Atalhos de Campo


22.8.16

de um trago

Ao estrear o fato de banho ontem, recordei o momento em que a dona da loja de bikinis mo passou para a mão dizendo-me, é de óptima qualidade, esta marca é muito cara, mas este está a um bom preço porque é um modelo que não fica bem a toda a gente. Olhei-me ao espelho. Estou ligeiramente mais magra do que estava na altura em que o experimentei numa loja em Santa Catarina, Florianópolis, no Outono do ano passado. Fiquei com ele por uma espécie de desafio a mim própria. O fato de banho consiste na verdade em duas peças unidas à frente por uma tira larga da mesma lycra, recortada dos lados em duas meias-luas. Gosto dele, agora tenho que fazer tudo para que ele me assente o melhor possível. Fui para a piscina de cabelo lavado e apanhado, disposta a ler, finalmente, o livro de Raduan Nassar, Um copo de cólera. Sentei-me virada para o sol pela primeira vez este ano. Não sei a que atribuir tal solenidade, se à leitura do livro, se à má consciência de ter deixado passar o Verão sem me descontrair, sem nadar, sem me bronzear. Ao longo da leitura reparei que há um único ponto final por capítulo e que mudei três vezes de posição: a primeira no fim do segundo capítulo, para ir a correr buscar um chapéu de palha; a segunda para me aproximar das escadas da piscina a acompanhar um resto de sol antes de entrar na água (desta vez sem saber bem onde parar, se num ponto e vírgula, se numa exclamação, se nele, se nela, pois que no auge da brutalidade do discurso precisei de me refrescar); a terceira, e última vez, no final do livro. Quando me levantei para ir dar um passeio até ao portão, ouvi, atrás do jacto de água que regava os ligustros: afinal o fato de banho é bonito, ou então és tu que és bonita. Suspirei de alívio, a discussão ficara abafada dentro das cem páginas, e agora, como no livro, era a reconciliação do epílogo. Sorri, enrolando-me na toalha. Começava a arrefecer. Ao voltar, rendida àquela escrita, àquele morder certeiro com os dentes das idéias(pág.59), senti que precisava de um banho quente.     

8 comentários:

  1. Os meus fatos de banho, já vesti. Também já apanhei sol e mergulhei na piscina. Tenho andado às voltas com leituras daqui e dali. Não essa (que até fiquei com vontade de fazer) mas leituras repescadas dos meus livros velhos, quase esquecidos. Só não tenho plantas como essas, que escondem vozes e piropos. :)

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    1. Gosto tanto dos meus livros velhos e de encontrar coisas, também velhas, dentro deles.
      Quanto ao resto, aconselho vivamente, tanto o livro, como um arbusto destes... :)

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  2. é muito bom entrar aí, nesse mundo teu. quase que sinto debaixo dos pés o caminho até ao portão :)

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    1. é um caminho ladeado de choupos e palmeiras. quem vai ao portão tem que tocar com os dedos nas grades, senão não vale. :)

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  3. Pois tens de o usar mais vezes, nadar mais vezes e ir tocar nas grades do portão. Sabe bem saber que o fato de banho fica bem :)

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    1. Sinto urgência em nadar, e tem que ser agora, antes que a água arrefeça. :)
      Obrigada, GM.

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