Atalhos de Campo


20.8.16

Kodachrome # repost 12


Há dias em que tenho saudades da minha Nikon analógica, de colocar o filme e de o fazer deslizar com os dedos até prender, do som da máquina a rebobinar, da ansiedade para trocar de rolo, da focagem, da regulação da abertura, do obturador, da velocidade, da forma como as minhas mãos gostavam de a ter nas mãos, do peso da mala, da espera pelas provas de contacto, da surpresa, do ritual. Está guardada, imprestável nos dias que correm, imprestável para fotografar para o blogue, imprestável como outras iguais, vítimas desta necessidade do imediato, da partilha simultânea, da aclamação estridente, do elogio, desta correria em que o bom substitui o óptimo, porque a urgência é implacável, as imagens correm aos milhões por todo o lado, não se contemplam, consomem-se. Por isso me recuso a comprar outra, fotografo com o telemóvel porque tenho essa noção de precaridade da imagem, do desgaste a que está sujeita, da banalização. Mas não perdi a esperança de voltar a fotografar com ela, de arranjar uma câmara escura e de, no meu silêncio, fotografar para ninguém, apenas por encantamento. Como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria e deixou centenas de fotografias e de rolos por revelar por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após a sua morte, com excelentes fotografias, que ela nunca viu.

Publicada em 7/11/2014


Nota:
Pouco mais de um mês depois de ter escrito este post recebia 
uma Nikon automática, como presente de Natal do meu filho. 

4 comentários:

  1. Guardo todas essas relíquias. Há uns dias até encontrei o meu 1º telemóvel.
    Relativamente à máquina fotográfica e porque gosto de todos os pormenores apontados excetuando o rolo, claro, o telemóvel continua a não me satisfazer mesmo quase nada. Só para registos rápidos, prementes. De resto, continuo a adorar a edição das fotos saboreando assim cada momento captado. Bom fim de semana, Teresa. :))

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    1. Ainda guardo no decote a terra levantada pelas motos no Lisboa-Dakar 2005/2006. Acho que nunca tirei tão boas fotografias. Mas também guardo algumas decepções irreparáveis, fotografias únicas, perdidas com a troca de rolo, quebras de stock, rolos comprados com a urgência de um maço de cigarros (nunca fumei, mas suponho ser parecido).
      O telemóvel ajudou-me nos primeiros registos fotográficos do blogue, mas não há como ter uma máquina fotográfica nas mãos. No entanto reconheço que as melhores de todas foram as fotografias que tirei com os olhos. :))

      Bom fim-de-semana para ti também, Ava.

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  2. Os meus amigos fotógrafos estão todos a regressar às analógicas.

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    1. Acredito, Cuca. Uma vez li uma entrevista ao Paulo Nozolino em que ele referia nunca ter usado uma máquina automática. Acho que a fotografia "a sério" tem um pouco a ver com isso.

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