Atalhos de Campo


6.8.16

Num outro tempo como hoje # repost 10



Cecil Taylor um percussionista do piano, que acabou o concerto de abertura de há três anos com um longo poema, o legendário baterista Sunny Murray, cuja performance me decepcionou há dois, John Zorn que nos deu uma lição de surf no ano dos seus sessenta, e ontem com James "Blood" Ulmer a conseguir despedir-se do público(que enchia o anfiteatro da Gulbenkian ao ar livre) com um adeus de palmas com muitas palmas de mãos, sinto sempre que esta é a minha aposta de jazz anual, a que não falto há anos, fiel, mesmo que a aposta, agora mais moderada, tenha sido demasiado free noutros tempos. 

Gosto de tudo o que tem a ver com este encontro: de chegar cedo para observar o ambiente, de dar uma espreitadela aos livros, de comer qualquer coisa no bar enquanto vou ouvindo as conversas e percebendo as diferenças entre os fãs dos vários grupos e tipos de música, reparando nas suas t-shirts (o negro como primeira opção), na provecta idade de alguns (a mesma de alguns dos génios), particularidades de pessoas com culto por esta música tão citadina e inquieta, inquietude que quem a ama nunca perderá. E é precisamente a inquietação que nos leva à procura de um lugar nestas noites de árvores iluminadas para assistir a concertos de gentlemen onde todos tocam para cada um poder brilhar em separado, e a aplaudir isso; a não perder pitada das disputas trocadas entre instrumentos de amigos (em que até é desejável que se levante a voz e se seja irreverente para não estragar a amizade), inebriados com a magia da cidade em que tudo isto pode acontecer, exactamente porque tudo o resto continua a acontecer, como nos lembram a todo o momento os aviões que passam baixo, ali mesmo sobre as nossas cabeças, entrando na música ao fazerem troar num lapso o seu destino, ou a observar que alguns dos pássaros, incomodados por toda esta agitação, por sua vez também levantaram voo, para irem à procura de poiso mais sossegado.

Na madrugada do dia 25 de Agosto de 1988, horas depois de Ornette Coleman actuar na Gulbenkian com a Prime Time Band, ardia o Chiado, uma recordação triste numa noite alegre como esta, há quase vinte e seis anos e sempre, como hoje, Lisboa.



































Publicado em 2/8/2014

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