Já era tarde: a ocasião ia com ela na carruagem das mulas, tinha estado sempre com ela na mesma cadeira em que estava sentada, mas agora fora-se para sempre. A verdade é que depois de tantas cachorrices enterradas que tinha feito por ele, depois de tanta sordidez suportada para ele, ela tinha-se-lhe adiantado na vida e estava muito para lá dos vinte anos de idade que ele tinha a mais do que ela: envelhecera para ele. Gostava tanto dele que em vez de o enganar preferiu continuar a amá-lo ainda que tivesse de lho dar a conhecer de uma forma brutal.
- Não - disse-lhe. - Ia sentir que me deitava com o filho que nunca tive.
Gabriel Garcia Marquez/ O Amor nos Tempos de Cólera
(...) e só foi cruzar o corredor pr'eu alcançar a porta ali do quarto, boiando vagamente à luz tränquila duma vela: deitado de lado, a cabeça quase tocando os joelhos recolhidos, ele dormia, não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria aos seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto.
Raduan Nassar/ Um copo de cólera
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