Atalhos de Campo


13.8.16

Bonifácio, o gato # repost 11

Gosto de azinheiras, e de esta em particular, que estende os braços numa posição impossível, como uma bailarina que tivesse ficado petrificada no seu derradeiro movimento, para sempre em equilíbrio perfeito isolada no cimo de um monte, leal à ruína desse último palco que domina todo o vale de onde os espectadores há muito desapareceram. Uma árvore de um dono só, mesmo que esse dono seja agora um gato, único herdeiro da altivez antiga da ruinosa aristocracia. Hoje mora em minha casa, esse enorme gato bicolor, mais branco do que preto, tomando conta de todos os confortos, apontando os olhos verdes para longe de Lisboa, afinando as pupilas para a ponte sobre o Tejo, o pêlo sedoso a faiscar à luz das velas, sob o luar de Janeiro. Lembro-me dele rameloso, recolhido pelo caseiro na capelinha abandonada numa manhã chuvosa de Primavera, único sobrevivente de uma ninhada sem sorte. Fraco e moribundo, superara todas as expectativas ao conseguir contrariar o pior dos prognósticos. Herdara desse homem determinado e atento a única lei da conservação, aprendera com ele a antecipar o impossível, a criar a sua própria trincheira, a respirar o ar gelado das madrugadas, com as suas mãos nodosas, a presteza, com os olhos inquiridores, a sagacidade, com os ouvidos atentos, o absoluto. Quando olho para este gato, que nunca será meu, vejo planícies a perder de vista. Sobre o homem, digo que é uma azinheira.



 Publicado a 14/5/2014

2 comentários:

  1. e ser azinheira de um gato, é mais do que aquilo que alguma vez seremos...

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    1. uma azinheira com sorte; e um gato também.

      bonito o que escreveste, Manel, como sempre.

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