Atalhos de Campo


31.8.16

dias de lixo

os dias de lixo são difíceis de conciliar; embalo-os em apneia - 
sou verdadeiramente maestrina de lixos. posso até dizer que sou 
sua rainha: abafo-os, etiquetados.

Lixo



- Garbage. All I've been thinking about all week is garbage. I mean, I just can't stop thinking about it. 

- What kind of thoughts about garbage?

- Oh, how to say... I've gotten real concern over what's gonna happen with all the garbage. We've got so much of it. You know, I mean, we have to run out of places to put this stuf eventually. The last time I... I started feeling this way is when, that barge stranded and, you know, it's going around the island and nobody would claim it. Do you remember that?

- Yes, I remember. Do you have any idea what may have triggered this concern?

- Yeah. Yeah. You see, the other night John was taking out the garbage, and he kept spilling things out of the container, and that made me... a sort of imagining, like, a garbage can, that produces garbage. And it doesn't stop, it keeps producing garbage. And it keeps overflowing. And, you know, what would you do to try to stop something like that? (...)

30.8.16

desenho modelo

- Doutora, doutora! - Ah!, D. Emília, bom dia. - Virei-me para a porta da minha vizinha ainda mal rodara a primeira volta na fechadura. - A doutora não esteve cá no fim-de-semana, pois não? - perguntou ofegante a D. Emília. - Não, D. Emília, estou a chegar neste momento; - respondi - passou-se alguma coisa? - e deixei a porta fechada com a chave como estava, voltando-me completamente para ela. - Sabe lá! Ainda bem que estava para fora, podia ter apanhado um grande susto ontem... - Que aconteceu, D. Emília? - fixei-a com interesse, pousando a mochila no chão. - Bem, é que ontem de manhã quando abri a minha porta, estava aqui um homem, - ofegou - ainda novo, bem constituído, mas todo nu, todo nuzinho mesmo, aqui - e fez um gesto longo, com a mão a tremer sobre o patamar entre as duas casas, - estendido a dormir, com a cabeça no seu tapete. - O quê? Um homem nu, deitado aqui no chão a dormir, com este frio? A cara... no tapete? - e instintivamente saltei do tapete, impressionada - Mas, quem era esse homem, D. Emília, diz bem, se eu fosse a sair de casa e deparasse com esse espectáculo morria de susto... até o poderia pisar sem querer! - Ninguém sabia, doutora. Aqui, todo nuinho, abanei-o e ele nada, parecia morto. Filho, disse-lhe, acorda... mas ele nem se mexia, não tinha documentos, nada que o identificasse, só um fio de ouro fininho ao pescoço, com uma medalhinha, - claro, pois se estava nu, que grande problema, D. Emília. E depois? - Olhe doutora, até metia dó, via-se-lhe a, hum, assim, a pilita, ele estava de costas, talvez um pouco de lado, sabe, eu não espreitei, calhava... aparecia ali, por entre coxas - e um brilho malicioso atravessou-lhe o olhar, já muito pregueado pelos serões de costura pela noite fora, o que me fez esboçar um sorriso de quase ternura - e então, - continuou, respirando aceleradamente - como ele não acordava nem por nada, pedi à Luísa ali do primeiro andar que chamasse a polícia e pusemos-lhe uma colcha por cima, está a ver, para lhe cobrir as partes, ela também viu e parecia mal, porque começou a juntar-se gente à volta dele quando resolvemos tocar às campainhas todas, não tivesse ele vindo de alguma destas casas, mas eu nunca o tinha visto e já cá estou para mais de cinquenta anos, eu e a Luísa somos as mais antigas, mas sabe como é, agora é um corrupio, ninguém pára aqui por muito tempo... - E afinal como acabou essa história, D. Emília, tem que me contar depressa, que eu vim só para deixar as minhas coisas e tenho que sair já para ir trabalhar, - atalhei, ansiosa pela conclusão. - Bem, afinal ele é amigo de uma dessas raparigas que vêm para aí para esses cursos dos Eurasmos ou lá o que é isso, e quando ela desceu viu-o aqui e disse que ele é daqueles que não acorda, mas se levanta de noite e não sabe o que faz... - sonâmbulo? - sim, isso, ela devia ter fechado a porta à chave mas esqueceu-se, e então aconteceu isto. - Que perigo, andar assim pelas escadas, podia ter caído. E a polícia? - Bem, quando a polícia chegou ela já estava com ele e já o tinha conseguido acordar, ele lá foi enrolado na colcha, identificou-se e correu tudo bem. Mas sabe doutora, quando ele abalou eu não consegui deixar de lhe dizer: Meu filho, vou-te dar um conselho porque tenho idade para ser tua avó, se és mesmo sonâmbulo passa ao menos a dormir de pijama.     

dois girassóis numa jarra


29.8.16

gira

és o sol da meia-noite

laços

O laço pessoal, a amizade individual, encontram-se unicamente em 
animais cuja agressividade intra-específica é muito desenvolvida. 
O laço é mesmo tanto mais forte quanto mais agressiva é a espécie; 
poucos peixes são mais agressivos que os ciclídeos, poucas aves são 
mais do que os gansos; e o mamífero cuja agressividade é proverbial, 
a bestia senza pace de Dante, o lobo, é o melhor e mais fiel dos amigos. 
(...)
Em todos os pontos, este laço é análogo às funções que em nós, homens, 
são solidárias com os sentimentos de amor e de amizade na sua forma 
mais pura e mais nobre.


Tudo o que acabei de dizer neste capítulo deveria pôr-nos seriamente 
de sobreaviso contra o estúpido orgulho mental de muitos de nós.

Konrad Lorenz 
A Agressão/ Uma História Natural do Mal

nas asas da amizade

27.8.16

Parque Jurássico # repost 13

Por vontade dela passava os dias atrás de mim. Mal me pressente perto da capoeira vem a correr com um gorjeio de contentamento; se eu entro com comida contrasta com a azáfama dos outros galináceos e fica acocorada à espera de festas. Das primeiras vezes achei estranho, tive receio de lhe tocar, mas ela passou a impor a sua vontade e exigiu atenção permanecendo quieta com as asas ligeiramente abertas, hipnotizando-me com o olhar. Agora temos o nosso ritual, passo-lhe primeiro a mão pelas penas do dorso, tão macias e brancas, tão limpas e penteadas pelo bico em sessões prolongadas ao ar livre, e depois chamo-lhe peruzinha, deusa branca, minha deusa, e outras coisas ridículas, enquanto lhe faço festas na cabeça e ela fecha e abre os olhos, consolada. Mexe-se com dificuldade, carregando de cada lado do peito com vários quilos de bife, razão pela qual foi seleccionada. Há uns tempos disse-lhe, em segredo, que esquecesse aquela história dos bifes, que enquanto eu vivesse ela também viveria. Ela, em sinal de agradecimento, pôs sessenta ovos. E agora já nem sei se afinal sou eu a ave jurássica, ou se é ela que é igual a mim.

Publicado a 15/5/2014

Nota:

Peruzinha continua viva, sendo a mais velha da capoeira e líder absolutista. Defende os mais fracos da imposição dos mais fortes, enfrentou um galo serial killer, protege a outra perua do ataque dos pavões. Entrou em duelo com o actual galo para assumir o comando deixando como prova irrefutável as suas penas brancas espalhadas pelo chão (e a crista do galo às tiras). Sofreu apenas algumas escoriações que exibiu como exemplo, e a paz voltou ao galinheiro. A sua figura impõe-se, vigilante e matriarcal. Quando chegaram os gansos fez-se um lago. Ela achou óptima ideia:

26/8/2016

26.8.16

em que estará Ele a pensar?



































































































falsa dócil

Um dia tranquilo, era, para Lenz, um dia de saúde da natureza e, nesse sentido, dia em que esta acumulava forças que mais cedo ou mais tarde atiraria contra os humanos. Lenz não confiava na natureza.


Ele receava da mesma maneira um terramoto e um dia de sol em que pássaros desconhecidos pareciam iniciar uma amizade eterna com casais de apaixonados que não conhecem. Nesses dias calmos, Lenz via uma saúde falsa, uma preparação da maldade - alguém, com cuidado, limpava o cadafalso na véspera de a vítima o pisar. 

Por vezes Lenz chegava mesmo a formular a questão, dirigindo-se mentalmente para o jardim tranquilo: em que estará ele a pensar?

Gonçalo M. Tavares/ Aprender a rezar na Era da Técnica 

Escala de Richter



Margens inertes abrem os seus braços,
Um grande barco no silêncio parte.
Altas gaivotas nos ângulos a pique,
Recém-nascida a luz, perfeita a morte.

Um grande barco parte abandonando
As colunas dum cais ausente e branco.
E o seu rosto busca-se emergindo
Do corpo sem cabeça da cidade.

Um grande barco desligado parte
Esculpindo de frente o vento norte
Perfeito o azul do mar, perfeita a morte
Formas claras e nítidas de espanto.

Sophia de Mello Breyner Andresen/ Barco 

25.8.16

réplica em Amatrice

Está tudo bem. Agora descanse um bocadinho, que já lhe trazemos o bebé. Não se esqueça de manter os pés cruzados; é muito importante para controlar a hemorragia. Anuí com um murmúrio. O quarto estava mergulhado na penumbra. A enfermeira verificou se a agulha do soro continuava bem fixa pelo adesivo colocado sobre as costas da mão direita e diminuiu o fluxo, pressionando ligeiramente a roda de controlo para a frente. Depois a sua silhueta branca começou a esfumar-se por entre as sombras dos meus olhos semicerrados e a porta fechou-se ao mesmo tempo que eles. De imediato o quarto estremeceu com violência e a cama avançou e recuou sobre os rodízios. A enfermeira voltou atrás, e mal apareceu perguntei-lhe, assustada, com intenção de me levantar: - Foi um tremor de terra, não foi? Foi, mas mantenha-se calma na posição que lhe recomendei, que eu já venho. E saiu. Naquele momento passou-me tudo pela cabeça: o meu filho recém-nascido no berçário, eu sem me poder mexer, sozinha no hospital, a agitação nos corredores. Cruzei os pés com mais força, como se isso salvasse a humanidade, e devo ter-me posto a rezar, sentindo-me absolutamente vulnerável. Felizmente não houve réplicas, mas se houvesse, e o pânico se instalasse, levantar-me-ia sem demora da cama, tenho a certeza, e correria como louca por aqueles corredores fora até encontrar o berçário para pegar no meu filho, que talvez ainda dormisse de mãozinhas fechadas e pulseira azul, onde estava escrito o apelido.

23.8.16

Florentino Ariza

Há muitos anos, quando li O Amor nos Tempos de Cólera, tinha uma cadela chamada Tess. Como Tess era um cruzamento de Cocker spaniel inglês com americano, a mistura harmoniosa das duas raças adoçara-lhe os traços, conferindo-lhe um eterno focinho de cachorro. Passeava várias vezes ao dia de forma descontraída pelos jardins que circundavam o prédio, até que teve o primeiro cio e os passeios passaram a ser curtos e higiénicos, para evitar encontros desagradáveis e situações constrangedoras. Era fácil lidar com a situação desde que os outros cães viessem todos à trela: bastava avisar, com um sorriso conciso dada a circunstância embaraçosa, está em cio, e os donos, de imediato compreensivos, traccionavam com quanta força tinham os seus mastins, que ladravam e ganiam enquanto Tess abanava a cauda loira, e mantinha o olhar seráfico das virgens. Correu tudo muito bem até ao dia em que apareceu um cão velho e trôpego sobre as quatro patas tortas, mas de olhar viçoso e cauda espevitada, arrebitando as orelhas, uma para cima, outra para o lado, a fazer ouvidos de mercador (quem sabe por surdez), aos atenciosos pedidos - por vezes gestuais - para se afastar da jovem e angelical Tess. Mas o nosso ancião era persistente, esperara uma vida inteira pela sua donzela para a acompanhar de perto, e os passeios passaram a ser desesperados (para mim, bem entendido). Mal abria a porta do prédio aí vinha ele, titubeante, compondo o pêlo com uma sacudidela que quase o fazia cair. Um dia, ao chegar a casa a protestar, já um tanto encolerizada, disse: - aquele Florentino Ariza não sai daqui nem por nada! - e foi aí que o velho apaixonado passou a ser digno do seu verdadeiro nome. Florentino Ariza continuou por ali mais uns tempos. Devia ter dono pois estava alimentado e limpo. Como trocámos as horas aos passeios continuava à espera, e quando eu saía de casa para ir para a faculdade, fazia uma grande parte do trajecto atrás de mim, mantendo-se a uma distância de segurança. Satisfazia-se perseguindo uma ideia, ou quem sabe os seus olhos gastos se contentassem apenas com o que o olfacto lhe sugerira.

Plot



como nos filmes do Altman: uma vida real num mundo
imaginário

Duas mulheres

Já era tarde: a ocasião ia com ela na carruagem das mulas, tinha estado sempre com ela na mesma cadeira em que estava sentada, mas agora fora-se para sempre. A verdade é que depois de tantas cachorrices enterradas que tinha feito por ele, depois de tanta sordidez suportada para ele, ela tinha-se-lhe adiantado na vida e estava muito para lá dos vinte anos de idade que ele tinha a mais do que ela: envelhecera para ele. Gostava tanto dele que em vez de o enganar preferiu continuar a amá-lo ainda que tivesse de lho dar a conhecer de uma forma brutal.
- Não - disse-lhe. - Ia sentir que me deitava com o filho que nunca tive.

Gabriel Garcia Marquez/ O Amor nos Tempos de Cólera 


(...) e só foi cruzar o corredor pr'eu alcançar a porta ali do quarto, boiando vagamente à luz tränquila duma vela: deitado de lado, a cabeça quase tocando os joelhos recolhidos, ele dormia, não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria aos seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto.

Raduan Nassar/ Um copo de cólera 

22.8.16

de um trago

Ao estrear o fato de banho ontem, recordei o momento em que a dona da loja de bikinis mo passou para a mão dizendo-me, é de óptima qualidade, esta marca é muito cara, mas este está a um bom preço porque é um modelo que não fica bem a toda a gente. Olhei-me ao espelho. Estou ligeiramente mais magra do que estava na altura em que o experimentei numa loja em Santa Catarina, Florianópolis, no Outono do ano passado. Fiquei com ele por uma espécie de desafio a mim própria. O fato de banho consiste na verdade em duas peças unidas à frente por uma tira larga da mesma lycra, recortada dos lados em duas meias-luas. Gosto dele, agora tenho que fazer tudo para que ele me assente o melhor possível. Fui para a piscina de cabelo lavado e apanhado, disposta a ler, finalmente, o livro de Raduan Nassar, Um copo de cólera. Sentei-me virada para o sol pela primeira vez este ano. Não sei a que atribuir tal solenidade, se à leitura do livro, se à má consciência de ter deixado passar o Verão sem me descontrair, sem nadar, sem me bronzear. Ao longo da leitura reparei que há um único ponto final por capítulo e que mudei três vezes de posição: a primeira no fim do segundo capítulo, para ir a correr buscar um chapéu de palha; a segunda para me aproximar das escadas da piscina a acompanhar um resto de sol antes de entrar na água (desta vez sem saber bem onde parar, se num ponto e vírgula, se numa exclamação, se nele, se nela, pois que no auge da brutalidade do discurso precisei de me refrescar); a terceira, e última vez, no final do livro. Quando me levantei para ir dar um passeio até ao portão, ouvi, atrás do jacto de água que regava os ligustros: afinal o fato de banho é bonito, ou então és tu que és bonita. Suspirei de alívio, a discussão ficara abafada dentro das cem páginas, e agora, como no livro, era a reconciliação do epílogo. Sorri, enrolando-me na toalha. Começava a arrefecer. Ao voltar, rendida àquela escrita, àquele morder certeiro com os dentes das idéias(pág.59), senti que precisava de um banho quente.     

os girassóis ardentes

Hoje eu vi
Soldados cantando por estradas de sangue
Frescura de manhãs em olhos de crianças
Mulheres mastigando as esperanças mortas

Hoje eu vi homens ao crepúsculo
Recebendo o amor no peito.
Hoje eu vi homens recebendo a guerra
Recebendo o pranto como balas no peito.

E, como a dor me baixasse a cabeça,
Eu vi os girassóis ardentes de Van Gogh. 

Manoel de Barros/ Os Girassóis de Van Gogh

natureza-morta com beringelas e girassóis


21.8.16

traje

o silêncio é um hábito interior

Paisagens com girassóis


























As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

José Tolentino Mendonça/ Os Girassóis



atalho & via rápida

Somos todos escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos campos largos no meio de um café de viela; uma sombra no campo encolhe-nos para dentro, e abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um chegar da noite, até entre coisas do dia, alarga, como um leque que se abra lento, a consciência íntima de dever-se repousar.

Fernando Pessoa/ Livro do Desassossego

20.8.16

memória fotográfica

- Três coisas - disse-me - renovar o Cartão de Cidadão, 
ir ao cabeleireiro, comprar uma prenda.

Kodachrome # repost 12


Há dias em que tenho saudades da minha Nikon analógica, de colocar o filme e de o fazer deslizar com os dedos até prender, do som da máquina a rebobinar, da ansiedade para trocar de rolo, da focagem, da regulação da abertura, do obturador, da velocidade, da forma como as minhas mãos gostavam de a ter nas mãos, do peso da mala, da espera pelas provas de contacto, da surpresa, do ritual. Está guardada, imprestável nos dias que correm, imprestável para fotografar para o blogue, imprestável como outras iguais, vítimas desta necessidade do imediato, da partilha simultânea, da aclamação estridente, do elogio, desta correria em que o bom substitui o óptimo, porque a urgência é implacável, as imagens correm aos milhões por todo o lado, não se contemplam, consomem-se. Por isso me recuso a comprar outra, fotografo com o telemóvel porque tenho essa noção de precaridade da imagem, do desgaste a que está sujeita, da banalização. Mas não perdi a esperança de voltar a fotografar com ela, de arranjar uma câmara escura e de, no meu silêncio, fotografar para ninguém, apenas por encantamento. Como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria e deixou centenas de fotografias e de rolos por revelar por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após a sua morte, com excelentes fotografias, que ela nunca viu.

Publicada em 7/11/2014


Nota:
Pouco mais de um mês depois de ter escrito este post recebia 
uma Nikon automática, como presente de Natal do meu filho. 

queixume ao luar de agosto

19.8.16

à velocidade da luz


falso alarme

As andorinhas partiram há três dias. Foi depois de uma noite subitamente fria, mas deixaram vagos os beirais ainda quentes. Aos fios eléctricos juntou-se o baloiço abandonado nas traseiras; a piscina cristalizou o azul com a eficácia da película aderente sobre um enorme tabuleiro adiado. Dos ramos mais vazios dos pinheiros solta-se agora o silêncio incolor do aguilhão das carumas. Foram-se todos, também. Na estrada passam dois atrelados carregados com grandes pranchas de cortiça ainda em sangue; um milhafre pia, sobrevoando o montado. Os cães ladram inquietos ao lusco-fusco: quando vou averiguar ainda consigo ver a bela cauda da raposa que rondava a capoeira. Ao silvo matinal o rebanho corre apressado, a mando de um apito feito com um pequeno caroço de alperce. Falso alarme.    

16.8.16

rir melhor

- Sabes qual é afinal o nosso tipo de homem? - perguntava-me, depois 
de uma longa conversa sobre as nossas vicissitudes com o sexo oposto. 
- Uma mulher! - respondi em coro com ela, após curtíssima hesitação. 
E desatámos a rir à gargalhada. 

13.8.16

Bonifácio, o gato # repost 11

Gosto de azinheiras, e de esta em particular, que estende os braços numa posição impossível, como uma bailarina que tivesse ficado petrificada no seu derradeiro movimento, para sempre em equilíbrio perfeito isolada no cimo de um monte, leal à ruína desse último palco que domina todo o vale de onde os espectadores há muito desapareceram. Uma árvore de um dono só, mesmo que esse dono seja agora um gato, único herdeiro da altivez antiga da ruinosa aristocracia. Hoje mora em minha casa, esse enorme gato bicolor, mais branco do que preto, tomando conta de todos os confortos, apontando os olhos verdes para longe de Lisboa, afinando as pupilas para a ponte sobre o Tejo, o pêlo sedoso a faiscar à luz das velas, sob o luar de Janeiro. Lembro-me dele rameloso, recolhido pelo caseiro na capelinha abandonada numa manhã chuvosa de Primavera, único sobrevivente de uma ninhada sem sorte. Fraco e moribundo, superara todas as expectativas ao conseguir contrariar o pior dos prognósticos. Herdara desse homem determinado e atento a única lei da conservação, aprendera com ele a antecipar o impossível, a criar a sua própria trincheira, a respirar o ar gelado das madrugadas, com as suas mãos nodosas, a presteza, com os olhos inquiridores, a sagacidade, com os ouvidos atentos, o absoluto. Quando olho para este gato, que nunca será meu, vejo planícies a perder de vista. Sobre o homem, digo que é uma azinheira.



 Publicado a 14/5/2014

12.8.16

Lei das Sesmarias

Ao visitar de novo o monte abandonado, verifiquei que a derrocada continuou, impiedosa. Apenas a pequena capela, em tempos saqueada, no telhado da qual foi implantado um marco geodésico, persiste de pé, intacta. Linda, mantém ainda restos dos antigos frescos nas paredes grossas e no altar em alvenaria. Atrás, marcado na parede como uma sombra, está o contorno do crucifixo, arrancado da base. Em ambos os lados, os nichos altos e simétricos, estão também vazios dos seus santos. O tecto abobadado é uma obra de arte, agora decorada com ninhos de andorinha. Não há porta (suponho que terá sido também levada). O resto que se segue são escombros da antiga casa implantada no alto da colina. A paisagem em volta é de cortar a respiração: montados com sobreiros esparsos alternados com olivais antigos; no sopé, a uma certa distância, distingue-se outro monte e a fina estrada em linha recta até lá. O horizonte, suavemente bordado por colinas cinza azulado, descreve um circulo perfeito para receber a cúpula do céu. Ao nosso lado uma figueira sequiosa, repleta de figos, estende os braços nus como uma mãe cansada. Fazendo o caminho de volta ao carro, passa-se por um curro desmoronado e por aquilo que parecem ter sido dois estábulos. A imensa azinheira secular ali permanece pousada debaixo do céu, solitária como um enorme candelabro esquecido, de mil luzes acesas ao pôr-do-sol. 

incen(diário)s

Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas

a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma

não despertes o que não podes calar

José Tolentino Mendonça/ Os Incêndios 

10.8.16

Olímpica



a leveza, a graciosidade, a versatilidade, a perfeição,
a resiliência, a idoneidade, a modéstia, o carácter.

Nadia Comaneci. 1976 - Montreal
                1980 - Moscovo

9.8.16

Passagem para a noite (27)









































































tons pastel

O azul, o verde, o rosa, o salmão, o bege, e ainda o branco; eram todos lindos. Vestidos clássicos, parecidos, diferindo em pequenos pormenores, com bolsos e palas, presilhas pinças e pespontos, ajustados por cintos feitos no mesmo tecido, um linho pesado que lhe assentava sem um vinco. Depois de tratar de nós e de nos pôr a almoçar para voltarmos às aulas da tarde, a minha mãe libertava-se do roupão de riscas azul escuro, punha uma fita larga a prender-lhe o cabelo negro, e ia tomar banho. Eu aproveitava todos os bocadinhos da sua companhia e ficava a vê-la vestir-se e a conversar com ela na penumbra do quarto, recostada na cama dos meus pais. Sem ter consciência disso, acabava por dar comigo a admirar-lhe a nudez, até que a combinação lhe deslizava pelo corpo como uma luva, a pele muito branca e acetinada desaparecia subitamente sob ela, e eu pensava muitas vezes em como a minha mãe era bela. O vestido esperava irrepreensível, sobre a colcha. Depois de estar vestida e penteada, a minha mãe calçava uns sapatos de salto anabela, não muito altos, e saía. O sol iluminava-lhe o semblante e seguia-a com pequenos flashes de luz dourada, enquanto ia avançando pela rua em direcção à papelaria onde lhe guardavam o jornal e as revistas. Uma vez por semana, geralmente à quinta-feira, atravessava a cidade pela sombra até ao viveiro da Câmara e voltava com dois enormes ramos de bocas-de-lobo zínias e malmequeres, de cores fortes e variadas a contrastarem com os tons pastel dos seus vestidos. Nesses dias, quando chegávamos a casa, a minha mãe levantava os magníficos olhos do livro que pousara no colo, e de súbito as jarras enchiam-se de flores frescas a cheirar a Verão. E era assim que a minha mãe nos sorria.

8.8.16

ponto de fuga


arrumações de verão

Ao olhar para o jardim, reparo que tudo na minha vida
foi arrumado segundo uma lógica. Até os sentimentos.

prião

- O computador está tão lento... o que achas que pode ser?
- Vou ver, mas não sei se consigo resolver.
- Porquê?
- O computador tem dez anos, mãe.


- Então?
- Acho que melhorou. Apaguei umas coisas que estavam a mais.
- O quê, o blogue?
 (risos).

6.8.16

Num outro tempo como hoje # repost 10



Cecil Taylor um percussionista do piano, que acabou o concerto de abertura de há três anos com um longo poema, o legendário baterista Sunny Murray, cuja performance me decepcionou há dois, John Zorn que nos deu uma lição de surf no ano dos seus sessenta, e ontem com James "Blood" Ulmer a conseguir despedir-se do público(que enchia o anfiteatro da Gulbenkian ao ar livre) com um adeus de palmas com muitas palmas de mãos, sinto sempre que esta é a minha aposta de jazz anual, a que não falto há anos, fiel, mesmo que a aposta, agora mais moderada, tenha sido demasiado free noutros tempos. 

Gosto de tudo o que tem a ver com este encontro: de chegar cedo para observar o ambiente, de dar uma espreitadela aos livros, de comer qualquer coisa no bar enquanto vou ouvindo as conversas e percebendo as diferenças entre os fãs dos vários grupos e tipos de música, reparando nas suas t-shirts (o negro como primeira opção), na provecta idade de alguns (a mesma de alguns dos génios), particularidades de pessoas com culto por esta música tão citadina e inquieta, inquietude que quem a ama nunca perderá. E é precisamente a inquietação que nos leva à procura de um lugar nestas noites de árvores iluminadas para assistir a concertos de gentlemen onde todos tocam para cada um poder brilhar em separado, e a aplaudir isso; a não perder pitada das disputas trocadas entre instrumentos de amigos (em que até é desejável que se levante a voz e se seja irreverente para não estragar a amizade), inebriados com a magia da cidade em que tudo isto pode acontecer, exactamente porque tudo o resto continua a acontecer, como nos lembram a todo o momento os aviões que passam baixo, ali mesmo sobre as nossas cabeças, entrando na música ao fazerem troar num lapso o seu destino, ou a observar que alguns dos pássaros, incomodados por toda esta agitação, por sua vez também levantaram voo, para irem à procura de poiso mais sossegado.

Na madrugada do dia 25 de Agosto de 1988, horas depois de Ornette Coleman actuar na Gulbenkian com a Prime Time Band, ardia o Chiado, uma recordação triste numa noite alegre como esta, há quase vinte e seis anos e sempre, como hoje, Lisboa.



































Publicado em 2/8/2014

Amor libertado

O ser humano, vulgo homem, deveria soltar o amor 
do ele e do ela. Só um amor assim seria, finalmente, livre.

5.8.16

Quarto crescente

de como Lucia Berlin ganhou a Raduan Nassar

- Olá!
- Boa noite, procuro o livro de Lucia Berlin...
- Refere-se ao Manual para Mulheres de... Limpeza?!           
  De momento não temos, esgotou aqui na loja, mas, se lhe faz muita falta, talvez noutra...
- Ah! Não vale a pena, cheguei agora para o concerto, mas volto 
  a viajar logo de seguida. Então dê-me um copo de cólera.
- Muito bem. 

mujeres al borde de un ataque de nervios (10)

4.8.16

Encanto

Quando vires esta lagarta:



pensa nesta borboleta.

Papilio machaon sobre Zinnia


borboleta cauda -de-andorinha


des(encanto)

ele imaginava-a rodeada de flores a cuidar do jardim, usando um chapéu de palha; a podar as roseiras no fim das tardes de Outono; a escrever, inclinada sobre um pequeno caderno; a fotografar o pôr-do-sol de rosto voltado para o fim da luz; a pintar um pássaro com pincéis finos como aparos

ele não estava preparado para a ver carregar carros de mão com flores mortas; para a encontrar a arrancar as ervas do roseiral até à exaustão; para lhe ver o rosto sombreado, atento a um ecrã; para lhe observar o sol morto no olhar; para a ver usar uma trincha no velho muro

e foi por isso mesmo que deixou de a amar

3.8.16

à falta de melhor

















































Posted by Virginia Woolf

Twice a year I make good resolutions - in August and October. My good resolution for August is to work methodically, yet with the grain not against it. Often, my wisdom teaches me, good resolutions wither because forced. And modern science teaches us to respect pleasure, or that is my reading.

1922, Thursday 3 August

2.8.16

talhada

Você tem o cão mais feio do mundo, disse-me um dia quando me viu acompanhada pelo meu Chow-Chow. Isto foi ainda antes de eu ler Konrad Lorenz e de saber que os seus cães preferidos eram cruzados de Chows. Era tudo uma questão de gosto, sem discussão. A minha cadela era um exemplar de rara beleza segundo os padrões da raça, e para além do mais tinha um carácter excepcional. Depois de ela morrer arranjei uma cadelita de raça indefinida, pequena e de pêlo comprido. Ele passou a ver-me com ela e um dia disse-me: Você parece a senhora do cãozinho, o que aconteceu ainda antes de eu ter lido o conto de Tchékhov. Aliás li-o por ele me ter comparado com ela. Fiquei com a sensação de que as pessoas me poderiam, de facto, achar uma mulher misteriosa: sempre sozinha, acompanhada para todo o lado por um pequeno cão, estrangeira na própria terra, não de visita a Ialta, no Mar Negro, mas ali mesmo, ano após ano. Penso que ele o fez em tom elogioso, embora eu o não tivesse entendido como tal. Às vezes cismo que ele sim, poderia ser Gúrov, mas nunca lho disse. Eu talvez também já tivesse sido em tempos Anna Serguéevna, ele não deixava de ter uma certa razão, mas há muito que deixara de o ser. Por isso entre nós ficou uma história intocada, diria que inteira, que a nossa idoneidade, e liberdade, ousou preservar. A caminho da nora e da nespereira, com a cara quente ao sol de Junho, lembrei-me dos poucos contactos que tivemos: o choque térmico do rosto dele (gelado pelo ar condicionado) contra o meu, a escaldar do sol, quando um dia me cumprimentou; a manhã de Inverno em que me perguntou, o que faz aqui fora, minha querida?; aquele dia em que fingiu não saber onde estacionara o carro para que eu o ajudasse a encontrá-lo, e de como me perguntara no fim (e a rir) se queria boleia, apenas para que eu pudesse recusar, agradecendo. E de como voltei a pé para casa, com um cesto cheio de nêsperas.   

melancia



Anna Serguéevna e ele amavam-se como pessoas muito 
chegadas, íntimas, como marido e mulher, como ternos 
amigos; parecia que o destino os fizera um para o outro
e era incompreensível que ambos estivessem casados com
pessoas alheias a eles; como se fossem aves migratórias,
macho e fêmea, apanhadas e obrigadas a viverem em gaiolas 
diferentes. 

Tchékhov/ A Senhora do Cãozinho


(...)Em «A Senhora do Cãozinho», um homem e uma mulher
dormem juntos. Depois do acto sexual, o homem come 
calmamente uma melancia: «Havia uma melancia em cima
da mesa no quarto de hotel. Gurov cortou uma fatia e
começou a comê-la sem pressas. Pelo menos meia hora
passou em silêncio.» É tudo o que Tchékhov escreve.

James Wood / A mecânica da ficção