Atalhos de Campo


9.8.16

tons pastel

O azul, o verde, o rosa, o salmão, o bege, e ainda o branco; eram todos lindos. Vestidos clássicos, parecidos, diferindo em pequenos pormenores, com bolsos e palas, presilhas pinças e pespontos, ajustados por cintos feitos no mesmo tecido, um linho pesado que lhe assentava sem um vinco. Depois de tratar de nós e de nos pôr a almoçar para voltarmos às aulas da tarde, a minha mãe libertava-se do roupão de riscas azul escuro, punha uma fita larga a prender-lhe o cabelo negro, e ia tomar banho. Eu aproveitava todos os bocadinhos da sua companhia e ficava a vê-la vestir-se e a conversar com ela na penumbra do quarto, recostada na cama dos meus pais. Sem ter consciência disso, acabava por dar comigo a admirar-lhe a nudez, até que a combinação lhe deslizava pelo corpo como uma luva, a pele muito branca e acetinada desaparecia subitamente sob ela, e eu pensava muitas vezes em como a minha mãe era bela. O vestido esperava irrepreensível, sobre a colcha. Depois de estar vestida e penteada, a minha mãe calçava uns sapatos de salto anabela, não muito altos, e saía. O sol iluminava-lhe o semblante e seguia-a com pequenos flashes de luz dourada, enquanto ia avançando pela rua em direcção à papelaria onde lhe guardavam o jornal e as revistas. Uma vez por semana, geralmente à quinta-feira, atravessava a cidade pela sombra até ao viveiro da Câmara e voltava com dois enormes ramos de bocas-de-lobo zínias e malmequeres, de cores fortes e variadas a contrastarem com os tons pastel dos seus vestidos. Nesses dias, quando chegávamos a casa, a minha mãe levantava os magníficos olhos do livro que pousara no colo, e de súbito as jarras enchiam-se de flores frescas a cheirar a Verão. E era assim que a minha mãe nos sorria.

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