Atalhos de Campo


30.8.16

desenho modelo

- Doutora, doutora! - Ah!, D. Emília, bom dia. - Virei-me para a porta da minha vizinha ainda mal rodara a primeira volta na fechadura. - A doutora não esteve cá no fim-de-semana, pois não? - perguntou ofegante a D. Emília. - Não, D. Emília, estou a chegar neste momento; - respondi - passou-se alguma coisa? - e deixei a porta fechada com a chave como estava, voltando-me completamente para ela. - Sabe lá! Ainda bem que estava para fora, podia ter apanhado um grande susto ontem... - Que aconteceu, D. Emília? - fixei-a com interesse, pousando a mochila no chão. - Bem, é que ontem de manhã quando abri a minha porta, estava aqui um homem, - ofegou - ainda novo, bem constituído, mas todo nu, todo nuzinho mesmo, aqui - e fez um gesto longo, com a mão a tremer sobre o patamar entre as duas casas, - estendido a dormir, com a cabeça no seu tapete. - O quê? Um homem nu, deitado aqui no chão a dormir, com este frio? A cara... no tapete? - e instintivamente saltei do tapete, impressionada - Mas, quem era esse homem, D. Emília, diz bem, se eu fosse a sair de casa e deparasse com esse espectáculo morria de susto... até o poderia pisar sem querer! - Ninguém sabia, doutora. Aqui, todo nuinho, abanei-o e ele nada, parecia morto. Filho, disse-lhe, acorda... mas ele nem se mexia, não tinha documentos, nada que o identificasse, só um fio de ouro fininho ao pescoço, com uma medalhinha, - claro, pois se estava nu, que grande problema, D. Emília. E depois? - Olhe doutora, até metia dó, via-se-lhe a, hum, assim, a pilita, ele estava de costas, talvez um pouco de lado, sabe, eu não espreitei, calhava... aparecia ali, por entre coxas - e um brilho malicioso atravessou-lhe o olhar, já muito pregueado pelos serões de costura pela noite fora, o que me fez esboçar um sorriso de quase ternura - e então, - continuou, respirando aceleradamente - como ele não acordava nem por nada, pedi à Luísa ali do primeiro andar que chamasse a polícia e pusemos-lhe uma colcha por cima, está a ver, para lhe cobrir as partes, ela também viu e parecia mal, porque começou a juntar-se gente à volta dele quando resolvemos tocar às campainhas todas, não tivesse ele vindo de alguma destas casas, mas eu nunca o tinha visto e já cá estou para mais de cinquenta anos, eu e a Luísa somos as mais antigas, mas sabe como é, agora é um corrupio, ninguém pára aqui por muito tempo... - E afinal como acabou essa história, D. Emília, tem que me contar depressa, que eu vim só para deixar as minhas coisas e tenho que sair já para ir trabalhar, - atalhei, ansiosa pela conclusão. - Bem, afinal ele é amigo de uma dessas raparigas que vêm para aí para esses cursos dos Eurasmos ou lá o que é isso, e quando ela desceu viu-o aqui e disse que ele é daqueles que não acorda, mas se levanta de noite e não sabe o que faz... - sonâmbulo? - sim, isso, ela devia ter fechado a porta à chave mas esqueceu-se, e então aconteceu isto. - Que perigo, andar assim pelas escadas, podia ter caído. E a polícia? - Bem, quando a polícia chegou ela já estava com ele e já o tinha conseguido acordar, ele lá foi enrolado na colcha, identificou-se e correu tudo bem. Mas sabe doutora, quando ele abalou eu não consegui deixar de lhe dizer: Meu filho, vou-te dar um conselho porque tenho idade para ser tua avó, se és mesmo sonâmbulo passa ao menos a dormir de pijama.     

6 comentários:

  1. O que já me ri, Teresa, com o desfecho, aliás, com o comentário final da D. Emília. :))

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    1. A D. Emília ganhou anos de vida, embora tenha dado um bom conselho :))

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  2. Mas que susto que eu apanharia se fosse comigo :))

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    1. Foi o que pensei na altura e só me passava pela cabeça o susto que não seria se eu estivesse em casa e se ouvisse algum estrondo à minha porta. Enfim, contado até teve graça. :))

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  3. Acho que a Dona Emília gostou de ver o rapaz, assim nuzinho, com a pilita a espreitar! ;)

    Boa noite, Teresa, com ou sem pijama :)

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    1. A D. Emília era boa a tirar medidas por deformação profissional...
      Boa noite, Maria. :)

      (whatever!)

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