Atalhos de Campo


25.8.16

réplica em Amatrice

Está tudo bem. Agora descanse um bocadinho, que já lhe trazemos o bebé. Não se esqueça de manter os pés cruzados; é muito importante para controlar a hemorragia. Anuí com um murmúrio. O quarto estava mergulhado na penumbra. A enfermeira verificou se a agulha do soro continuava bem fixa pelo adesivo colocado sobre as costas da mão direita e diminuiu o fluxo, pressionando ligeiramente a roda de controlo para a frente. Depois a sua silhueta branca começou a esfumar-se por entre as sombras dos meus olhos semicerrados e a porta fechou-se ao mesmo tempo que eles. De imediato o quarto estremeceu com violência e a cama avançou e recuou sobre os rodízios. A enfermeira voltou atrás, e mal apareceu perguntei-lhe, assustada, com intenção de me levantar: - Foi um tremor de terra, não foi? Foi, mas mantenha-se calma na posição que lhe recomendei, que eu já venho. E saiu. Naquele momento passou-me tudo pela cabeça: o meu filho recém-nascido no berçário, eu sem me poder mexer, sozinha no hospital, a agitação nos corredores. Cruzei os pés com mais força, como se isso salvasse a humanidade, e devo ter-me posto a rezar, sentindo-me absolutamente vulnerável. Felizmente não houve réplicas, mas se houvesse, e o pânico se instalasse, levantar-me-ia sem demora da cama, tenho a certeza, e correria como louca por aqueles corredores fora até encontrar o berçário para pegar no meu filho, que talvez ainda dormisse de mãozinhas fechadas e pulseira azul, onde estava escrito o apelido.

4 comentários:

  1. Confirmo!

    https://issuu.com/casadasciencias/docs/sismos_portugueses_recentes__1981-2011_

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tinha consultado isso para confirmar a hora, mas não quis incriminar-te. :)

      Eliminar