Atalhos de Campo


23.7.16

Onde canta galo não canta galinha # repost 8

Não, não era uma vez um galo... acontece também que não se passou com ela mas comigo, e que nem sequer foi em uma quinta, mas aqui. E se esperarem um bocadinho, tiro-lhe uma fotografia, para terem a certeza. É que eu ando com um problema de há uns tempos para cá, um problema com este galo absurdo, um pedrês de trazer por casa, um galaró que não se enxerga. Aconteceu assim: ele vinha fraco, era pequeno em relação aos outros galos que já brigavam pela liderança, por isso nos afeiçoámos a ele e foi o escolhido para ficar. Literalmente foi a votos e ganhou. Os outros, cada um de sua vez, acabaram como é costume acabarem os galos, e é melhor nem falarmos nisso. Deixou de haver despique nas cantorias, canta daqui, canta dali, ficou este a cantar sozinho e a tranquilidade voltou ao galinheiro. Claro que quinta que é quinta que se preze tem que ter um galo a cantar de madrugada e ele lá foi cumprindo a sua primeira função de despertador de cabeceira. Devo esclarecer que a princípio era bastante esganiçado e que foi após muito treino que a sua voz começou finalmente a troar imperiosa, obrigando toda a gente a acordar com as galinhas, inclusive com as da vizinhança. Temos galo, pensei. Até aqui foi tudo pacífico, ou quase, porque me lembrei agora que por acaso me desagrada acordar muito cedo. No entanto perdoava-lhe a alvorada por gostar de lhe ficar a observar o cavalheirismo - sempre o último a comer, se pudesse abriria a porta da capoeira para deixar as frangas passar à frente - os meneios palacianos quando ia buscar um grão de milho para o oferecer com galanteria ao vasto público feminino enquanto arrastava a casaca de brocado pelo chão; e por último os gorjeios à Rameau a acompanhar piruetas para atrair a atenção entufando ridiculamente as rendas do pescoço - enfim, um Don Juan digno de se ficar a apreciar. Convém sublinhar que elas não lhe ligavam nenhuma, quem se divertia era eu que me ria dos seus truques, sempre os mesmos, o ar emproado, o laranja do olho a controlar, o pescoço empertigado até à ponta da crista que o coroava rei. Das galinhas. Já tinha ouvido dizer que os galos por vezes atacam as pessoas mas não achava possível que isso acontecesse comigo, que o tratava tão bem. O facto é que aconteceu.




A primeira vez foi à hora da última refeição, ao lusco-fusco, quando me preparava para os guardar nesse Taj Mahal que é a casa onde os galináceos dormem em segurança com pavões e perus. Quando ia a sair fui literalmente perseguida por ele, que sem cerimónias se atirou a mim vestido de guerreiro, empunhando os esporões bem afiados. Mal refeita pela surpresa defendi-me como pude, escudando-me miseravelmente com o cesto onde levava os ovos, e saí da capoeira escorraçada e humilhada, com uma gemada a escorregar-me pela perna abaixo. A partir daí fiz várias tentativas infrutíferas para entrar no galinheiro. O tirano parecia já estar à espera preparado para me agredir, até que desisti, abespinhada, e pensei que dali em diante era ele ou eu. Ganhei, ele ficou em prisão preventiva numa casa mais pequena dentro do recinto onde passeiam, a aguardar sentença, para que eu pudesse voltar em segurança à minha visita vesperal. Agora olho para ele com compaixão e já me apeteceu dar-lhe outra oportunidade, mas tenho a certeza de que vai correr mal.      
    
    
Dedico esta história ao meu Pai, que faria hoje 86 anos, e que me diria sabiamente: convida-me para almoçar, gosto muito de fricassé.

Publicado em 27/5/2014




Adenda (póstuma): 
Correu, de facto, mal. Após um mês de reclusão teve ordem de soltura. A primeira coisa que fez foi conduzir todas as galinhas a toque de caixa para dentro da capoeira. A seguir levou uma tal tareia da perua dominante que ficou moribundo, caído do chão a espernear, de crista ensanguentada. Foi assim que recolheu à sua cela de novo, para morrer com alguma dignidade. Porém, contra todas as expectativas, recuperou. Ao segundo dia já se conseguia levantar. Mas ao terceiro, como não aparecesse para comer, entrei devagar, julgando-o morto ao fundo do compartimento, quando ele afinal estava à espera para me atacar de surpresa, o que fez em voo, mais ou menos como acontece muitas vezes na última cena de um thriller, por exemplo no filme Atracção Fatal. Quando penso nisso ainda me tremem as pernas. 

4 comentários:

  1. galináceo "horribilis criatura"! Arroz de cabidela, como destino final?
    Bom fim de semana, Teresa.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu devia tê-lo mandado para as lutas de galos...
      a esta hora estaria a passar férias nas Bahamas :)
      Boa semana, Mia.

      Eliminar