Atalhos de Campo


23.8.16

Florentino Ariza

Há muitos anos, quando li O Amor nos Tempos de Cólera, tinha uma cadela chamada Tess. Como Tess era um cruzamento de Cocker spaniel inglês com americano, a mistura harmoniosa das duas raças adoçara-lhe os traços, conferindo-lhe um eterno focinho de cachorro. Passeava várias vezes ao dia de forma descontraída pelos jardins que circundavam o prédio, até que teve o primeiro cio e os passeios passaram a ser curtos e higiénicos, para evitar encontros desagradáveis e situações constrangedoras. Era fácil lidar com a situação desde que os outros cães viessem todos à trela: bastava avisar, com um sorriso conciso dada a circunstância embaraçosa, está em cio, e os donos, de imediato compreensivos, traccionavam com quanta força tinham os seus mastins, que ladravam e ganiam enquanto Tess abanava a cauda loira, e mantinha o olhar seráfico das virgens. Correu tudo muito bem até ao dia em que apareceu um cão velho e trôpego sobre as quatro patas tortas, mas de olhar viçoso e cauda espevitada, arrebitando as orelhas, uma para cima, outra para o lado, a fazer ouvidos de mercador (quem sabe por surdez), aos atenciosos pedidos - por vezes gestuais - para se afastar da jovem e angelical Tess. Mas o nosso ancião era persistente, esperara uma vida inteira pela sua donzela para a acompanhar de perto, e os passeios passaram a ser desesperados (para mim, bem entendido). Mal abria a porta do prédio aí vinha ele, titubeante, compondo o pêlo com uma sacudidela que quase o fazia cair. Um dia, ao chegar a casa a protestar, já um tanto encolerizada, disse: - aquele Florentino Ariza não sai daqui nem por nada! - e foi aí que o velho apaixonado passou a ser digno do seu verdadeiro nome. Florentino Ariza continuou por ali mais uns tempos. Devia ter dono pois estava alimentado e limpo. Como trocámos as horas aos passeios continuava à espera, e quando eu saía de casa para ir para a faculdade, fazia uma grande parte do trajecto atrás de mim, mantendo-se a uma distância de segurança. Satisfazia-se perseguindo uma ideia, ou quem sabe os seus olhos gastos se contentassem apenas com o que o olfacto lhe sugerira.

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