em linha recta, disse: - D. Benta, a senhora agora vai fazer o favor de apanhar o gatinho. Pode voltar a soltá-lo lá onde ele vive feliz, à minha responsabilidade. A clínica vai fechar para pôr isto tudo em ordem; como se percebe pelo que aqui está feito, durante o resto da manhã não poderá haver consultas. O estore é para cortar junto à calha e deitar no lixo, disse, virando-me para a auxiliar. E ah!, a senhora não me deve nada, mas não volte cá com o Pinóquio quando ele não estiver doente. 

somos petúnias










































































29.9.16

recolher

É a hora do recolher. Ao anoitecer, os animais regressam com as novas crias ao ovil, os galináceos comem a última refeição do dia e aninham-se lado a lado no poleiro, os pavões voam para os pontos mais altos do eucalipto que lhes serve de abrigo. A rola que tenho em casa pede que a guarde voando-me para a mão: gosta de adormecer numa gaiola coberta com uma manta. O meu filho passa o dia comigo, rimo-nos e conversamos, mas aproxima-se a noite e ele diz que vão sendo horas de regressar. Também o cão dele, que passou aqui quinze dias, quer voltar para casa dos donos, e sobe ágil para o jipe, que se põe em marcha. Fico a vê-los seguir devagar pelo caminho, a ultrapassarem o portão, a desaparecerem na estrada. E todos os pássaros se calam. O recolher implica, também, concentração, como acontece quando entramos numa sala de cinema e se apagam as luzes, para que nos habituemos ao escuro antes de o filme começar. É um hábito ancestral, de homens e de animais que se verifica com a transição para a noite, a cedência ao cansaço, a letargia, e, por fim, a maior das vulnerabilidades, o sono. É pois prudente e sensato que o recolher se faça para local seguro. Volto-me para encarar a casa, entro, fecho a porta com suavidade, viro-me de costas para a noite, e acendo a luz. 

Ali vive gente.  

asmática

O real dá-me asma.

Cioran

28.9.16

As músicas que eu ouvia # 4



Olhas-me ainda, não sei se morta:
desprendida
de inumeráveis, melancólicos muros;
só lembrada
que fomos jovens e formosos,
alados e frescos e diurnos.
(...)

Eugénio de Andrade/Coração do Dia

calendário



27.9.16

pós-prandial

Num mundo sem melancolia, os rouxinóis pôr-se-iam a arrotar.

Cioran

a noiva de Chagall

Ali, naquela quinta, viveu uma mulher que raramente saía. Consta que desistira do mundo, dos amigos, das cidades, das modas, de ganhar dinheiro com a profissão. De manhã, subia para uma pequena pianha de granito, equilibrava-se nela para poder acenar para a estrada, com o seu longo braço levantado à espera de uma buzinadela como resposta, que por vezes tardava, e vinha já sobre a curva. Ou o gesto ficava suspenso, ignorado pelo som que não chegava. Só então descia, e, caminhando de pés nus sobre a calçada de pedra, se dirigia a uma porta, para penetrar num prolongado silêncio. Dedicava-se às flores, aos animais, à organização da casa, diziam. Da sua vida pessoal pouco se sabia. Quem a visse aparecer ao longe, com uma braçada de flores silvestres, pensaria numa eterna noiva do campo. Quem a visse a dar às vacas as flores que colhera, a acariciar os borregos, ou rodeada de galinhas a comerem milho ao fim da tarde, pensaria que ela era uma noiva que fugira de um quadro de Chagall. Dizia-se que de noite levitava no azul iluminado do céu, que a sua sombra se projectava na lua, que as estrelas cadentes se lhe prendiam ao cabelo, que se mantinha ali porque estava enfeitiçada por aquele lugar. Sussurrava-se que fora casada uma vez, há muitos anos, com a luz de Setembro, e que um dia esperara pelo fim do sol, no último dia desse mês, para nele desaparecer.

malhas


26.9.16

luz de Setembro

Absolvição versus Confissão

Chama-se sexo
a uma parte do corpo
como se todo o corpo
as mãos os pés a cabeça
não fossem também sexo
o pénis a vagina
os testículos as maminhas
são frágeis
vulneráveis
estão expostos
à crueldade
são flores 
ou musgos
posso estar nua e ser casta
não tenho nada de freira viciosa
e devassa
com toda a minha atenção
toco-te
dou-te os meus sentidos
os meus sentimentos
sinto muito
ter estado muito contigo
é uma coisa boa
que melhora o mundo
que o embeleza
agradeço ter-te encontrado
e ter feito o que fiz contigo
com a cabeça nas mãos
e os olhos cheios de lágrimas
sonho contigo comigo

Adília Lopes/Absolver


Eu caminhava e sentia-me cada vez pior. Talvez estivesse assim por ter lá ficado e não tivesse ido embora para minha casa. Era como prolongar a agonia. Que espécie de merda era eu? Podia, sem dúvida, fazer jogos falsos e sórdidos. Eu estava a tentar ganhar alguma coisa? Podia continuar a dizer-me que aquilo era apenas uma questão de procura, um simples estudo do universo feminino? Eu deixava apenas que as coisas acontecessem, sem pensar nelas. Só me interessava o meu pequeno prazer egoísta e barato. Parecia um menino de liceu mimado. Era pior do que uma puta; uma puta leva o nosso dinheiro e nada mais. Eu mexia com vidas e almas como se fossem brinquedos meus. Como é que podia considerar-me um homem? Como é que podia escrever poemas? Eu era feito de quê? Era um Marquês de Sade de segunda sem a sua inteligência. Um assassino era mais recto e honesto do que eu. Ou mesmo um violador. Eu não queria que brincassem com a minha alma, que a gozassem, que a ridicularizassem; ao menos disto tinha a certeza. Eu não valia um tostão furado. Pude sentir isso quando percorria o tapete de um a outro lado. Nem um centavo. Mas o pior é que eu fazia passar-me por aquilo que não era - um bom homem. Eu entrava na vida das pessoas porque elas confiavam em mim. Fazia o meu trabalho de maneira mais fácil. Andava a escrever The Love Tale of the Hyena.

Charles Bukowski/ Mulheres

25.9.16

birth control

pássaro azul



Fiquei de pé no meio da sala, surpreendido com os meus pensamentos. 
Dei por mim sentado à beira da cama, a chorar. Sentia as lágrimas 
correrem pelos meus dedos. O meu cérebro andava às voltas, mas não 
me sentia a enlouquecer. Não percebia o que estava a passar-se comigo.

Charles Bukowski/ Mulheres

Posted by Charles Bukowski

Eu era sentimental em muitas coisas: a uns sapatos de mulher sob a cama; a um gancho abandonado sobre a cómoda; ao modo de dizer «vou fazer chichi... »; fitas do cabelo; descer a avenida com elas à uma e meia da tarde, apenas duas pessoas a caminhar; as longas noites em que se bebe, fuma e se conversa; os argumentos; pensar no suicídio; comermos juntos e sentirmo-nos bem; as brincadeiras e os risos absurdos; sentir milagres no ar; estarmos juntos dentro do carro estacionado; comparar antigos amores às três da manhã; dizerem-nos que ressonamos, ouvir o ressonar dela; mães, filhas, filhos, gatos, cães; por vezes a morte, por vezes o divórcio, mas continuar sempre; ler o jornal sozinho num quiosque e sentir náuseas por ela estar casada com um dentista com um Q.I. de 95; corridas de cavalos, os parques, ou piqueniques no parque; até cadeias; os sinistros amigos dela, os nossos amigos sinistros; os nossos copos e as danças dela; os teus engates; os engates dela; os comprimidos dela, as tuas fodas* por fora e as dela; dormir juntos...

*ao abrigo de a quarta emenda  de 16/3/2015

24.9.16

A caixa da tampa azul # repost 17

Como perceberão, já de seguida, não foi só era uma vez uma caixa de tampa azul: foram pelo menos duas vezes. De plástico, muito pequena e baixa, insignificante até, não fosse o facto de a tampa ser de uma cor diferente de todas as outras (de um azul enganadoramente celestial), e de ter passado a ocupar um lugar à parte. Foi o prato com que partilhava o fundo da prateleira, que, ao esbarrar com ela, fez Carlota recordar-se imediatamente que tinha prometido devolvê-la, ou de contrário nem repararia. A pobre acabara esquecida sobre a bancada da cozinha, como acontece tantas vezes às caixas, mesmo às maiores, não obstante esta ter sido a eleita para transportar umas azeitoninhas deliciosamente temperadas. Embora os jantares fossem cada vez mais raros, eles mantinham ainda o velho hábito de juntar umas coisas como se juntam trapinhos: coziam massa, com várias formas e cores, maravilhosamente perfumada com folha de louro, polvilhavam-na de queijo parmesão, acrescentavam-lhe uma mistura de legumes salteados. Enquanto cozinhavam abriam um bom vinho tinto que aromatizava o início da conversa com interjeições leves e frutadas. Mais tarde, quando as velas consumissem o tempo, surgiriam pequenas ilhas de silêncio, suavemente percorridas até à hora do café pelos acordes de um vibrafone. Era então que a noite se carregava de nostalgia sob o efeito da mistura das cores violáceas do vinho com o sangue, o ácido das framboesas,  a baunilha, a parafina já extinta, o corpo entregando-se ao corpo equilibrado dos taninos, o ar à rendição de um clarinete. Às vezes optavam por partilhar um filme, tão entrecortado de comentários e interrupções, que resultaria, certamente, em expulsão dos dois de qualquer sala de cinema.
         
                                                                           

Acabar a noite nos braços dele, estava já fora de questão. No entanto não dispensava a sua boa companhia, o dom que ele tinha  de contar as histórias mais banais com imensa graça, os sonhos que eram divertidos ou rocambolescos, os novos projectos (que quase nunca realizava por perderem logo a validade), a curiosidade insaciável de velho adolescente ou o humor irreverente de jovem centenário, sempre pronto a aprender com os mais novos e a ensinar os mais velhos, e a preocupar-se com eles, como um ancião cujos enormes braços a todos envolvesse numa grande família. Carlota sorria com a caixa vazia nas mãos, distraída com estes pensamentos, e ia justamente guardá-la mais à vista, quando a amiga que fora lá jantar nessa noite, exclamou: A minha caixinha das azeitonas gourmet, afinal está aqui! Há imenso tempo que a procuro... Não é tua, e até prometi devolvê-la com uma surpresa, esclareceu Carlota. Mas Cristina resolveu provar-lhe que era dela, mostrando-lhe num dos cantos uma pinta queimada, que mal se notava. E foi assim que Carlota ficou com a certeza do que sempre suspeitara.

Publicado a 19/7/2014

bisca

As minhas cartas de amor
eram tão infelizes
que são hoje cartas de jogar

Adília Lopes

pan-olímpico

tentei, sem êxito, explicar-lhe 
que a falta de sensibilidade é a maior deficiência

22.9.16

As músicas que eu ouvia # 3



Tinha dez anos, quase onze, quando ouvi esta música pela primeira vez. Deslumbrei-me, dancei-a e cantei-a. Estávamos em Portugal, em casa dos meus avós, no centro do país. A minha mãe ia a Lisboa e perguntou-me o que é que eu queria que me trouxesse. Mãe, eu gosto muito de uma música que ouvi no rádio, é o Fire, adoro, só quero isso. Não conheço, disse-me a minha mãe, mas que nome estranho para uma música, não queres antes qualquer coisa dos Beatles? Não mãe, eu agora gosto do Fire, respondi com um gesto implorativo, please! Foi mais ou menos por essa altura que comecei a usar um anel que tinha uma caveira com os olhos pintados de vermelho e quis trocar o meu velho relógio clássico por um enorme, de mostrador negro, ponteiros amarelos e números às cores, talvez um precursor do maravilhoso Frank Muller, que anos mais tarde vi no pulso de uma amiga minha. Digamos que passei do estilo românico para o estilo gótico num abrir e fechar de olhos (vá lá que não pedi também uma sombra negra para os pintar). Fiquei sem dormir de expectativa, mas o certo é que a minha mãe, jogando muito pelo seguro, me trouxe isto, perante a minha horrível decepção:



Oh!... a banda sonora do Goodbye Mr. ... Chips..., mãe?! Minha querida, aquilo é horrível, são só gritos, um inferno, pensei que tinhas gostado do filme... O desalento deixou escorregar uma lágrima, e foi nesse mesmo dia que decidi passar a odiar musicais. As labaredas do Fire tinham sido apagadas - mas não extintas - e substituídas com desafogo pelo rescaldo da voz de Petula Clark, que fumegava uma qualquer canção, de amor é certo, mas para velhinhos iguais aos do filme sensaborão que estava na altura em cartaz; nem Peter O'Toole escapava. O disco ficou por ouvir e eu continuei durante muito tempo a suspirar por arder naquele fogo ainda desconhecido, que desejava e ao mesmo tempo temia. 

É o primeiro dia de Outono. Por alguma razão (certamente equinocial), tentei encontrar a música que me ateou a adolescência e que nunca mais tinha ouvido. Ao ouvi-la de novo, confesso, fiquei abismada com a minha precocidade: havia ali, em mim, um ramo ectópico que tinha sido necessário podar.

21.9.16

nadar para casa



O ano é 1994, mas o meu pai (que tem um gelado na mão e não um telemóvel) está a ter uma conversa consigo próprio que é provavelmente algo triste e sério que tem a ver com o passado. Eu nunca consegui saber ao certo quando o passado começa ou onde acaba, mas embora as cidades ponham o passado em mapas, com estátuas de bronze para sempre imobilizadas numa posição digna, por mais que eu tente fazer com que o passado se mantenha quieto e tenha maneiras, ele move-se e murmura comigo ao longo de todos os dias.

Deborah Levy/ nadar para casa

marshmallows e pirulitos de açúcar queimado













































material bélico e camuflados vários

- Por favor, quero pagar.
- E o que é que a senhora paga?
- Um café, uma bala, uma bomba e um pinta-línguas.

à distância

E os pretinhos do Biafra
que será feito deles?

Adília Lopes

Vejo-os a cair no mundo como estrelas -
Na Índia, na África, na América, estes pequenos seres 
 milagrosos.
Estas imagens puras e minúsculas. Cheiram a leite.
Têm as solas dos pés incólumes. Como se caminhassem
 no ar.

Sylvia Plath

lollipops














































20.9.16

moda

Uma moda filosófica impõe-se tal como uma moda gastronómica:
não há qualquer diferença entre contestar uma ideia ou um molho.

Cioran 

cupcake























Vejo o Pai a conversar com o Filho.
Tal displicência não pode senão ser sagrada.
«Vamos fazer um céu», dizem.
«Vamos arrasar tudo e sacudir a espessura destas almas».

Sylvia Plath 

vozes

Terceira Voz:
(...)
Aqui estão as roupas de uma mulher gorda que não conheço.
Aqui está o meu pente e a minha escova. Aqui está um vazio.
De repente sinto-me tão vulnerável.
Sou uma ferida aberta que caminha para fora do hospital.
Sou uma ferida aberta que eles deixam passar.
Deixo aqui a minha vitalidade. Deixo alguém
Que se colaria a mim: arranco de mim os seus dedos como adesivos. E saio.

Segunda Voz:

Não sou feia. Talvez seja mesmo bela.
O espelho devolve-me uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras entregam-me as minhas roupas,
É normal, dizem elas, que estas coisas aconteçam.
Aconteceu na minha vida e na de outros.
Sou um caso em cinco, ou algo assim. Não sou um caso perdido.
Sou bela como estatística. Aqui está o meu bâton.

Primeira Voz:
(...)
Estou calma. Estou calma.
Estas são as cores claras e alegres do quarto das crianças,
Os patinhos que falam, os cordeirinhos risonhos.
Voltei a ser simples. Acredito em milagres.
Não acredito nessas terríveis crianças
Que me atormentam os sonhos com os seus olhos em
 branco, as suas mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Meditarei sobre a normalidade.
Meditarei sobre o meu filhinho.
Não anda. Não diz ainda uma palavra.
Está ainda enfaixado de branco
Mas é rosado e perfeito. E sorri frequentemente.
Decorei o seu quarto com grandes rosas,
Pintei coraçõezinhos por toda a parte.
(...)

Sylvia Plath 
Três Mulheres*Poema a três vozes

riding on the storm



reading in the sunlight

crente

acredito em Deus como se acredita por vezes no inimigo

19.9.16

curiosidade
























inimputável

Após o almoço discutia-se a depressão pós-parto. Todas as mulheres participantes na conversa admitiram ter em maior ou menor grau sofrido conscientemente desse distúrbio. Foi então que alguém informado rematou, dizendo: uma mulher que sob o efeito de psicose puerperal atire um filho pela janela é considerada inimputável. Até pode ser inimputável, mas não sei como sobreviverá à própria culpa.    

twilight zone

Um dos borregos recém-nascidos morreu hoje traumatizado por uma das divisórias do parque que tombou sobre ele, pouco tempo depois de o ter tido ao meu colo. A ovelha estava tranquilamente deitada com a cria morta ao lado, como se esta estivesse apenas a dormir. No entanto, a partir do momento em que lhe foi retirada, começou a balir aflita, e assim continuou, durante várias horas.      

17.9.16

Memórias de um parto # repost 16

O médico parteiro chega ao seu trabalho sem vacilar,
Vejo a mão do ancião que pressiona, recebe e sustém,
Reclino-me no limiar das portas flexíveis e delicadas,
E observo a saída, e observo o alívio e a libertação.

Walt Whitman













São Brás do Regedouro, 10 de Junho de 2014  

16.9.16

(Pç.) da Paz Celestial

Lembro-me perfeitamente de o que levou, na minha primeira casa, a que deixássemos de ver televisão às refeições. O meu filho era pequeno e passaram imagens de um homem ajoelhado a ser insistentemente agredido pela polícia com um martelo, enquanto jantávamos a assistir às notícias. Vários anos mais tarde, já numa outra casa, perguntaram-me à saída da porta se estava interessada na televisão por cabo. Respondi que não tinha televisão. 

objectora consciente

assisti sempre sóbria a tudo:
orgulho-me de nunca ter tocado numa droga.

as músicas que eu ouvia # 2



Sweet child in time
You'll see the line
The line that's drawn between
Good and bad

Deep Purple 

15.9.16

o cônjuge, o marido e a mulher

Sou a favor do casamento homossexual (cada um sabe de si), mas como dizer o seu marido a um homem, referindo-se ao cônjuge? E ele dirá, como dizem tantas vezes as mulheres quando não querem ficar com o ónus de uma decisão, vou falar com o meu marido? Pode ser que com o aumento dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo o assunto se banalize, mas por enquanto acho que é no mínimo constrangedor, já para não dizer ridículo.

montanhas de nuvens


swatch

Foi desde que passei a andar sem relógio que me começaram a acontecer coisas extraordinárias, mais precisamente quando passei a regular-me pelo Sol e pela Lua. Hoje dei um belo passeio ao luar e reparei que a Lua está quase, quase cheia. Também reparei esta tarde, quando o Sol se dirigia para poente, que a Horta, uma das vacas, deve parir para muito breve porque já se lhe nota amojo, e anda bastante devagar; é bem provável que seja nesta mudança de Lua. Chamei-a para lhe dar umas guloseimas, que ela recebeu asperamente na ponta da língua, e não precisei de olhar para nenhum relógio para saber que deveriam ser já sete horas quando me despedi da pré-parturiente, porque a rola-turca que costuma pousar ao fim da tarde na antiga antena de televisão começou a arrulhar. Como não podia deixar de ser, no Verão atraso-me, no Inverno adianto-me, mas a média anual é normal. No entanto é um pouco difícil acertar com as horas de quem continua a usar relógio, e que, por exemplo no Verão, não costuma almoçar às quatro horas da tarde nem jantar às onze da noite. Mas que mal trará isso ao mundo? Julgo que nenhum. Aqui, a esta hora da Lua, parece ninguém dar importância. Swatch, o coelho-bravo, costuma estar de olho arregalado, correr e saltar, o que significa que deve faltar pouco para a meia-noite. Quando sossegar serão duas horas da manhã; é também a minha hora de fechar o livro, e adormecer. 

13.9.16

pecado original

atravessei quatro rios
para ver a mesma água
recaindo três vezes sobre ti

(10/9/2016)

urdir



































































gavinhas



gavinha: órgão vegetal, filiforme, através do qual
certas plantas se ligam a outras ou se fixam a suportes;
mão; elo; abraço; enliço.

(nota: definição por consulta a vários dicionários

12.9.16

videira






















vinhas

Onde ficam as vinhas de ferro
donde caem os meteoros?

Pablo Neruda

fruteira em Setembro























a vindima

17 E saiu do templo, que está no céu, outro anjo, o qual também tinha uma foice aguda. 18 E saiu do altar outro anjo, que tinha poder sobre o fogo, e clamou com grande voz ao que tinha a foice aguda, dizendo: Lança a tua foice aguda e vindima os cachos da vinha da terra, porque as suas uvas estão maduras! 19 E o anjo meteu a sua foice à terra, e vindimou as uvas da vinha da terra, e lançou-as no grande lagar da ira de Deus. 20 E o lagar foi pisado fora da cidade, e saiu sangue do lagar até aos freios dos cavalos, pelo espaço de mil e seiscentos estádios.

Apocalipse 14:17.20 

10.9.16

memória. curta 6 # repost 15

Péssimo, uma cosipadela, dizia a minha avó ao telefone sobre a bainha da minha bata, quem terá feito aquilo, e eu à espera para lhe dizer que tinha sido eu, que não culpasse ninguém. Na verdade sempre me entediou a caixa da costura (que eu mantinha criteriosamente arrumada), com as linhas de todas as cores, as agulhas de vários tamanhos, os alfinetes, um dedal, duas tesouras, uma fita métrica, tudo, tudo o que era preciso, rezando para não ter que a abrir. Mas sempre gostei de suturar, e as minhas suturas, contrariamente às minhas bainhas, sempre foram o meu orgulho.


Publicado a 27/3/2015

9.9.16

memória. curta # 24

De todas as cirurgias é a cesariana a única em que se pode salvar mais do que uma vida ao mesmo tempo. Talvez por isso foi sempre aquela que eu mais gostei de fazer. É também das mais urgentes, pode acontecer quando menos se espera, por exemplo ao fim de um dia de trabalho, quando toca o telefone mesmo antes de se apagarem as luzes e de se fechar a porta com rapidez, nem que seja para enfrentar um temporal desfeito.

O telefonema era por causa da Chica. Já tenho comigo o relatório da ecografia, doutora Teresa. Os cachorros estavam bem esta manhã, mas fui avisado que um deles é grande e pode dar problemas. Ela está muito instável desde o meio desta tarde, mas, nem sinais de parto ... - dizia-me o dono, nervoso, ao telefone - Estou com medo da noite. Se houver algum problema, o que faço? Esta é a pergunta crucial que nos fazem ao anoitecer. Não podia dizer-lhe que procurasse um hospital veterinário porque tinha sido eu a acompanhar toda a gravidez da cadelita, extremamente mimada por sinal, o que não ajuda muito nestas situações. Ainda me lembro que o pai da ninhada, cão pequeno e castiço, Fadista não só de nome - conhecimento feito por conversa dos donos entre alçares de perna - era vizinho três números abaixo do palacete da Lapa onde vivia a Francisca, pintados sobre uma porta baixa e estreita, em alumínio castanho.

Ao fazer o toque verifiquei que o cachorro maior se tinha adiantado e que nunca conseguiria sair devido ao tamanho da cabeça, nem deixaria nascer os outros dois. Chamei uma enfermeira para me ajudar. O dono foi aconselhado a ir jantar e desapareceu no dilúvio iluminado pelos candeeiros da cidade. Eu e a auxiliar fomos preparando a sala. Quando a enfermeira chegou já tinha as luvas calçadas e a lâmina colocada no bisturi. À incisão linear, a pele afastou-se para deixar ver a linha branca, que é o segmento de recta com que Deus fechou sem sangue todos os abdómenes. Vencida essa segunda linha, a que não sangra, apareceu o útero como uma bolsa enorme, a pulsar na cavidade abdominal. Em concentração absoluta e com a anestesia bem controlada era preciso escolher depressa o local para a terceira e última incisão, evitando os maiores vasos de superfície. Os dedos entraram pelo diminuto corte para dentro do corno uterino e procuraram um objecto, que traccionaram com a leveza e precisão de pinças versáteis e delicadas que são, até aparecer à luz o primeiro cachorro. Como se o mundo se resumisse ao que estava sob aquele intenso foco, reparo através do saco vitelino que ele é malhado de preto e branco, e, sobretudo, que mexe. Sinto-o a ocupar a minha mão, ainda tenso, agarrado ao útero da mãe. Abro rápido o invólucro,  puxo ligeiramente mais junto ao útero, a placenta solta-se como uma ventosa que teima em deixar uma ferida que sangra, passo-o à enfermeira que lhe desimpede a boca de secreções e lhe coloca uma pinça no cordão  umbilical antes de o cortar, e que o entrega à auxiliar, que rapidamente começa a reanimação, massajando o tórax com uma toalha turca até se ouvir chiar; acto contínuo a enfermeira entende-me as mãos para receber nelas o cachorro seguinte. 

Entrego a Francisca já acordada ao dono ansioso, que recebe as três crias à parte, resguardadas num saco de transporte próprio. Reunimo-nos todos em volta da marquesa enquanto lhe vou dando as últimas recomendações perante a luz fatigada do tecto. Quando por fim ficámos só as três e nos entreolhámos cúmplices, ficou um tal brilho de felicidade no ar que conseguia vencer até o som da chuva mais forte. Lá fora sob o toldo, descomprimindo, enfileiradas à espera da mínima aberta para dispersarmos, de súbito começámos a correr cada uma para seu lado, despedindo-nos em gritos que se ficaram a ouvir por entre a chuva gelada. 

Passa das dez e meia da noite quando entro no restaurante. Dizem-me que sim, que posso jantar. Acho que ainda hoje preciso daquele bife.  

recordações

Como são doces os silenciosos vestígios do passado!
As divagações iguais às dos sonhos 
- a meditação dos velhos tempos revividos 
- os seus amores, alegrias, pessoas, viagens.

Walt Whitman 

8.9.16

close-up


























pickpocket

Uma «relação de bolso» é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade. (...)
Primeira condição: deve entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente sóbrio. Lembre-se: nada de «amor à primeira vista» aqui. Nada de se apaixonar... Nada daquela súbita torrente de emoções que nos deixa sem fôlego e com o coração aos pulos. Nem as emoções a que chamamos de «amor» nem aquelas que sobriamente descrevemos como «desejo». Não se deixe dominar nem arrebatar e, acima de tudo, não deixe que lhe arranquem das mãos a calculadora.
(...)
Se notar alguma coisa que não se negociou e que não lhe interessa, saiba que «é hora de seguir viagem». É o tráfego que sustenta todo o prazer.
Mantenha o bolso livre e preparado. Em breve vai precisar de lá pôr alguma coisa e - cruze os dedos - vai consegui-lo...

Zygmunt Bauman/ Amor Líquido 

7.9.16

apaixonar-se e desapaixonar-se por e-mail

Conclusão: 
Será melhor aceite e mesmo nada chocante (para a maioria
de nós), receber um e-mail com uma declaração de amor do 
que uma ruptura por e-mail

Mas, porquê?  

E-mail



(...)
Now time and distance
melt away
No digital delay
And some things
can be written down
that we're too shy to say
Send me an e-mail
that says 'I love you'
Send me an e-mail
that says 'I love you'
(...)

papaguear

«Recebi um e-mail de ruptura», explica Sophie Calle
no seu livro. «Fiquei sem saber o que responder. Foi
como se aquilo não fosse comigo. Terminava dizendo: 
cuida-te.(...)»



Sophie Calle, não sabendo o que responder e não
conseguindo entender a ironia e crua recomendação
final, decidiu pedir a 107 mulheres que interpretassem 
esta carta. E começou assim uma das mais interessantes 
aventuras estéticas dos últimos anos, o livro, 
Prenez soin de vous. 

Enrique Vila-Matas/ Diário Volúvel

6.9.16

Anjos controversos

Teresa

E como saber quem é Deus
entre os Deuses de Calcutá?

Pablo Neruda

this is life

Ela era minha. Eu era um exército conquistador,
um violador, eu era o seu dono, eu era a morte.

Charles Bukowski/ Mulheres  

as músicas que eu ouvia # 1



"'Cause you know words sometimes have two meanings"

Led Zeppelin

c'a fé

      it's only life
      but i like it


let's go
baby
      let's go


this is life


it is not
                      rock and roll


Paulo Leminski

4.9.16

Mulheres



Marshall levou-nos para dentro e conduziu-nos à
recepção. O Chelsea não era nada de especial, talvez
o seu encanto viesse daí. Marshall virou-se e estendeu-me 
a chave. «É o quarto 1010, o antigo quarto da Janis Joplin.»

Charles Bukowski/ Mulheres

3.9.16

Miúda Gira # repost 14

Conheci-te numa insónia (aliás conhecemos-te), porque é relativamente vulgar ter insónias, eu pelo menos lido com elas desde os dezoito anos. Portanto nós conhecemos-te. Não sei o que aconteceu com as outras mulheres, se nunca mais se lembraram de ti, mas eu seguramente nunca mais me consegui esquecer. Ao princípio estive quase para mudar de canal, mas parecias-te tanto com uma amiga minha, isto é, a tua fotografia de antes, que fiquei ainda com menos sono a ouvir-te. 

Era como se tivesses sido tu a entrar no restaurante onde de vez em quando almoçávamos, vi-te a atravessar a rua de saia vermelha justa, de saltos altos, de camisa de seda natural, tão elegante que eras um quase acidente. Sentaste-te à minha frente com um sorriso radioso de felicidade, e ainda antes de pedirmos fosse o que fosse já me estavas a contar as novidades. Havia um novo ele, verdadeiramente novo porque era de facto mais novo do que tu, uma lufada de ar fresco na tua vida, um homem alto, inteligente e simpático, disseste-me enquanto me mostravas a fotografia, e eu confirmava. Iam sair nessa noite, assistir a uma passagem de modelos e depois jantar, e a seguir quem sabe o que pode acontecer, a minha mãe já me disse para me portar bem, mas eu quero é portar-me mal, há imenso tempo que não conheço ninguém tão interessado em mim, vai esperar-me todos os dias ao escritório, telefona-me vezes sem conta, manda-me ramos de flores lindas, todas as manhãs acordo com uma mensagem maravilhosa, já lá vão quase três meses, há três meses que me sinto no céu, apaixonadíssima. Lembras-te daqueles postais da Happy, quando nos divertíamos a tentar encaixar num tipo de miúda - e nenhuma delas nos serviu porque havia sempre alguma coisa que não batia certo - olha, eu hoje escolhia a frase mais provocatória de cada um e fazia um postal novo, todo branco mas saído da casca, que é do que eu preciso - dizia-me à sobremesa.

Devagar destapaste a cara, afastaste o lenço branco que te cobria o rosto. O lado esquerdo tinha desaparecido, o sorriso tinha sido arrancado, e estavas cega. Não havia emoção especial na tua voz, mas eras uma bandeira branca a visitar o mundo, dizias-nos para não confundirmos perseguição com interesse, ameaça com ciúme, posse com amor; que  não sentíssemos culpa pela primeira bofetada, que logo outras se seguiriam sem nenhuma razão, que detectássemos rapidamente estes sintomas, que não deixássemos entrar ninguém assim nas nossas vidas. 

Aquilo que o encantara foi motivo para as primeiras discussões, começou por declarar guerra às saias justas, depois ao vermelho, por fim  aos saltos altos; em vez de frases românticas, apareciam palavras obscenas a cobrir o ecrã do telemóvel e depois das perseguições, proibições e sequestros, vieram as ameaças de morte. Um dia telefonou-te e disse-te, tens aí um homem em casa!, tu respondeste-lhe que era a tua mãe, ele disse-te que mentias, que ia entrar e te ia matar. Quando conseguiu entrar, alvejou primeiro a tua mãe, que morreu, e depois, depois deu-te esse tiro, na cara. 

Há muitos anos que não sei de ti, embora te tenha procurado; não sei se continuas a tua cruzada ou se desististe, mas a minha amiga salvou-se, nós salvámo-nos, por causa dessa tua bandeira branca, na nossa noite em branco.

A Carolyn Thomas

Nota: Este texto foi inspirado num caso verídico apresentado por Oprah Winfrey num programa a que assisti numa noite de insónia. Anos mais tarde consegui finalmente identificar a minha heroína, Carolyn Thomas. 

Publicado a 23/7/2014



Já passou tanto tempo que ainda não se falava levianamente no burkini; que ainda esta semana não haviam sido mortas mais duas mulheres, por violência doméstica. (3/9/2016)