Atalhos de Campo


18.7.16

frau robert bosch und fräulein max braun

O ruído, que era ensurdecedor, fez-me abandonar de mansinho a cozinha e encostar a porta. Qualquer motosserra seria abaixo de serrote confrontada com aquela barulheira rodopiando em esforço sobre natas, gelatina e doce de framboesa numa tigela fortificada, espaço em volta à prova de gafanhotos de chantilly. Passados que foram alguns minutos ouço uma voz irritada, pifou, a máquina pifou, não percebo porquê, sempre trabalhou tão bem, ainda da última vez, tinha trinta e cinco anos e pifou, assim, sem mais nem menos! Emprestas-me a tua? Sim, mas a minha é minha, tens que arranjar outra para essas coisas... uma máquina batedeira é, como se sabe, um objecto muito exclusivo, portanto... disse-lhe peremptória, entregando-lhe a minha (que é nova, brilhante, silenciosa, turbo). Podes deixá-la sobre a bancada que eu depois limpo-a e arrumo. Sabes que marca era?, perguntou-me no fim. Sim, respondi-lhe, ainda se conseguiam distinguir as duas primeiras letras... Pois, era uma BOSCH, tantos anos a bater gelados e vai logo pifar a meio! Como me parecesse bastante inconsolável ainda perguntei admirada, sublinhando, mas não tinha trinta e cinco anos?... Olha que isso, a partir de uma certa idade, nunca se sabe quando vai acontecer. Soube agora do caso de uma prima por afinidade que morreu no dia dos anos do marido. Ao chegarem a casa, de repente, do nada, disse que não se estava a sentir bem e morreu ali mesmo, dentro do carro, com o bolo de aniversário no colo. Ai foi? Que idade tinha? Foi quando? Foi esta semana, soube à tarde, teria os seus oitenta anos. Se relativizarmos, a tua máquina era bem mais velha, e nem sequer estava a misturar a massa para o bolo do meu aniversário. Isso sim, teria sido um grande azar! O melhor é arranjares uma parecida, rematei ao abandonar a cozinha. Acho que ainda lhe ouvi a sair de entredentes a palavra ciosa, mas não liguei. Uma mulher também tem direito a ter os seus objectos pessoais.  

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