Atalhos de Campo


2.8.16

talhada

Você tem o cão mais feio do mundo, disse-me um dia quando me viu acompanhada pelo meu Chow-Chow. Isto foi ainda antes de eu ler Konrad Lorenz e de saber que os seus cães preferidos eram cruzados de Chows. Era tudo uma questão de gosto, sem discussão. A minha cadela era um exemplar de rara beleza segundo os padrões da raça, e para além do mais tinha um carácter excepcional. Depois de ela morrer arranjei uma cadelita de raça indefinida, pequena e de pêlo comprido. Ele passou a ver-me com ela e um dia disse-me: Você parece a senhora do cãozinho, o que aconteceu ainda antes de eu ter lido o conto de Tchékhov. Aliás li-o por ele me ter comparado com ela. Fiquei com a sensação de que as pessoas me poderiam, de facto, achar uma mulher misteriosa: sempre sozinha, acompanhada para todo o lado por um pequeno cão, estrangeira na própria terra, não de visita a Ialta, no Mar Negro, mas ali mesmo, ano após ano. Penso que ele o fez em tom elogioso, embora eu o não tivesse entendido como tal. Às vezes cismo que ele sim, poderia ser Gúrov, mas nunca lho disse. Eu talvez também já tivesse sido em tempos Anna Serguéevna, ele não deixava de ter uma certa razão, mas há muito que deixara de o ser. Por isso entre nós ficou uma história intocada, diria que inteira, que a nossa idoneidade, e liberdade, ousou preservar. A caminho da nora e da nespereira, com a cara quente ao sol de Junho, lembrei-me dos poucos contactos que tivemos: o choque térmico do rosto dele (gelado pelo ar condicionado) contra o meu, a escaldar do sol, quando um dia me cumprimentou; a manhã de Inverno em que me perguntou, o que faz aqui fora, minha querida?; aquele dia em que fingiu não saber onde estacionara o carro para que eu o ajudasse a encontrá-lo, e de como me perguntara no fim (e a rir) se queria boleia, apenas para que eu pudesse recusar, agradecendo. E de como voltei a pé para casa, com um cesto cheio de nêsperas.   

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